Neste ano, a Índia ¿invadiu¿ o Brasil. Em janeiro, a novela ¿Caminho das Índias¿, da Rede Globo, estreou com audiência média de 35 pontos no Ibope ¿ cerca de 2,1 milhões de telespectadores ¿ e, em março, o premiado filme ¿Quem Quer Ser Um Milionário?¿ levou aos cinemas milhares de pessoas em suas primeiras semanas de exibição. No entanto, as telas mostram retratos completamente diferentes: enquanto a TV exibe cores, danças, palácios e cartões postais, o cinema escancara uma Índia miserável, faminta e flagelada.

As duas produções são verdadeiras, afirma Lakhi Daswani, de 58 anos, empresário indiano que vive há 30 anos no Brasil. Na Índia a pobreza está exposta, desde o aeroporto até o hotel. Você vê a pobreza de fato, porque não há bolsões de miséria como aqui no Brasil, explica Daswani, dono do Tandoor, tradicional restaurante indiano de São Paulo.

Marina Morena Costa/iG
Lakhi Daswani, indiano vive há 30 anos no Brasil
O contraste entre a TV e o cinema é resultado da disparidade social e econômica da Índia, país que desde 2005 cresce num ritmo de 9% ao ano, atinge um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 3,3 trilhões (quase três vezes maior do que o brasileiro) e, ao mesmo tempo, conta com um exército de 455 milhões de miseráveis ¿ pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, com menos de US$ 1,25 ao dia, segundo dados da ONU.

Pooja Daswani, 28 anos, filha do empresário indiano, conta que é comum famílias de classe média e alta terem muitos empregados domésticos na Índia. Na casa da minha família em Bombaim [Mumbai] trabalham cinco pessoas. Meus avós são bem velhinhos e precisam de assistência, mas lá a mão de obra é bem barata, afirma a administradora, que nasceu no Brasil.

Tradição x modernidade

Enquanto Quem Quer Ser Um Milionário? traz jovens ¿ homens e mulheres ¿ de jeans e camiseta na urbanizada Mumbai, Caminho das Índias concentra-se na Índia tradicional, ilustrada pelas cidades turísticas do norte do país, nos estados de Rajastão e Uttar Pradesh, onde ficam a maioria das locações da novela (veja mapa abaixo). Indianos e religiosos hindus criticam Caminho por mostrar uma Índia antiga, focada na discussão das castas, nas tradições e superstições do hinduísmo.

Divulgação
Índia moderna em "Quem quer ser um milionário?"
De acordo com a religião hindu, o deus Brahma criou quatro categorias de homens: de sua boca, tirou os brahmanis, os sacerdotes e intelectuais; dos braços, tirou os chatrias, políticos, militares e guerreiros; das coxas saíram os vashas, os comerciantes; e dos pés, tirou os hudras, artesão e homens que trabalham com a força física. Este era o conceito original, descrito nas escrituras milenares. Havia a descriminação dos quatro tipos de seres humanos, mas sem relação com a hereditariedade, pois o talento vem com a alma. Deus criou essas quatro castas para harmonizar a sociedade. São qualidades de caráter, afirma o monge hinduísta Bhuvana Mohandas, de 63 anos.

Os dalits, principal ponto explorado pela novela global, vieram da poeira dos pés de Brahma e não pertencem a nenhuma casta; eram considerados impuros e intocáveis. Na Índia moderna isso não existe. Os dalits são, em geral, pessoas que vivem à margem da sociedade, como os loucos, os bandidos. Carregam um carma auto-destrutivo e precisam de ajuda, diz Mohandas, que estuda o hinduísmo desde os 19 anos e durante 11 anos morou em templos da Índia, EUA, Inglaterra e Venezuela. Somente pessoas muito ignorantes defendem o conceito de castas. Mas o preconceito existe, assim como o racismo no ocidente, explica.

Divulgação/Globo
Marcio Garcia é um dalit na novela

A monja Bianca, presidente da Associação Cultural Índia Brasil, compartilha da visão do religioso hindu. Hoje, os dalits são os marginais da sociedade indiana, como os pedintes e moradores de rua do Brasil. Há dalits que prosperam na vida, mas é raro. A monja, que morou em Calcutá, no extremo leste da Índia, compara os dalits com os negros, descendentes de escravos. Para eles é mais difícil conseguir ascensão social, porém alguns conseguem.

Mohandas considera um absurdo a cena do primeiro capítulo de Caminho em que Opash (Tony Ramos) chama a criança Dahuan (personagem vivido na fase adulta por Marcio Garcia) de intocável. O filho de um dalit não está fadado a ser um dalit para o resto da vida. Isso não é um retrato da Índia. São as exceções, afirma. O monge diz esperar que ao final da trama a sociedade corrija a injustiça com o personagem e o reconheça o homem culto que ele é.

Segundo Daswani, mesmo com a imensa população do país, é possível saber a que casta uma pessoa pertence apenas com o seu nome: Se você disser meu nome e sobrenome para qualquer indiano, ele saberá de que casta sou eu, que língua falo e qual comida como. Apesar desta forte presença cultural, o empresário considera que as das castas representam uma questão muito pequena na Índia hoje.

Para o empresário indiano, a novela apresenta comportamentos sociais compatíveis com a época da independência do país, em 1947. Os ingleses queriam as castas e as usavam para dividir a Índia. Quando deixaram o país, há apenas 61 anos, a Índia não tinha nada. Não tinha carros, motocicletas, bondes e carregava o preconceito, conta.

