Rita Cadillac tem duas poodles negras, Naomi e Angel. Naomi é mãe de Angel, e ambas são chamadas de ¿filhas¿ pela ex-chacrete. Ficam sempre ao seu redor, zelando, como quem guarda a mais preciosa das pepitas. Naomi se alterna em observar atentamente, dormir, rosnar ou latir para o visitante, enquanto a mãe adotiva fala sobre sua vida e sobre o documentário ¿Rita Cadillac ¿ A Lady do Povo¿, do diretor paulista Toni Venturi (de ¿Cabra-Cega¿ e ¿Latitude Zero¿), que estreia dia 16 (a data original era 9) em Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

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Rita Cadillac no carro com seu nome: "nunca tive medo da cadeia"

Se não fossem pensar que estou maluco, eu diria que Naomi rosna e late quando não gosta das perguntas ¿ mas não digo nada, e segue abaixo a entrevista com a lady do povo.

Eu tinha visto o filme anos atrás, numa pré-estreia em que você estava presente. Por que demorou tanto para entrar em cartaz?
Eu não sei, você sabe que documentário é uma coisa muito difícil, né? A gente ia lançar no ano passado, mas aí saiu o do Simonal, que é da mesma distribuidora. Pra botar Simonal e Rita Cadillac em seguida, acharam que um poderia apagar o outro.

Lembro que você estava bastante emocionada naquele dia.
Eu fico. Fui ver ontem [quarta-feira] uma sessão no Sindicato dos Bancários, chorei de novo, não tem jeito [ri]. Mas não fico ansiosa, ansiosa, ansiosa. A única coisa que sempre falo é olha, quando vocês virem o filme, não olhem com esses olhos, mas com os olhos do coração. Fico esperando umas reações, quando vejo que as pessoas estão paradas, olhando, aí já me tranquilizo. É difícil ver documentário, quem vai ver mesmo são pessoas mais intelectuais, que curtem cinema. O povão mesmo, pra ver e curtir, não quer...

Dá medo de ser julgada por esses intelectuais?
Não, não tenho medo de nada, não [Naomi rosna].

É que você se expõe muito falando, não é uma coisa que as pessoas estejam acostumadas. Aparece uma outra Rita Cadillac nesse filme, não?
Tá, tá aparecendo, total. Mas não tenho medo não, nenhum. Nenhum, nenhum, nenhum. Maravilha. Acho ótimo. Quero mais é que as pessoas falem, se não gostarem digam não gostei, não gosto de você. Até agora não aconteceu, graças a Deus. Ontem mesmo teve um debate depois da sessão, e umas pessoas falaram olha, eu vim ver, mas já com aquela pedra na mão, vim ver com preconceito, mas agora não tenho [ri]. Estou falando a verdade, não estou mentindo, as pessoas têm que saber também.

Falar a verdade é uma arma poderosa, não?
Eu acho que sim, você tem o poder de falar a verdade e as pessoas compreenderem. De repente, se você fala uma mentira, as pessoas vão saber que é mentira, então não vão aceitar aquela sua atitude.

A coisa que mais me impressiona no filme são as cenas de Serra Pelada. Tem que ter muita, muita coragem para ir lá como você fez, não?
É, agora é muito fácil, mas naquela época foi muito difícil, em todos os sentidos. Não tinha mulher nenhuma lá, só eu. Você se depara com não sei quantos mil homens. São 10 mil, 60 mil homens, e você é a única mulher. Ainda fiquei sabendo que uma semana antes eles botaram um telão lá e passaram Aluga-Se Moças [pornochanchada de 1982 em que Rita atuou]. Pô, legal, né?, fiquei sabendo e pensei, acabou comigo, eu vou morrer, vou ser estuprada. E foi uma experiência maravilhosa, um carinho e um respeito muito grande. As pessoas só queriam chegar perto de mim. Quando narro que achei que estava levando pedrada deles, eram pepitas de ouro que jogavam para mim, e eu não sabia.

Você pegou?
Eu peguei, mas não podia trazer. Não podia trazer ouro, você tinha que transformar lá mesmo em joia. Derretia aquele ouro e fazia uma liga. O ouro bruto você sabe que não vale nada, porque ele é preto, escuro.

O que passa na cabeça nessa hora?
Medo. Aí é medo. Você está ali, não está agradando, agora vou ser apedrejada mesmo. E foi quando Luiz Andrade, meu empresário na época, falou: Ô, burra, isso aí é ouro, fica quieta.

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"Em Serra Pelada, achei que estava levando pedrada. Eram pepitas de ouro"

Quem teve a ideia de você ir se apresentar em Serra Pelada?


Foram os garimpeiros lá que ligaram pro Luiz, um belo dia ele falou, você vai viajar pra um lugar que você nunca imaginou. Só faz uma mala, esquece salto alto que é só pra hora do show, leve roupas vaporosas que você vai morrer de calor. Falei, vou pra onde, pra selva? Vai [ri]. É claro que na hora fiquei com medo.

