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O brasileiro está viciado em prazeres imediatos e é preciso mudar esse comportamento

O brasileiro está viciado em prazeres imediatos e é preciso mudar esse comportamento Por Ciça Vallerio São Paulo, 27 (AE) - O enfarte, que era tido como uma ameaça aos homens, hoje é a primeira causa de morte feminina. O estilo de vida da mulher moderna está diretamente associado a essa mudança.

Agência Estado |

"Nos últimos anos, houve um aumento expressivo dos fatores de risco entre a população feminina, principalmente aqueles responsáveis pelo surgimento de doenças do coração", destaca a médica Elisabete Fernandes Almeida, de 53 anos, que tem especialização em Educação Médica Continuada pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e é diretora do departamento de Educação Médica para Leigos da Associação Paulista de Medicina.

A médica cita o levantamento realizado pela Med-Rio Check-up, entre 1990 e 2007, com 4.200 mulheres de vários estados do País, entre 30 e 60 anos. Esse estudo, intitulado "Perfil de Saúde da Executiva Brasileira", revela que o número de casos de colesterol e triglicérides elevados entre elas subiu de 25% para 42%; os de hipertensão arterial saltou de 11% para 16%; e os de insuficiência coronariana, apontada por meio do teste ergométrico, de 6% para 12%.

AGÊNCIA ESTADO - O que mais dificulta a mudança no estilo de vida em busca de qualidade?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Muita gente sabe dos malefícios do sedentarismo e da alimentação incorreta. Mas a maioria diz que não tem tempo para praticar uma atividade física e não se esforça para mudar os hábitos alimentares. As pessoas imaginam que só se combate o sedentarismo com uma hora de academia. Dessa forma, realmente fica mais difícil encontrar tempo para malhar. Mas é possível deixar de ser sedentário realizando atividades do cotidiano. Existem várias alternativas.

AE - Quais são essas alternativas?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Uma boa opção é fracionar o tempo necessário de atividade física, que é de 45 minutos, para o resultado cardiovascular ser benéfico. Pode caminhar, por exemplo, 15 minutos, distribuídos durante o dia: de manhã, após o almoço, e à noite. Trocar o conforto do carro pela caminhada é um bom começo. Substituir o elevador pela escada também é um bom exercício. Basta começar com dois lances e ir aumentando. Acho caminhada mais prática, porque pode ser feita em qualquer lugar, não é preciso gastar nada. Para a mulher que trabalha o dia inteiro, seria uma boa idéia ter uma esteira em casa, para não dar aquelas desculpas de que não foi andar porque choveu, fez frio, etc.

AE - Fracionar as atividades físicas funciona?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Essas atividades fracionadas durante o dia têm efeito somatório. São pequenas adaptações, que estão dentro das possibilidades de todos, mas que as pessoas não enxergam. É o que chamo de pulo do gato. Com o tempo, quem passa a praticar algumas dessas alternativas regularmente começa a se sentir melhor e, aos poucos, vai ampliando a programação. Até mesmo porque quem faz atividade física regularmente fica viciado na endorfina, substância que o organismo fabrica e que é responsável pela sensação de bem-estar.

AE - E para quem quer emagrecer?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Os 45 minutos fracionados vão ajudar muito a fazer um trabalho cardiovascular, mas não vai queimar calorias suficientemente. Razão pela qual esse método é indicado para quem não tem problema de peso. Para perder medidas, a atividade física deve ser contínua e a partir de 22 minutos. É o tempo que o organismo precisa para ativar seu metabolismo e, dessa forma, queimar calorias. O indicado é realizar alguma atividade física contínua de 45 minutos, pelo menos duas vezes por semana.

AE - Por que as mulheres sentem mais dificuldades para emagrecer após uma certa idade?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Depois dos 45 anos, há redução da produção de alguns hormônios que antes ajudavam a acelerar, digamos assim, o metabolismo. Nesse período, é fundamental acompanhar a medida da cintura abdominal, no que se chama de relação cintura-quadril (RCQ). É fácil e dá para fazer em casa mesmo. Basta posicionar a fita métrica, dessas comuns, na altura do umbigo e medir. O valor máximo para a mulher é de 80 centímetros, segundo padrão estabelecido pela Organização Mundial da Saúde. Antes, era de 88 centímetros. Mas essa informação foi pouco divulgada.

