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Jean Charles chega aos cinemas como retrato da comunidade brasileira em Londres

SÃO PAULO ¿ Quatro anos depois, a tragédia do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto no metrô de Londres ao ser confundido com um terrorista pela polícia, chega às telas do País. Com estreia marcada para 26 de junho, ¿Jean Charles¿ retoma o caso de um ponto de vista diferente: ao invés de focar a história nos fatos que levaram ao erro da Scotland Yard e o desenrolar do processo para incriminar os envolvidos, o filme se preocupa em retratar a pessoa por trás das manchetes e a vida da comunidade brasileira na capital britânica.

Marco Tomazzoni |

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Selton Mello interpreta o eletricista brasileiro executado pela polícia britânica em 2005

Em coletiva de imprensa na tarde desta terça-feira (16), Selton Mello, que interpreta o personagem-título, chegou a afastar, inclusive, qualquer endeusamento do rapaz. O filme é sobre um brasileiro, um cara como muitos, que erra, bate cabeça e chora como nós. A ideia era contar essa história luminosa, a vida dele. Nesse sentido, em uma mistura de realidade e ficção, o espectador mergulha no dia-a-dia de uma parcela dos 200 mil brasileiros que moram em Londres, uma das maiores colônias do país no mundo.

O projeto começou como um documentário do diretor Henrique Goldman, paulistano radicado há quase duas décadas na Inglaterra, mas não houve interesse das televisões britânicas pelo assunto. Meses depois, o cineasta Fernando Meirelles (Cidade de Deus, Ensaio sobre a Cegueira) recebeu uma proposta da BBC para dirigir um filme sobre o caso, mas, impossibilitado, recomendou Goldman, que recusou o convite por discordar da abordagem policial que a emissora desejava.

Apesar da iniciativa ter se tornado um longa de ficção, no fim das contas o caráter documental da obra não foi afastado totalmente. O filme parte da vinda de prima de Jean Charles, Vivian (Vanessa Giácomo), para trabalhar ilegalmente em Londres, pouco antes dos primeiros atentados ao metrô da cidade, em 07 de julho de 2005, que deixaram 52 mortos e 700 feridos. Duas semanas depois, uma nova série de ataques fracassa e, na ânsia de localizar os envolvidos, agentes secretos britânicos executaram Jean Charles com oito tiros na estação de Stockwell, em um erro brutal que revoltou a opinião pública e que até hoje permanece sem punição.

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Vanessa Giácomo, Luis Miranda e Patricia Armani (prima de Jean) completam o elenco

Para situar a trama antes do desfecho trágico, Goldman e o roteirista, Marcelo Starobinas, visitaram a mineira Gonzaga, cidade-natal de Jean Charles, e conversaran com a família e amigos de Londres. Mais do que isso: acabaram escalando não-atores e personagens reais para participar do filme. É o caso de Patricia Armani e Maurício Varlotta, prima e antigo de chefe de Jean, que interpretam a eles mesmos, além de terem colaborado com detalhes valiosos para a reconstituição da história e da vida tupiniquim na Little Brazil.

O uso de não-atores foi um modo de permear o filme de realidade, desafio que me interessa sempre, do modo mais radical possível, confessou o diretor. Seguindo essa mesma linha, outra preocupação foi tentar aproximar as falas o máximo possível da realidade, inclusive barrando o acesso dos atores ao roteiro e dando apenas os tópicos dos diálogos no momento da filmagem.

Sem acesso a vídeos de Jean Charles, Selton Mello se limitou a recolher relatos de como era o brasileiro. Vi muitas fotos, ouvi histórias e tentei reproduzir tudo isso. Nasci em Passos, Minas Gerais, mas fui criado em São Paulo, por isso a maneira como ele se sentia em Londres é mais ou menos como eu me sinto, tem um certo caipirismo. A experiência parece ter dado certo, tanto que a mãe de Jean Charles, emocionada, teria reconhecido trejeitos do filho após sair de uma projeção do longa-metragem.

O filme foi parcialmente financiado pelo UK Film Council, comitê britânico de cinema, relação que Goldman reconheceu ser um pouco esquizofrênica. O sistema que permite a esses policiais corruptos se safarem é o mesmo que nos permite filmar isso sem qualquer objeção. Apesar da liberdade, como o processo do caso ainda não foi encerrado ¿ pode haver uma apelação na corte de direitos humanos do Tribunal de Haia ¿, a produção tomou cuidado ao registrar em detalhe cenas em litígio, como a execução de Jean Charles.

"Em uma edição anterior do filme, Jean perguntava o que estava acontecendo, mas esses três segundos foram retirados porque isso não consta no processo", contou Starobinas. "Não teve voz de prisão, nem resistência, como a polícia havia afirmado. Dezenove testemunhas do vagão negaram isso, inclusive acharam que era uma execução da máfia, porque os agentes entraram atirando e não usavam uniforme de policiais", completou o diretor.

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