A três dias de deixar o governo de São Paulo, José Serra (PSDB) deu mostras nesta terça-feira, ao inaugurar sua última obra no exercício do cargo ¿ e talvez a mais importante vitrine como candidato à Presidência ¿ de como será a sua campanha nos próximos sete meses.

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Palanque de Serra em evento é retrato de quem estará a seu lado na campanha

Na inauguração do Trecho Sul do Rodoanel, evento que teve direito a palanque montado, homenagem de aliados e gritarias de opositores, o tucano teceu elogios à sua performance à frente do Estado - "nunca se investiu tanto no Estado na educação, na saúde, no metrô como no nosso governo" -, trouxe questões nacionais ao discurso e usou sua trajetória política para convencer o eleitorado de que o País poderá seguir no caminho certo, mas com melhorias.

Tudo sem confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no auge da popularidade do petista, com quem disputou a Presidência em 2002 - segundo última pesquisa Datafolha , a gestão Lula é aprovada por 76% dos brasileiros.

Durante o discurso de Serra, o presidente é citado como espécie de parceiro e recebeu vários elogios. O tucano disse que a obra do Rodoanel custou R$ 5 bilhões e que o governo federal foi responsável por 24% desses recursos. "O governo federal contribuiu para a obra com valores substanciais. Sem esse R$ 1,2 bilhão a gente não teria bala para fazer", afirmou.

De olho em eleitores de outras bandas, Serra tentou mostrar que seu interesse não está limitado ao Estado quando afirmou que o rodoanel "o benefício não é só da cidade de São Paulo". "O importante é a integração econômica do nosso litoral com o nosso interior. E com o Brasil. Porque qualquer caminhão que vem do Paraná, do Norte, do interior, poderá ir para o Porto de Santos sem passar pela capital."

E completou: "Esse é um benefício para a economia do Brasil. Isso é óbvio, porque São Paulo é muito grande. Tudo que acontece de bom aqui é bom para o País". Serra aproveitou a ocasião, porém, para listar virtudes de São Paulo: "A Confederação Nacional de Transportes fez uma pesquisa e mostrou que as dez melhores estradas do país são de São Paulo. Das rodovias de São Paulo, 75% são consideradas ótimas ou boas. Falta 25%, mas mostra que já temos três quartos do copo cheio".

Antes do discurso, o governador se deparou com um grupo de cerca de 50 manifestantes que tentaram entrar no evento. Recrutados pela coordenadoria regional do PT no ABC, eles carregavam faixas que diziam: Obrigado Lula pelo Rodoanel.

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Manifestantes protestam contra política de Serra para a educação


Houve também manifestação dos representantes da Apeoesp, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, que portavam três cartazes com inscrições do tipo: Negociação já e Serra, negocie com os professores. Ele promoveram um apitaço durante todo o discurso do governador e gritavam: Serra negocie com os professores, o pessoal do PSDB não sabe negociar e nós não queremos bomba.

Em greve desde o último dia 8, os professores pedem reajuste salarial imediato de 34,3% e incorporação de todas as gratificações, extensiva aos aposentados. Para o governo paulista, a greve é eleitoreira.

Turma do Serra

Ao lado dos aliados que estarão por perto durante a campanha para a Presidência, Serra ouviu discursos em tom de campanha eleitoral.

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Polícia tenta impedir manifestação em evento

No palanque estavam reunidos o prefeito Gilberto Kassab (DEM), seu sucessor da Prefeitura de São Paulo, o peemedebista Orestes Quércia, ex-governador paulista e um dos principais opositores da aliança entre PMDB e PT no plano federal, além dos tucanos Geraldo Alckmin, Alberto Goldman, José Aníbal e Aloysio Nunes Ferreira.

A composição é uma espécie de retratos do arco de alianças que o tucano montou em sua gestão.

O tom de campanha ganhou contornos mais nítidos quando operários que trabalharam na obra começaram a gritar: Brasil, urgente, Serra presidente. O coro foi seguido por alguns dos integrantes do palanque do governador, que "repreendeu" os colegas. "Aqui não queremos campanha antecipada, nem de um lado nem de outro. Se o outro lado faz, a gente faz um esforço para ficar quieto", disse.

