CANNES, 14 MAI (ANSA) - O cineasta Fernando Meirelles definiu seu filme Ensaio Sobre a Cegueira, que abriu hoje o 61º Festival de Cannes, como uma parábola sobre a fragilidade da civilização e a facilidade com que se derrubam valores aceitos pelas sociedades avançadas, durante a coletiva de imprensa realizada após a exibição do filme.

Acompanhado pelos atores Julianne Moore, Gael García Bernal, Alice Braga e Danny Glover, que fazem parte do elenco, o diretor recebeu os aplausos dos jornalistas internacionais com um sorriso.

"Eu tentei comprar os direitos de 'Ensaio sobre a Cegueira' em 1998, mas José Saramago recusou, dizendo que o cinema destrói a imaginação. Por isso foi um prazer aceitar a oferta dos produtores para dirigir a adaptação", declarou Meirelles.

"Foi uma experiência maravilhosa porque, apesar de os talentos reunidos virem dos quatro cantos do planeta, filmamos em total harmonia e amizade", acrescentou o diretor, afirmando que pretende continuar a trabalhar com equipes internacionais.

"O livro tem uma quantidade de níveis de interpretação que o tornam altamente interessante para o cinema. Mas no fundo o que afirma Saramago é que o ser humano, quando perde aquilo com que está acostumado, se torna um animal", disse o diretor.

O ator mexicano Gael García Bernal declarou ter lido o livro de Saramago em 1998, quando o escritor ganhou o prêmio Nobel de Literatura, e disse que "não esperava que oferecessem um papel na versão cinematográfica" a ele.

Meirelles disse que Gael era o "cara errado" para o papel, "já que ninguém poderia imaginar que seria capaz de tanta maldade", mas o ator afirmou ter procurado "sempre dar humanidade ao personagem".

"Creio que no fundo de todo ser humano existe algo positivo, que às vezes as circunstâncias deixam enterrado", acrescentou o ator.

"A idéia central do filme é criar uma comunidade interdependente e foi isso o que Meirelles conseguiu durante a filmagem", disse Julianne Moore, lembrando que três meses atrás seu empresário não estava muito seguro de que o filme fosse benéfico à carreira da atriz. "Mas eu lhe disse: 'Está louco de achar que vou perder a chance de ser dirigida por Meirelles?'".

"Para mim é uma honra estar em Cannes, um festival que rende homenagem aos diretores, e fazê-lo em companhia de alguém como Meirelles é duplamente honroso", disse a atriz.

Já Alice Braga, que trabalhou com o diretor em "Cidade de Deus" (2002), disse que o mais desafiador em seu papel de cega "foi confiar nos outros os sentidos, mesmo quando se têm os olhos bem abertos". (ANSA)

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