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Meu plano é ficar bem , diz jovem retransplantada do coração

SÃO PAULO - Nauara Erenith Jardim, de 27 anos, aprendeu muita coisa com seus três corações. A principal, não fazer planos para o futuro. ¿Meu único plano é ficar bem e estabilizar minha saúde¿, afirma. E, de preferência, longe do Instituto do Coração (InCor) de São Paulo, onde já foi submetida a dois transplantes. ¿Lá é minha segunda casa, mas tudo que desejo é ficar longe deles¿, diz, aos risos.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

Arquivo Pessoal

Nauara se diz uma "transplantada rebelde"

Nauara nunca havia tido um problema de coração até os 13 anos de idade, quando os médicos descobriram uma miocardiopatia dilatada*. A doença de nome difícil a deixava cansada e impedia de praticar exercícios físicos. No começo, achou que tudo era preguiça, mas, em três meses estava na UTI.

A doença evoluiu rápido e os médicos não sabiam o que a havia causado. Eles acham que foi um vírus de gripe que peguei e se alojou no coração, explica. Perto do transplante, não conseguia sentar sozinha, nem escovar os dentes, conta, mas ressalta que nunca deixou a peteca cair".

Em agosto de 1996 recebeu um novo coração que, depois, por investigação própria, soube que era de um rapaz que havia sofrido um acidente de moto. Com ele, voltou a ter vida (quase) normal. Fiz esportes, morei 4 anos no exterior, comecei a faculdade de Direito, mas parei porque não gostei, afirma.

No trabalho, porém, diz que sempre se sentiu vítima de preconceito. Você não é considerada deficiente e não entra na lei, mas toma medicamentos fortes, tem facilidade para pegar certas doenças e precisa faltar para fazer check-ups, afirma. Essa compreensão da empresa com a sua situação, ela diz que nunca teve. Em um dos empregos, contou que era transplantada, mas isso não a impedia de fazer nada, e conveceu o gerente a contratá-la. Fazia jornada de até 12 horas, mas peguei uma gripe e precisei ficar internada, então, fui julgada de mentirosa. Quando voltei, só me passavam trabalhos mais fáceis, lamenta.

Arquivo Pessoal

Nauara e suas paixões: o namorado e o gato

O coração que ganhou lhe deu 12 anos de vida até seu corpo começar a rejeitá-lo, em janeiro de 2008. Os sintomas foram os mesmos que teve aos 13 anos: cansaço, vômitos e dores no estômago. Fiquei preocupada, mas só fui ao hospital quando não aguentava mais de dor, diz. Dois dias depois de procurar ajuda, estava na cama de UTI, onde passaria os próximos quatro meses.

Desta vez, não queria se desfazer de seu coração. Com 13 anos era muito nova. Dessa vez, caiu a ficha que seria o órgão de outra pessoa, diz. Nauara conta que tentou diversos tratamentos alternativos e negou o transplante até ouvir dos médicos: ou você faz um retransplante ou morre. Então, aceitou colocar seu nome na lista de espera. Saiu e entrou diversas vezes porque pegava infecções. Você tem que estar bem para a cirurgia, diz.

Arquivo pessoal

Ela quer, agora, "tratar da mente"

Transplante feito, Nauara se orgulha de ter sido um dos únicos casos de retransplantados de coração a sair do InCor com vida. Já tive enfarte, parada cardíaca e fiquei 3 minutos sem respirar. Brinco com os médicos que Deus não me quer, não, afirma. O que eles respondem? Que pelo jeito lá embaixo também ninguém me quer, ri.

Com coração novo, Nauara quer retomar sua vida e cuidar das cicatrizes psicológicas que o retransplante deixou. Ficava muito mal de ver as pessoas na UTI e até hoje sou claustrofóbica. Tomo antidepressivos, diz.

Tida como a transplantada rebelde, fala com orgulho das sete tatuagens (uma feita após o retransplante) e dos dois piercings. Os médicos ficam loucos, ri, acrescentando que não aconselha ninguém a segui-la. Mesmo após um aborto espontâneo e sabendo dos riscos que sua condição traz (os remédios para que o corpo não combata o coração são muito fortes e acabam expulsando o feto), ela diz que não abre mão de um dia tentar ser mãe. Também quer casar e voltar a trabalhar. Mas, por enquanto, seu plano é ter saúde.

Há 15 dias, venceu mais uma de suas batalhas: conseguiu, pela primeira vez desde a segunda cirurgia, passear no parque com o namorado. Fiquei muito feliz, andei sem ter que tomar remédio para a dor.

*Segundo a medicina, miocardiopatias são doenças progressivas que comprometem a função da bomba da parede muscular (miocárdio) e das câmaras inferiores e maiores do coração (ventrículos). No caso da miocardiopatia dilatada, os ventrículos dilatam e não são capazes de bombear sangue para suprir as necessidades do organismo, acarretando insuficiência cardíaca.

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