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Nem Deus é meu amigo nessas horas , diz ex-presidiário morador de rua

P., de 31 anos, ficou 11 anos e três meses preso por roubo a mão armada. Fugiu duas vezes e foi recapturado. Há oito meses está solto. Há quatro, nas ruas. Hoje, diz que não pensa mais em ¿fazer besteira¿ e que o sofrimento está fazendo com que reflita. ¿Eu nunca imaginava que um dia estaria vivendo isso. Estou passando a maior vergonha, nunca precisei pedir um pedaço de pão¿, diz.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

Lecticia Maggi
Castelinho onde P. almoçava
P. conversou com a reportagem no castelinho, na esquina da Rua Apa com a Avenida São João, no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, onde funciona a Associação Clube de Mães do Brasil. Foi ao local à procura de um prato de comida.

Ele conta que, assim que deixou a penitenciária, começou a trabalhar em um lava-rápido e ganhava cerca de R$ 400 mensais. Numa quarta-feira, seis meses depois, brigou com o dono do estabelecimento e foi despedido. Com isso, também perdeu sua casa. Minha mãe e irmã falaram que eu fui mandado embora porque tinha roubado, mas nunca toquei em nada lá. Só que elas me colocaram na rua, afirma.

A primeira noite fora de casa P. conta que passou com raiva da mãe e chorando muito. Eu gosto dela. Já estou com 31 anos, mas ainda faz falta um carinho, um abraço, um afeto de alguém..., diz. A namorada e os amigos também o deixaram quando ele foi pra rua. Olha a minha situação. Quem vai me querer desse jeito?, pergunta mostrando as mãos e as roupas sujas. Nem Deus é meu amigo nessas horas.

"Fico sempre com uma faca na mão. Tenho que me proteger"

P. não quis ter o nome completo publicado, nem tirar fotos para a reportagem. Ele explica que não quer correr o risco que a sua família saiba a situação em que se encontra.

Estratégias das ruas

Para viver nas ruas, P. diz que são precisas algumas estratégias. Em quatro semanas, foi furtado quatro vezes. Agora, dorme durante o dia, encostado em sua mochila, e à noite anda pela cidade, sempre atento. Fico com uma faca na mão. Tenho que me proteger, afirma.

P. recolhe material reciclável e vende no ferro velho para conseguir dinheiro. O que ganha usa para tomar banho em hotéis, ao preço de R$ 5 por duas horas, comprar comida, cigarros e drogas de vez em quando.

"Pelo menos uma refeição por dia você tem. Às vezes, não tem café da manhã, mas consegue o almoço"

Fome, diz que não passa. Pelo menos uma refeição por dia você tem. Às vezes, não tem café da manhã, mas consegue o almoço. Se chegar num self-service entre 3h e 4h eles te dão a sobra, afirma. Fora isso, diz que é difícil conseguir ajuda, até mesmo em instituições religiosas. Já fui em porta de igreja pedir uma força, mas o padre olha e fala não tem, vai com Deus, amigo, conta.

Preconceito duplo

Nas ruas, o preconceito é duplo. Por ser egresso de penitenciária, não consegue emprego. Por ser morador de rua, vê as pessoas mudarem de calçada quando o encontram. A última vez foi uma mulher que falava ao celular e, quando o viu, guardou o aparelho e acelerou o passo. Eu me senti mal, mal mesmo. Eu nem tava pensando em maldade. Passei perto dela e falei: minha senhora, não precisa ter medo que você não conhece o perfume pelo frasco que ele tem, diz.

Mesmo com as dificuldades de viver na rua, diz que prefere a vida atual à da cadeia, quando chegou a dividir celas com até 50 pessoas. Se nada mais lhe restou, pelo menos pode ir e vir sem dar satisfação para ninguém.

"A droga está sendo meu alicerce, sem ela ia fazer besteira"

Usuário de drogas, P. conta que a primeira vez que fumou maconha foi aos 5 anos, com o pai. Ele era doidão. Acho que é de sangue isso, diz. Quando começou a trabalhar aos 12 anos, o uso tornou-se frequente. Depois, passou para o crack e a cocaína. Enquanto esteve preso, porém, diz que se manteve limpo. Eu estava firmão, comecei a usar depois que me mandaram pra rua, conta. Mesmo sem dinheiro, diz que é fácil conseguir drogas. É só chegar perto de alguém que está usando e, quando tiver, também dividir com os outros, afirma.

P. diz que não tem motivação para largar as drogas agora e quer primeiro arranjar um emprego para depois sair de São Paulo. Uso droga para esquecer os meus problemas e montar meu castelo de ilusão, afirma. Está sendo meu alicerce por enquanto, sem ela ia fazer besteira. Eu uso um barato, sento num lugar longe de todo mundo e fico pensando: se tivesse feito isso, se tivesse feito aquilo... .

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