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Linha de Passe é bem recebido e emociona em Cannes

O filme Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, foi exibido na manhã deste sábado (17) em uma sessão exclusiva para jornalistas no Festival de Cannes. Os cerca de 2 mil profissionais da imprensa aplaudiram muito o segundo concorrente brasileiro à Palma de Ouro, que chegou a provocar lágrimas nos espectadores.

Redação com AFP |

A crítica internacional se mostrou até agora generosa com o filme. Além de elogiar muito o elenco, o Hollywood Reporter afirma que é uma obra "muito bem sucedida, tanto como drama como ao mostrar a realidade de se crescer pobre, sem futuro à vista". Ressalta, no entanto, que o filme não deve encontrar uma receptividade comercial tão boa quanto os trabalhos anteriores de Salles, já que o nome mais conhecido no elenco é o de Vinícius de Oliveira, que interpretou o garoto que cativa Fernanda Montenegro em "Central do Brasil".

O britânico Screen Daily, por sua vez, classificou "Linha de Passe" como "denso, envolvente", além de ser uma "alternativa pé-no-chão a filmes mais românticos e estilizados com os quais o cinema brasileiro tem sido identificado ultimamente", citando "Cidade de Deus", "Cidade Baixa" e "Tropa de Elite".

Inspirada em grande parte por fatos reais, "Linha de Passe" conta a história de quatro irmãos que buscam seu caminho na vida. De pais diferentes, os quatro vivem com sua mãe, empregada doméstica que espera outro filho. Como em "Terra Estrangeira", primeiro filme que reuniu Salles e Thomas, e "Central do Brasil" de Salles, "Linha de Passe" apresenta um panorama com um pai ausente.

AFP/François Guillot
Depois de "Central do Brasil", Vinícius de
Oliveira volta às telas com Walter Salles
"O Brasil se explica pela ausência crônica de um pai, historicamente. Os portugueses nos deram o nome de uma árvore, e em seguida levaram para Portugal todo o pau-brasil que existia na costa. Dessa forma, fomos batizados por um pai-padrasto que deixou o país abandonado. Talvez isso explique porque estamos sempre em busca de um pai", declarou Salles em coletiva de imprensa após a primeira exibição do filme.

"Tivemos um presidente, Getúlio Vargas, que era chamado de 'pai dos pobres', mais uma vez o pai que se busca. Recentemente se publicou uma estatística que mostra que o número de famílias sem pai no Brasil é de cerca de 20%".

"O resultado é que muitas família brasileiras são dirigidas por mães corajosas que fazem o papel da mãe e do pai, elas representam para mim uma espécie de resistência moral, ética. Isso aparece no filme", explicou.

Em relação à direção compartilhada com Daniela Thomas, Salles declarou que sua "idéia era volta ao cinema como uma aventura coletiva". "É algo difícil de fazer de maneira contínua, mas depois de vários filmes sozinho, poder voltar a essa essência coletiva e fazer um filme enriquecido por olhares diferentes alimenta não apenas esse projeto, mas também os outros".

Ao comentar sobre as etapas do projeto, o cineasta brasileiro explicou que "houve uma dialético ao redor do filme como um todo", com "todas as etapas feitas a quatro mãos", com um "trabalho de liberdade que incorporou as colaborações dos atores, quase todos estreantes, que enriqueceram o roteiro com suas idéias e improvisos".

Doze anos após "Terra Estrangeira", Salles e Thomas quiseram voltar o olhar para a juventude brasileira. Mostra-se "uma família disfuncional, uma família um pouco em pedaços, um pouco da imagem do Brasil, mas sem romantismo. Por uma vez, queriam fazer um filme sobre as pessoas que se salvam", comentou o diretor.

"Vivemos em um país em que a realidade está em movimento constante, o Brasil é, contudo, um país em formação. A cada dois dias temos a impressão de confrontar uma realidade que não conhecíamos, uma realidade que ultrapassa a ficção", acredita Walter Salles, assinalando que isso "impõe um verdadeiro desafio aos cineastas: Como acreditar em histórias sincronizadas com nosso tempo? Como fazer filmes do mundo em que vivemos?".

"Para integrar essa realidade ao cinema, nós partimos de história reais, nos inspiramos em documentários" e a partir disso "criamos um roteiro aberto para que a história transforme o filme".

"Linha de Passe" é um filme "feito no limite entre o documentário e a ficção, porque os 'docudramas' não me agradam em nada", concluiu Salles.

Brasil em Cannes

Além de "Linha de Passe", o Brasil concorre à Palma de Ouro com "Blindness - Ensaio sobre a Cegueira", adaptação de Fernando Meirelles para a obra de José Saramago, exibida na sessão de abertura do festival, na quarta-feira. O filme, no entanto, não sensibilizou a crítica especializada, que se dividiu entre os que adoraram e os que rejeitaram com veemência a produção.

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A torcida pelo país continua na mostra paralela Um Certo Olhar (A Certain Regard), dedicada a filmes de diretores estreantes. É o caso de "A Festa da Menina Morta", estréia na direção do ator Matheus Nachtergaele, e "Afterschool", primeiro longa do brasileiro-americano Antonio Campos, com estréia programada para domingo. O documentário O Mistério do Samba, por sua vez, que conta com a participação de Marisa Monte para narrar o cotidiano da Velha Guarda da Portela, encerrará a mostra Cinéma de la Plage.

Com presença cativa em Cannes, os curtas-metragens brasileiros terão quatro representantes nesta edição. "Areia", de Caetano Gotardo, e "A espera", de Fernanda Teixeira, estão na lista de filmes da 47ª Semana Internacional da Crítica, que será realizada entre 15 e 23 de maio, e que premiou no ano passado Um Ramo, dos paulistas Juliana Rojas e Marco Dutra. Já o curta "Muro", do pernambucano Tião, foi selecionado para a mostra Quinzena dos Realizadores. O quarto e último curta brasileiro é "O som e o resto", de André Lavaquial e Rodrigo Rueda Terrazas, que estará na mostra Cinéfondation.

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