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Avatar enche os olhos, mas história frustra revolução prometida por James Cameron

SÃO PAULO ¿ A espera está perto de terminar. Menina dos olhos do diretor James Cameron, ¿Avatar¿ levou mais de uma década para sair do papel e consumiu US$ 230 milhões que, se somados aos gastos com marketing e distribuição, podem alcançar astronômicos US$ 400 milhões, não confirmados pela 20th Century Fox. Tudo isso para que na próxima sexta-feira (18) chegasse às telas um projeto vendido como ¿revolucionário¿ e, talvez justamente por levantar essa bandeira, o resultado não deixa de ser decepcionante.

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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O diretor James Cameron orienta o protagonista Sam Worthington no set de "Avatar"

Não que Avatar seja um fracasso, longe disso. É inegável o nível de excelência tecnológica que Cameron conseguiu atingir para que pudesse concretizar o que sempre quis, um universo próprio, imaginado por ele mesmo. Sonhei criar um filme assim, ambientado num outro mundo, repleto de perigos e beleza, desde que era um menino que lia revistinhas de ficção científica e quadrinhos sem parar, e desenhava monstros e extraterrestres na aula de matemática, afirma o cineasta.

E esse mundo é Pandora, planeta de atmosfera hostil fora do sistema solar, fantástico pela fauna e flora deslumbrantes, e rico em um mineral raríssimo, o unobtanium, extremamente difícil de ser obtido e, por tabela, milionário. Pois uma das maiores reservas desse material fica justamente embaixo da cidade onde vivem os Navi, humanóides azuis com ar felino, rabo, olhos grandes e mais de 3 metros de altura, organizados em tribos.

Ávidos por colocar as mãos nessa fonte quase inesgotável de dinheiro, os humanos do futuro ¿ a história se passa no ano 2154 ¿ espalharam minas por Pandora e tentaram de tudo para se relacionar com os Navi, inclusive criar uma escola de inglês para se aproximar dos nativos. Eles não querem saber de medicamentos, de estradas, não querem nada, lamenta o executivo interpretado por Giovanni Ribisi, em uma clara referência aos mimos oferecidos pelos colonizadores às civilizações indígenas.

A solução é apelar para a tecnologia e usar avatares, híbridos criados pela dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver) com DNA humano e extraterrestre que funcionam como uma espécie de marionete: ao deitar numa cápsula, transfere-se a consciência de um corpo para o outro, sendo que a ligação só é interrompida na hora de dormir. Os avatares permitem se aproximar da cultura e conhecer melhor os Navi, e aí que entra o ex-fuzileiro naval paraplégico Jake Sully (Sam Worthington).

Convocado para assumir o vácuo deixado pela morte de seu irmão gêmeo, cientista do projeto, Sully vê no convite uma chance para conhecer outro planeta e ganhar dinheiro suficiente para fazer uma operação e deixar a cadeira de rodas. Como se não bastasse o fato de seu avatar conseguir correr, caminhar, o soldado ainda se apaixona por Neytiri (Zoë Saldana), filha do chefe e da conselheira espiritual dos nativos, escolhida para mostrar a Sully toda a cultura local. Um prato cheio para que ele mudasse de lado e se revoltasse contra os humanos.

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Worthington na pele de seu avatar: pintados, os Na'vi vão à guerra em Pandora

Como se vê, o resultado não poderia ser mais óbvio. Mais do que uma crítica evidente ao massacre colonizatório levado a cabo por europeus e norte-americanos aos povos indígenas de todo o mundo, James Cameron pôs no liquidificador referências clássicas do cinema aborígene. É nítida a sensação de que Avatar é o O Último dos Moicanos tecnológico do novo milênio, com pitadas românticas de Pocahontas, somadas ao patriotismo heroico de Coração Valente. Isso sem falar no próprio currículo de Cameron ¿ os soldados truculentos e os gananciosos representantes do governo parecem ter saído direto do set de Aliens ¿ O Resgate, O Segredo do Abismo e dos dois primeiros filmes da série Exterminador do Futuro para as imagens computadorizadas de Avatar.

Os efeitos digitais, aliás, representam o grande avanço do longa-metragem. Toda a complexidade de Pandora foi criada por computador pela WETA, empresa neozelandesa de Peter Senhor dos Anéis Jackson, tanto que o filme também poderia sem maior esforço ser classificado como uma animação. Cameron esperou mais de dez anos para que a tecnologia de captura de movimentos fosse avançada o suficiente para transmitir maior realidade, tanto que desenvolveu um capacete para monitorar a reação facial dos atores. O resultado é algo completamente inédito no cinema, como se o trabalho de Robert Zemeckis em filmes como O Expresso Polar, Beowulf e Os Fantasmas de Scrooge estivesse uma década atrasado.

De beleza e superioridade técnica, portanto, Avatar está cheio. Ainda mais se for visto como o cineasta imaginou, em 3-D e na imensa tela do IMAX. Mas isso não quer dizer que a experiência vá entrar para a história ¿ a fábula místico-ecológica de Cameron pode até divertir, mas não vai ficar na sua cabeça por muito tempo.

Assista ao trailer de "Avatar":

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