Em 20 anos negociando reféns, apenas três voltaram para agradecer , conta policial - Brasil - iG" /

Em 20 anos negociando reféns, apenas três voltaram para agradecer , conta policial

SÃO PAULO - ¿Para o refém, os vilões não são os bandidos e sim os policiais¿, conta o subcomandante do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar (PM) de São Paulo, Carlos Eduardo Zólio, quando questionado sobre a gratidão dos reféns liberados por sua equipe em mais de 20 anos de trabalho. Segundo ele, apenas três, de mais de cinco mil pessoas, voltaram para agradecer ao trabalho feito pela equipe.

Amanda Demetrio - Último Segundo |

Se você pensar, existe uma lógica, explica Zólio. O sequestrador faz exigência e a polícia não pode ceder sempre. Se o homem pedir um helicóptero, R$ 1 milhão e armas, você vai achar pouco se isso envolver a sua sobrevivência e não vai gostar do fato de os policiais não entregarem tudo isso, diz e finaliza não esperamos agradecimentos depois, nosso pagamento é saber que o trabalho foi bem feito.

Quem explica o fenômeno é o psiquiatra William Berger especialista em Síndrome de Estocolmo. Segundo ele, a síndrome é uma relação doentia que se estabelece entre a vítima e o sequestrador, após um tempo de convivência. E isso não acontece só do lado das vítimas, acontece também com os sequestradores.

A coisa toda acontece em três linhas principais. Primeiro, a vítima se identifica com o sequestrador e estabelece uma relação positiva. Soma-se a isto uma antipatia por quem faz o resgate e pela família, que nem sempre pode pagar o valor pedido. O terceiro e último processo acontece depois de um longo período de rendição, quando a vítima já não tem mais condição de lutar para fugir e se protege ao se aproximar mais do sequestrador e tentar se manter como um ser passivo.

A relação entre as partes envolvidas é de identificação, que, geralmente, acontece com o homem do grupo de sequestradores que tem mais contato com a vítima. Ele é o único contato dela com o mundo, ela fica isolada e ele passa a ser a pessoa mais importante do mundo, destaca o psiquiatra.

As relações doentias entre sequestradores e vítimas podem complicar quando o caso envolve um homem e uma mulher. Pode acontecer uma ocorrência amorosa, a mulher pode passar a ver no sequestrador coisas que lhe excitam, destaca o psiquiatra.

Com o fim do cativeiro e o choque com a realidade de algum tempo, os sintomas tendem a passar. Em casos mais graves, uma psicoterapia pode ser receitada, conta Berger. Mas a síndrome pode preceder o chamado stress pós-traumático.

A pessoa passa a lembrar e sonhar com toda hora da situação, tem a sensação de flashback, evita pessoas e lugares que possam lhe lembrar do trauma e começa a pensar que não tem muito futuro na vida, diz o psiquiatra. Neste caso, remédios podem ser receitados.

Além disto, na volta ao dia-a-dia normal, após o sequestro, a síndrome também pode afetar as relações dentro de casa. As vítimas passam a culpar as pessoas da família, tem dificuldade de voltar a ser produtivo e ter autonomia, conta Berger. Um bom exemplo é o dos reféns das Farc, porque depois de muito tempo as pessoas passam a se preocupar somente em sobreviver cada dia e não em serem produtivas, completa.

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