VARSÓVIA ¿ A idade e os terríveis ruídos do mundo ensurdeceram o americano Rockie Blunt, mas ele começou a não dar crédito ao que ouvia e via, quando, em 1945, entrou com seu batalhão em um campo de concentração. Hollywood nunca contou a guerra como foi, disse em entrevista à Agência Efe.

Roscoe "Rockie" Blunt, um célebre baterista de jazz e jornalista investigativo, é um dos 12 protagonistas que contam em primeira pessoa como foi a Segunda Guerra Mundial, por meio de imagens inéditas e as cores reais para a série "WWII Lost Films". O projeto estreou nos Estados Unidos no fim do ano e a partir de 3 de março começará a ser transmitido na Espanha.

"Esta produção é a mais educativa já feita e deveria se tornar obrigatória. Não podemos deixar que se repita um horror semelhante", diz emocionado Blunt, que faz 66 anos, quando só tinha 19 e com três exíguos meses de instrução nas costas, foi enviado à Europa "com a missão de exterminas os nazistas" a partir de sua Massachusetts natal para a 84ª Divisão de Infantaria dos Estados Unidos.

"Ninguém pode te preparar para o horror. Três meses de preparação e ok, garoto, agora você está pronto para matar. Fomos treinados para o ódio e isso gera violência e a violência gera morte", resume Blunt, que afirma que não há noite em que não seja acordado por imagens de destruição que ajudou a construir.

O veterano, que agora usa dois aparelhos auditivos, se apoia a uma bengala e mantém um "sereno" otimismo, chegou à Bélgica, como substituição para a batalha de Normandia, disposto a "liquidar" todos os alemães que aparecessem pela frente e a despojá-los de insígnias, medalhas e qualquer outro "souvenir" que pudesse levar.

Mas, enquanto avançava pela Europa, e após sobreviver à batalha das Ardenas, para chegar ao núcleo do Terceiro Reich, começou uma luta feroz com sua consciência, fuga repentina diante em meio a tanto sangue e tragédia.

"Experimentar aquele contato com a morte foi atroz. Nunca tinha visto coisas tão horríveis, tantas tragédias. Cada noite pensava nisso e odiava, mas ver morrer àqueles homens e mulheres mudou tudo em mim", admite.

Quando os produtores de "WWII Lost films", que estreou nos Estados Unidos em novembro com 26 milhões de espectadores, o convidaram para dar seu testemunho no documentário, ele resistiu. Na verdade, não queria reviver tudo aquilo novamente.

Ao mostrarem, no entanto, algumas das 3 mil imagens resgatadas em arquivos de 35 países as lágrimas desabaram. Ele seu deu conta que suas lembranças correspondiam "fotograma por fotograma" à sangrenta realidade que tinha vivido.

"Quando voltamos para casa ninguém nos ajudou. As 44 horas de entrevistas que fizeram comigo para a série foram meu único tratamento. Nunca saberão o tremendo bem que fizeram a nós e ao mundo".

Blunt ¿ que aparece nos três últimos episódios ¿ viu mulheres com as vísceras à mostra, homens sem pernas, braços e cabeça, horrores infinitos, mas o pior foi olhar para o interior dos campos de concentração, "aquele mostruário de infâmia".

"Ouve, mas não reconhece o som; cheira, mas não sabe de quê; olha, mas não consegue ver. Só existe a horripilante face da morte em meio às centenas de corpos ao teu redor. Não sabe o que tem na tua frente e teu cérebro não pode processar porque não quer reconhecer. Não há nada no mundo que possa me fazer esquecer isso", relata.

Por isso, diz, Hollywood nunca foi capaz de refletir o que foi a guerra, "algo grande demais para um estúdio de cinema". Não tem nenhuma mensagem para os soldados deste século, porque, diz, "ou matarão ou matarão: é o mesmo horror, o mesmo sofrimento sem fim" embora, adverte, o mais importante sempre é "respeitar o homem".

A série, apresentada pela primeira vez em Varsóvia por ser "um dos grandes cenários da guerra" e da perseguição nazista, recuperou imagens guardadas em filmes e fitas que, em muitos casos, só se "mantinham" por um pedaço de chiclete, um barbante e uma oração, que foram tratadas digitalmente para "retirar as cores originais".

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