A ausência do presidente Lula no palanque foi citada pelo governador. Segundo ele, Lula foi convidado, mas não pôde comparecer. "Insistimos muito com o Lula para que viesse. Ele disse que não pôde, estava na véspera de mudança no ministério", disse Serra.

O único representante do governo federal era Paulo Sérgio Oliveira Passos, secretário-executivo e provável titular do ministério dos Transportes a partir desta semana.

De Kassab, que disse que o Rodoanel não é uma obra de São Paulo, mas de todos os brasileiros que passam por São Paulo, Serra ouviu um desejo de boa sorte. Pois você é uma das pessoas mais preparadas do Brasil, discursou o democrata.

Último a discursar, Serra citou Lula novamente ao afirmar que no Brasil há uma dificuldade muito grande em levar obras adiante. Nisso o presidente Lula tem razão, afirmou, em nova demonstração de sintonia com o presidente petista. Era uma referência às declarações de Lula, feitas um dia antes, de que realizar obras de grande porte no Brasil é um "grande transtorno". Na ocasião, Lula criticou as dificuldades burocráticas que estariam impedido o avanço dos projetos contidos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "Nós aprendemos que lançar dinheiro (projetos) é fácil, mas a execução depende de romper as diversas barreiras criadas para nos fiscalizar", afirmou Lula, na ocasião.

"Ontem o presidente Lula falava da dificuldade de fazer obras no Brasil. Não basta só o dinheiro. Pois aqui foi dada uma demonstração do nosso governo de competência para fazer acontecer. O problema que o presidente Lula fala é real. Real em São Paulo e real no Brasil. Isso valoriza ainda mais a nossa realização", afirmou Serra.

No final do seu discurso, o tucano lembrou novamente de seus tempos no movimento estudantil e do exílio no Chile. Disse que sempre teve o pensamento voltado em retornar ao país. Num autoelogio, disse que não administrava sua vida pública voltado para o beneficio pessoal, mas sim para o da população. 

"Eu estou na vida pública há muito tempo. Desde que eu fui eleito presidente da União Nacional dos Estudantes, quando o Comando de Caça aos Comunistas vinha nos atacar. Daí começou minha vida pública. Para mim a vida pública se prolongou no exílio. Porque eu me preparei para voltar ao país sempre. Me preparei para lutar pela redemocratização do País, foi o que fiz".

Num confronto indireto com a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, pré-candidata do PT que também lutou contra o regime militar, mas que jamais disputou uma eleição, Serra lembrou: "Fui secretário, deputado, senador, ministro da Saúde, prefeito da capital, governador de São Paulo, disputei a eleição de 2002, com o Lula, fui para o segundo turno". "Tenho uma vida pública longa. Mas a minha motivação nunca foi a do prestígio, a de ficar atraindo a atenção. Eu tenho personalidade tímida, o ornamento do poder, a bajulação, nada disso me atrai. Meu único sentido de vida pública é me dedicar as questões do nosso povo".

E completou: "Se eu saísse da vida pública hoje, me sentiria contentíssimo pelo que fiz e pelo que ajudei a fazer".

O governador já anunciou que deixa o cargo na próxima sexta-feira. Na quarta-feira, fará um balanço de sua administração no Palácio dos Bandeirantes. Depois, passará dois dias recolhendo papéis e documentos que serão levados para casa.

Rodoanel

Apesar de já inaugurado, o Trecho Sul do Rodoanel só será liberado para o tráfego a partir das 6h da próxima quinta-feira. As pistas entrarão em operação sem a cobrança de pedágio. A licitação para escolher a empresa que vai cobrar a tarifa ainda está sendo preparada.

O vencedor terá de construir o Trecho Leste, cujo estudo ambiental foi aprovado pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) na semana passada. A expectativa é de que com a liberação do Trecho Sul o tráfego de caminhões na Marginal Pinheiros seja reduzido em 43%. A obra tem 61,4 km de extensão e passa por sete cidades: Embu, Itapecerica, Mauá, Santo André, Ribeirão Pires, São Bernardo e São Paulo.

"Nós vamos economizar 43% do fluxo de caminhões na Marginal Pinheiros e naquela bendita avenida dos Bandeirantes. Vai acabar com este suplício", prevê Serra.

(*com informações da Agência Estado)

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