AE - A relação cintura-quadril está associada a qual problema?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Essa medida é considerada hoje mais importante do que o índice de massa corpórea (IMC), pois revela de forma simples que a gordura ruim acumulada na região vai para o coração e pode obstruir uma artéria. Portanto, quem tem mais de 80 centímetros já corre risco cardíaco e precisa tomar medidas preventivas, como dieta e condicionamento físico para chegar até esse limite. O índice para homens era de 100 centímetros e agora é de 90.

AE - A mulher está exposta a outro fator de risco?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Nas últimas décadas, ela vem se submetendo à dupla e até à tripla jornada de trabalho, incluindo aí cursos de especialização e pós-graduação, que entram na já atribulada vida cotidiana. O custo disso é o surgimento de doenças crônicas, que antes eram mais comuns ao universo masculino, tais como doenças cardiovasculares e o estresse. A pesquisa Perfil de Saúde da Executiva Brasileira, da Med-Rio Check-up, mostra que os níveis de estresse e o estilo de vida inadequado aumentaram entre as mulheres pesquisadas. Em 1990, era de 40%, e hoje está na casa dos 62%.

AE - O estresse está relacionado a quais fatores?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - O corpo passa a produzir altos níveis dos hormônios cortisol e adrenalina, responsáveis pelo estreitamento dos vasos sanguíneos, aumento da coagulação e alteração do metabolismo das gorduras do sangue e do açúcar. Essas alterações comprometem a memória e interferem na libido feminina. Mas o estresse também está associado ao aumento da insônia nas mulheres, de 16% para 26%; tabagismo, de 30% para 40%; e da automedicação, com tranqüilizantes, vitaminas, analgésicos e moderadores de apetite, de 12% para 20%.

AE - Esses dados sugerem que as mulheres não estão se cuidando?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Estudos mostram que não. Cerca de 80% dos 100 executivos homens e mulheres com idade média de 47 anos, que foram monitorados pelo Centro de Acompanhamento da Saúde e Check-up do Hospital Sírio-Libanês, apresentavam algum tipo de alteração nos exames. O resultado indicava que eles necessitavam de algum tipo de tratamento ou mudança de estilo de vida. Mas apenas 20% deles seguiram orientação médica para prevenção de doenças. É incrível constatar que poucos foram aqueles que passaram a cuidar da saúde, mesmo sabendo que 80% dos fatores de risco que desencadeiam doenças cardiovasculares podem ser evitados. A prevenção poderia afastar hipertensão e diabetes, principalmente a do tipo 2, doenças que estão cada vez mais presentes entre as mulheres, como conseqüência do estresse, obesidade e sedentarismo. É muito melhor evitá-las, do que ter de mudar radicalmente o estilo de vida depois que se instalam e se tornam crônicas.

AE - Por que há tanta resistência em investir na prevenção?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Porque o brasileiro está viciado nos prazeres imediatos. Quem está deprimida vai às compras e sente certo alívio. Basta estar estressado, ansioso para pegar um cigarro ou comer. E parar de fumar ou manter uma alimentação saudável e equilibrada não vai proporcionar prazeres na hora ou no dia seguinte. O prazer só vai aparecer lá na frente. Deixar de comer a gordura da carne no churrasco, para quem gosta, não é a mesma coisa. Então por que se "sacrificar"? - muitos pensam assim.

AE - Com relação à automedicação, o consumo de moderadores de apetite é o mais alto?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - A cobrança para se ter boa aparência influencia muito no aumento da automedicação entre as mulheres. Além de moderador de apetite, elas tomam vitaminas, entre outros remédios considerados naturais que prometem emagrecimento. Mas o que também tem preocupado é o crescente uso de diuréticos, remédio que é vendido sem receita médica.

AE - O que o uso indiscriminado de diurético pode causar?

ELISABETE FERNANDES ALMEIDA - Mais de 80% do nosso corpo é formado por água, que é vital para tecidos, células e músculos. Mas muitas acreditam que estão gordas por causa de "inchaço". Aí ela escuta da amiga, vizinha, que para desinchar deve tomar diurético. Depois de usar esse medicamento, a primeira coisa que nota são os dedos das mãos mais finos. Então ela passa a acreditar que está mais "enxuta", magra. Só que o remédio está tirando a água vital do organismo. E ao longo do tempo, ela vai ter problemas cardíacos e disfunção renal, porque o diurético acelera o metabolismo do coração e rim para o organismo eliminar líquido. Mas depois de dormir, volta tudo de novo e ela toma mais até se tornar dependente.

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