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O trabalho é duro, mas a motivação é muito maior , diz voluntário em Santa Catarina

BLUMENAU ¿ Noite chuvosa em Blumenau, e o analista de planejamento estratégico Brunno Pessoa não consegue dormir. ¿Aqui, chuva é sinônimo de medo, e medo provoca insônia¿, diz o voluntário em seu ¿Diário S.O.S Santa Catarina¿, na internet. O jovem, de 27 anos, é uma das milhares de pessoas que resolveram dedicar tempo e vontade à tarefa de ajudar as vítimas das enchentes que deixaram 128 mortos no Sul do País.

Juliana Kirihata, do Último Segundo |

Acordo Ortográfico

No início do mês de dezembro, Pessoa decidiu tirar férias para poder viajar a Santa Catarina, onde havia sido decretado estado de calamidade pública por causa das chuvas. "A minha decisão por vir foi tomada em dois dias, comovido com a situação e pelos anúncios sobre a necessidade de voluntários", conta.

Antes de partir de São Paulo, onde mora, o jovem conversou com funcionários da Defesa Civil do Estado afetado, que o ajudaram a encontrar um hotel em Blumenau. As diárias, porém, são pagas por ele próprio. "Liguei para o hotel e expliquei a minha intenção de ir para ajudar. Consegui que eles diminuíssem o preço de R$ 70 reais para R$ 30". Além disso, ele se increveu no site www.voluntariosonline.org.br , que cadastra interessados em ajudar as vítimas. Já em Santa Catarina, o primeiro passo foi procurar o centro de doações.

Logo ao chegar à Vila Germânica, local onde ocorre a Oktoberfest, e está sendo utilizado como centro de arrecadação e distribuição de donativos, fui me informar sobre onde se encontrava o centro de cadastro de voluntários. A hospitalidade e a garra desse povo me cativaram, relata ele em seu " Diário S.O.S Santa Catarina " criado para registrar os dias no novo lugar e também para tocar as pessoas para a solidariedade.

Arquivo pessoal

Brunno Pessoa na Vila Germânica

Desde que chegou ao hotel ao lado da Vila Germânica, Pessoa escreve os detalhes do trabalho de ajuda às vítimas. No primeiro dia, o analista trabalhou "cheio de esperança" no setor de separação de colchonetes. Suei a camisa, que era branca e ficou preta... e carrega colchonete pra cá, e empilha pra lá, e separa o outro ali, e sobe e desce escadas. Trabalho duro, mas a motivação é muito maior, registrou no dia 8 de dezembro.

Dez dias depois, o jovem não estava somente no setor de colchonetes. Por causa da diminuição da quantidade de voluntários, acabou virando um faz-tudo. Quando cheguei aqui devia ter umas 300 pessoas, era tudo mais organizado, existiam times. Hoje não chega a 40 pessoas. O tempo vai passando e as pessoas vão esquecendo, não sei, diz.

Apesar da queda do número de colegas voluntários, Pessoa lembra que a contratação recente de uma empresa de logística  melhorou a distribuição dos donativos nos últimos dias. Mesmo assim, o trabalho é puxado para quem vai ajudar: O cansaço é visível nos gestos e olhares de cada um, em cada gota de suor que escorre pelo rosto e umedece a camisa. Enquanto parte do grupo trabalha, outra parte observa e descansa para repor a energia, escreveu ele no quinto dia de trabalho.

Indignação e injustiça

Arquivo pessoal

Soldado trabalha no centro de distribuição

No início da semana, a notícia de roubo dos donativos  por alguns voluntários e soldados deixou Pessoa indignado. Na segunda-feira, seu diário relatava: É bem verdade que já houve casos de voluntários se apropriando de doações, eu cheguei a testemunhar duas cenas e me senti envergonhado e covarde por não ter feito nada na hora. Porém, são fatos isolados e que jamais deveriam ter destaque maior na imprensa. A dedicação, a seriedade e o carinho que a maior parte dos voluntários tem naquele pavilhão são muito maiores do que raras exceções que acontecem ali naquele espaço.

Ele conta que, no dia da divulgação do caso, chegou a ficar com insônia. Senti-me indignado e injustiçado, como a maioria dos que estão trabalhando ali. Eu entrava nos portais de notícia e o que me deixava mais triste eram alguns comentários ofensivos de internautas

Arquivo pessoal

Brunno, à direita, com colegas voluntários

contra os voluntários. Os soldados também fazem um trabalho maravilhoso por aqui e, por causa de cinco ou seis pessoas, a imagem deles é prejudicada, afirma. Segundo Pessoa, a informação dos casos de roubo espantou muitos voluntários que poderiam aparecer no centro de distribuição de Blumenau.

O caso, porém, não o desanimou. O jovem ficou em Santa Catarina até o dia 20, mas pretende continuar a trabalhar como voluntário em São Paulo. Eu soube agarrar a oportunidade e há 10 dias vivo essa experiência única, que levarei para o resto da minha vida. Experiência que, talvez, poucas pessoas já se deram a oportunidade de viver, diz ele.

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