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Clarice estava nos sonhos que a inspiravam , lembra colunista do iG

TEL AVIV ¿ Um dia, Assis Chateaubriand me convidou para tentar salvar o ¿insalvável¿, o Diário da Noite do Rio, pelo maior salário pago até então a um jornalista. Assumi começando por analisar a despesa. Lá estava Clarice Lispector escrevendo a coluna de Moda. Não era o que imaginaria para atrair leitoras. Tinha o estilo de quem escrevia por falta de melhor fonte de receita. Recordações são versões da realidade. Nunca nos encontramos. Ela ia ao caixa receber. Não a conhecia nem de nome. Não foi cortada.

Nahum Sirotsky, correspondente iG em Israel |

AE

Clarice Lispector autografa obra, em 1963, na livraria Francisco Alves, em São Paulo

Fiquei curto tempo no cargo, devido a desentendimentos com o dr. Assis, como o chamavam, porém amigo e admirador pelo resto da vida dele.

Foi desempregado que fui a uma festa na qual minha companheira, a então atriz e hoje escritora Beyla Genauer me apresentou a Abrahão Kogan, um dos controladores da Editora Delta-Larrousse, e perguntou por que não me convidavam para fazer revistas para eles. E fui chamado pelo seu sócio e sobrinho Simão Waissman para uma conversa. Nascia a revista Senhor.

Foram meses em gestação. Equipe formada, saiu o primeiro número, cujo grande defeito era ter demais de tudo. Fizemos correções. Faltava alguém para as páginas que imaginava de pequenas notas escritas com leveza e fina ironia. Lembrou-se o nome de Clarice, que estava esquecida em Washington e foi consenso da equipe.Todos, menos eu, conheciam a literatura nacional. Criou-se a Senhor e Cia, onde Clarice publicou pequenas obras-primas .

Ela vinha com frequência à redação que decidira implantar em Copacabana, ambiente mais favorável ao que estávamos criando. Não esqueço a jovem e bela mulher com rosto de traços mongólicos, olhos inquietos, voz de forte sotaque nordestino, extraordinária sensualidade e vestida com a maior simplicidade. Os contos que escreveu terão significado um relançamento. Ela logo elevada a posição de "máximo", "deusa" e muito mais, pelos jovens  de todas as artes. Por seu estilo e imaginação, como corrente de água que ganha força até se tornar invencível. Logo a fama entre poucos leitores de gosto mais refinado transformava-se  em leitura de grande número.

Clarice aparecia para entregar seus textos. Não era de muito falar... Transmitia a sensação de que não estava lá. Estava nos sonhos que a inspiravam.

Confesso sempre ter invejado os que tinham a linguagem do cronista e critico. Sempre fui o jornalista. Clarice merecia muito mais.


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