A professora universitária *Cristina, de 52 anos, é um exemplo de que a violência não está somente na rua. Após 23 anos em um casamento envolto por brigas e desentendimentos, foi humilhada e agredida fisicamente pelo marido. Após o episódio, desenvolveu o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Além dele, teve o que os psiquiatras chamam de comorbidades, que são os distúrbios relacionados. No caso dela, depressão e síndrome do pânico.

Cristina desenvolveu um dos casos mais graves da doença e chegou a ficar internada por três dias em um hospital psiquiátrico. Tentei suicídio por cinco vezes, conta. Também perdeu 11 quilos e diz ter ficado com problemas de concentração e memória. Me sinto confusa e não consigo explicar mais meus sentimento. Me perdi e permaneço assim.

"Não consigo mais ter perspectivas para minha vida"

Atualmente, faz terapia e um tratamento homeopático - diz que os convencionais não lhe trouxeram melhora ¿ e conta estar mais controlada, mas não menos vazia. Não consigo mais ter perspectivas para minha vida. Desde que acordo até quando vou dormir é uma instabilidade tão grande, só sinto angústia, ansiedade e medo, admite. Falar sobre o assunto ainda é difícil para a professora, mas afirma que, mesmo que tente esquecer, os pensamentos a invadem constantemente.

Segundo ela, o casamento foi marcado por violências psicológicas, nas quais chegava a ser xingada de "vagabunda, ladra e outros adjetivos impublicáveis". Apesar dos desentendimentos, nunca chegaram a se separar de fato, até que no final de 2008 o ex-marido arrumou uma nova companheira. E a acusou de ter provocado a situação. Me humilhou com acusações infundadas e agressões verbais e físicas. Saiu e só no fim do dia avisou nosso filho por telefone que não voltaria mais, relata.

Isolei-me e não tinha ânimo para nada. Não conseguia acreditar como era possível tanta crueldade após 23 anos de casamento

Nos três primeiros meses, Cristina diz ter ficado com depressão profunda e síndrome do pânico, mas, depois, apareceram os sintomas do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): insônia, fadiga, irritação, pensamentos repetitivos sobre a situação, desânimo, baixa-estima e sensação de inutilidade. Isolei-me e não tinha ânimo para nada. Não conseguia acreditar como era possível tanta crueldade após 23 anos de casamento, afirma, acrescentando que são raros os momentos do dia em que não pensa na agressão sofrida. Tudo o que faço me remete àquela situação, objetos, certos ruídos.

Cristina continua tratando da doença, mas constantemente se indigna com a própria situação. Acho que ninguém me suporta mais. Penso que até minha terapeuta se encheu de mim, afirma.

* O nome da entrevistada foi trocado para preservar sua identidade

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