Pensou em dizer não?
Nem pensar, eu quero mais é ir. Fui pra Imperatriz (no Maranhão) de avião de carreira, depois pegava um teco-teco que não tinha radar, rádio, nada. É voo cego, ali não tem radar, se um Boeing e um Air Jet se chocaram, imagina um bichinho desse tamanho.

Descia em Marabá (Pará)?
Em Serra Pelada mesmo, em pista. Mas eu desci na selva, porque o avião caiu.

Caiu??
Embaixo de temporal, não sei se foi um raio, só sei que o piloto falou, olha, nós vamos cair, mas não fiquem assustados. Legal. Me benzi, eu tenho filho pra criar, pelo amor de Deus. Éramos eu, o Luiz, o piloto e galinhas, porcos. O avião não tinha assento, você ia sentada em cima de caixas de alimentação. Caiu na copa de uma castanheira, que segurou, por incrível que pareça. Bateu na castanheira e foi indo, arrancando as copas devagar, se estabacou lá na frente. Nego, eram melhores pilotos do mundo. Não existe piloto melhor que piloto de garimpo. Ficamos com um arranhão aqui e ali, galinha pra todo lado, acabou o avião. Chuva que nem um cão, lama que nem um cão. O piloto, pega sua bagagem, bota na cabeça e vamos andar. Não estávamos tão longe, tinha aquelas picadas em que passavam caminhões tipo trator, passou um trator que estava indo levar mantimento pra lá e nós pegamos uma carona. A primeira visão que tive eram estátuas de homem, todas de barro, de lama, uns nus, jogando água pra tirar aquela lama toda. Meu Deus, tô ferrada.

Outras mulheres foram depois, mas você foi a primeira, não?
Fui a primeira. Por acaso estava a BBC de Londres gravando uma reportagem, por isso é que tem as imagens no filme, senão nunca teríamos aquilo. Fiquei uma semana, fazendo duas, três sessões por dia. E fui muito bem tratada, com todos os confortos que era possível dar. Não tinha banho quente, mas era possível esquentar a água pra tomar banho. De alimentação, me falaram pra não comer peixe e carne de lá, que é com mercúrio. Num outro garimpo, a Lurdinha pegou mercúrio no sangue. Eu tomava banho de óleo pra não pegar febre amarela e malária, o cabelo era lindo de morrer, escorrendo óleo. Me habituei a tomar água tônica, tomo até hoje, por causa do quinino.

Outra experiência menos forte, mas forte, é em presídios.
Ah, isso é fácil, tranquilo. Não tem perigo. Da cadeia nunca tive medo. Eu ia levar um pouco de alegria, um pouco de respeito a eles. Porque são seres humanos, gente. Erraram? Erraram, mas pô, estão pagando. Muitos estão pagando pra sociedade, mas quando saem de lá não têm uma chance aqui. O que eu posso fazer? Não tenho uma firma grande que possa empregar, não sou milionária que possa sustentar, a única coisa que eu poderia dar de mim pra eles seria um pouco de atenção e carinho. Tento transmitir a confiança que tenho neles, como eles também têm em mim.

Você ainda vai?
Quando posso vou. Hoje em dia ficou mais dificultoso ¿ não por mim, que por mim eu vou, mas pela Secretaria de Segurança Pública, pelas diretorias dos presídios que dizem que não têm condição de dar aquela segurança perfeita como eu tinha no Carandiru, em virtude de...

PCC?
É, eles não falam diretamente o que é, mas... Dizem que antigamente eu não corria risco porque dia de visita de família era o dia mais seguro, não acontecia nada. E desde que houve aquela rebelião no Carandiru, foi aí que passou a ter o Partido, o Comando, e acabou dificultando, porque a rebelião foi num dia de visita. Eu digo pra eles, eu não tenho medo, pode deixar que sei que comigo não vai acontecer nada. Mas eles dizem que não. Não sou uma pessoa que quero ir na cadeia e ficar em sala de diretor vendo, ficar em um pátio só, eu quero entrar lá dentro, como eu sempre fiz. Comecei a ir, me convidaram pra ser madrinha, aceitei, e hoje eles me chamam de madrinha. Se estou na rua e algum ex-interno ou foragido me vê, ele fala oi, madrinha, eu já sei de onde é [ri]. Acontece muito, no Brasil inteiro. Eu nunca passei a mão na cabeça deles. Se tá errado, tá, fez; fez, tem que pagar. Mas não é por isso que deixa de ser um ser humano e não merece pelo menos um pouco de atenção, uma mão estendida, um abraço, uma palavra de carinho. Aquilo ali é um inferno, um inferno.

Você é uma pessoa que quer olhar o inferno? Por quê? Por que você?
Eu não sei por quê. Eu também gostaria de saber. Não sei se é um senso de justiça, não sei o que é. O que eu posso falar? Humildade? Não sei se é isso. Não sei te explicar, mas é uma coisa que eu me sinto bem de fazer. A única forma que posso ajudar qual é? Levar alegria, ir lá brincar meia hora, e pronto.

Assista ao trailer de "Rita Cadillac, a Lady do Povo":

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