Amaury Porto de Oliveira, embaixador aposentado, responsável pela Ásia no Instituto de Estudos Avançados e Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (GACINT) da Universidade de São Paulo (USP) concorda que o Império Britânico (colonizador da Índia entre 1757 e 1947) utilizou o sistema de castas para controlar a sociedade indiana. Este sistema religioso-social milenar prendia as pessoas às castas, impossibilitando a execução de outras tarefas, explica.

Após a independência, a primeira constituição da Índia, de 1950, proibiu qualquer forma de descriminação, seja por religião, raça, casta, sexo ou local de nascimento. Para Oliveira, o texto procurava criar uma sociedade justa, equilibrada, mas sofreu embate na sociedade. Até hoje o governo mantém programas de incentivo e proteção à população de origem dalit, porém, séculos de segregação social arraigada na sociedade custam a mudar.

De acordo com Oliveira, as castas não são um problema preocupante para os indianos, mas movimentam a vida política, pois as minorias brigam por cotas e incentivos. Há deputados e governadores de províncias de origem dalit e até o primeiro-ministro é da minoria religiosa sikh [apenas 1,9% da população]. Isto prova que o país está mais aberto, mais tolerante, avalia Oliveira.

Destino

O choque entre a cultura indiana e a brasileira é inevitável e alguns aspectos causam estranheza no público, como o casamento arranjado. Para o hinduísmo, a predestinação das pessoas está traçada desde o nascimento e justifica a opção pela prática. O mapa astral da criança e as linhas da palma da mão têm o perfil de vida da criança, conta Daswani. Por este motivo, os pais que seguem a tradição hindu comparam as cartas astrológicas dos filhos em busca de uma compatibilidade astral perfeita.

Divulgação/Globo
Maya (Juliana Paes) casa-se em casamento arranjado
Pooja conta que hoje muitos indianos casam por amor, sem apego aos costumes e às castas. Porém, famílias mais tradicionais preferem encontrar noivos para seus filhos. O casamento indiano acontece entre as duas famílias, são as famílias que se casam. Por isso há toda uma avaliação da reputação, da situação financeira, da idade, do local onde o pretendente mora. E eles não procuram pretendentes só na Índia, mas em outros países também, conta.

Os pais de Pooja casaram-se 15 dias depois do primeiro encontro, em um casamento arranjado, realizado na década de 70, na Índia. No ano seguinte, vieram ao Brasil abrir um negócio em Manaus, no Amazonas, onde suas duas filhas nasceram. Em seguida, mudaram-se para São Paulo, onde vivem juntos até hoje. O divórcio é legal na Índia, mas quase não há separações. Ao contrário do ocidente, onde quase a metade dos casamentos acaba em divórcio. Por que será? Pode ser que o casal não tenha afinidade astral. Mas é difícil para os ocidentais compreenderem isso, afirma Daswani.

Na Índia você vive sua infância e adolescência sem duas angústias do ocidente: a escolha da profissão e do marido, ou da esposa. A carta astrológica mostra a sua profissão, as suas habilidades e talentos. E os pais educam os filhos sabendo disso, afirma Mohandas. Segundo o estudioso do hinduísmo, é papel de um brahmani comparar os mapas e apresentar as famílias com compatibilidade astral.

Daswani explica que algumas famílias ainda preferem casar seus filhos com pessoas da mesma casta porque consideram mais seguro. Desde o nascimento os pais dos noivos se conhecem, sabem que não tem nada errado. Eu moro no Brasil, mas se faço alguma coisa errada, roubo alguém, engano alguém, as pessoas da minha casta na Índia vão saber. Não poderei enfrentar a sociedade impune, e ninguém vai querer casar com a minha família, explica.

Críticas e elogios

Apesar das críticas ao foco da novela nas tradições e preconceitos da Índia, os entrevistados concordam que a equipe de pesquisa da dramaturga Gloria Perez fez um bom trabalho. Não vejo nada negativo nem errado, porque todo mundo que assiste à novela percebe que se passa uma coisa na TV e outra nos jornais. A novela não é a Índia de hoje. Eles estão vendendo um produto, e fazem isso bem, avalia Daswani.

Pooja nota que a pronúncia dos atores está péssima. Os cariocas tem o r muito forte e os indianos pronunciam este som mais fraco, diz, rindo. Já a monja Bianca acha um absurdo o bar de Ashima (Mara Manzan), no bairro carioca da Lapa, ter uma escultura do deus Ganesha (homem com a cabeça de um elefante). Não podem ligar os deuses à carne, às bebidas alcoólicas, a nada que seja contra os princípios daquele Deus. Servem cerveja naquele boteco. É um absurdo, protesta.

Para Mohandas, a superficialidade era esperada em uma novela. A Gloria Perez escolhe coisas exóticas, elementos que produzam drama, polêmica, que choquem, para atrair a curiosidade do público. Ela não é culpada, está fazendo o seu papel, pondera. Na avaliação do religioso, o ponto mais positivo da trama é a discussão da cultura e a difusão das verdades. Você não pode entender a Índia com a mentalidade ocidental. Visitar aquele país é como ir a outro planeta. Mesmo quando eles dizem sim, o significado é outro. O balanço da cabeça que aqui significa sim, lá pode ser talvez ou não.

Índia Raio-X
Fontes: Consulado da Índia no Brasil, Reserve Bank of India, Relatório do IDH e The World Factbook (CIA)
População estimada: 1,147 bilhão
Telefones celulares: 296 milhões de linhas
Usuários de internet: 30 milhões
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): 0,609, posição 132 entre 179 países (Brasil está em 70º, com índice de 0,807)
Porcentagem da população que vive abaixo da linha de pobreza: 28,5% (sobrevivem com menos de US$1,25 dólar por dia)

Leia também :

Leia mais sobre : Caminho das Índias  e Índia

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.