Pressionado por tucanos e democratas para assumir de vez a candidatura presidencial, o governador de São Paulo, José Serra, vai deixar o governo e embarcar oficialmente na campanha no fim de março. Quem garante é o presidente do principal aliado do PSDB, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ). Em entrevista ao iG, Maia informa que a oposição prepara um grande evento de lançamento da candidatura de Serra, capaz de mostrar ¿a força da oposição¿ e que a disputa ¿será bem diferente do que dizem os petistas¿.

O presidente do DEM defende o fim da pressão sobre o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, para ocupar a vaga de vice na chapa de Serra. Essa pressão em nada ajuda a oposição, diz Maia, para quem o crescimento da ministra Dilma Rousseff (PT) nas pesquisas não assusta a oposição.

Nesta entrevista, o deputado desenha o roteiro do que pode ser a campanha de Serra (o ataque às privatizações e ao Estado mínimo não cola nele), faz um balanço da proximidade de tucanos e democratas (não são tão próximos ideologicamente como se imagina) e avalia as dificuldades enfrentadas pelo seu partido, mergulhado numa crise durante o escândalo envolvendo o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda.

iG: Tucanos, democratas e eleitores dos dois partidos parecem impacientes com a demora do governador de São Paulo, José Serra, em se afirmar como candidato. Qual o prazo para esse debate acabar?
Rodrigo Maia: O prazo final de lançamento da candidatura já não faz tanta diferença. Até o fim de março a campanha do governador José Serra vai estar na rua. Até lá estaremos prontos para fazer uma campanha nacional, bem organizada em todos os Estados, com o melhor candidato e com todas as chances de vitória ainda no primeiro turno. O importante é que desde o início do ano, a partir da desistência do governador Aécio Neves, tínhamos a clareza da candidatura do Serra. Organizamos os palanques regionais para melhorar a nossa estrutura e agora estou confiante para quando ele sair do governo de São Paulo no fim do mês.

iG: Qual o tamanho do temor pela ascensão da ministra Dilma Rousseff nas pesquisas?
Rodrigo Maia: O crescimento da ministra Dilma era previsível, como era previsível que ela crescesse onde o presidente Lula é mais forte, o Nordeste. É um processo natural da pré-campanha feita pelo governo e pela ministra. Não havia nenhuma projeção feita pelo Democratas que não chegasse ao patamar que estamos vendo hoje: Dilma batendo 30%, e o Serra caminhando entre 35% e 40%, quando não há o nome do deputado Ciro Gomes na disputa. Sabíamos que seria uma eleição muito dura, mas o resultado não nos deixa tensos de forma alguma. Tenho certeza de que a partir de abril essa curva ascendente da ministra vai parar e a candidatura da oposição passará a ter outra dinâmica. Serra é o favorito.

iG: A pressão para que Aécio Neves seja o vice na chapa com Serra será bem-sucedida?
Rodrigo Maia: Nesse momento devemos concentrar nossos esforços na candidatura presidencial. Temos de organizar a saída do Serra do governo, num evento que mostre a força da oposição. Vamos deixar a discussão do vice mais para frente. E vamos deixar também que o governador Aécio tenha tempo para refletir e tomar a decisão certa para Minas Gerais. Se ele tomar a melhor decisão para Minas será a melhor decisão para a candidatura presidencial.

iG: O evento em Belo Horizonte na quinta-feira mostrou a vontade dos mineiros de ter Aécio candidato a presidente. Há quem acha que ele possa fazer corpo mole, como fez em 2002 o então governador do Ceará, Tasso Jereissati, quando perdeu a disputa interna do PSDB para o Serra.
Rodrigo Maia: Se o Aécio entender que é melhor disputar o Senado, temos a certeza de que vai fortalecer igualmente a candidatura do Anastasia (Antônio Anastasia, pré-candidato do PSDB ao governo de Minas Gerais) e do Serra. O que não podemos é criar uma pressão, e nem é necessário. Ele já disse várias vezes que tem compromisso com o PSDB e vai levar à vitória do Serra em Minas. Mas nesse momento é natural que os mineiros tenham essa expectativa. Não podemos é ficar nesse atrito. Essa pressão só atrapalha a oposição.

iG: Em entrevista ao iG, em novembro do ano passado, o prefeito Cesar Maia dizia que o DEM só toparia a chapa puro-sangue se tivesse o Aécio incluído . Isso mudou de lá para cá?
Rodrigo Maia: Não. Só não queremos tratar do vice agora. Achamos que o vice não tem a importância que estão dando nesse momento. Vamos aguardar um pouco mais a decisão do governador Aécio. Depois disso é que vamos tratar dessa questão. Se o Aécio decidir disputar o Senado, o Democratas vai apresentar o seu nome para ocupar a vaga de vice.

iG: Ou seja, se Aécio não for o vice, está descartado um nome tucano para a vaga? Falou-se no senador Tasso Jereissati, por exemplo.
Rodrigo Maia: Isso nem está ainda em discussão. O momento, repito, é de fortalecer o nome do governador José Serra, não pensar no vice dele.

iG: O DEM tem enfrentado um período conturbado, com a inclusão de líderes de peso em crises de imagem ¿ em níveis diferentes, o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, agora fora do partido, e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Qual o impacto disso sobre o DEM?
Rodrigo Maia: Foram quatro meses difíceis. Mas antes deles tivemos um momento de grande renovação e pelo menos uma grande vitória, que foi o fim da CPMF, aprovado no Congresso graças ao comando, na Câmara, do deputado Paulo Bornhausen, e depois pelos nossos senadores. Foi um resultado que vai ficar na história do Brasil. Conseguimos mostrar que é possível o Congresso não ser 100% alinhado com o governo. E que o debate do tamanho do Estado e o excesso de impostos pago pela sociedade são temas importantes.

iG: Mas qual o tamanho do impacto do caso Arruda sobre a imagem do DEM?
Rodrigo Maia: Qual a diferença do Democratas para os outros partidos? Todos têm seus problemas, mas o DEM resolve os seus. Nós ficamos sem o governador, depois sem o vice-governador, e achamos que foi a melhor forma de resolver o problema. Tenho certeza de que estamos preparados para qualquer debate nessa linha ética. Será um bom debate. É claro que eu preferia não ter passado pela crise. Mas não acho que atrapalhe as eleições nos Estados.

iG: No fim dos anos 90, o antigo PFL tinha seis governadores e mais de 100 deputados. A capacidade ofensiva do DEM se manteve no Senado, onde tem uma bancada de 14 senadores. Mas na Câmara tem apenas 58 deputados dos 65 que elegeu em 2006. O partido perdeu terreno nas disputas por governos estaduais na eleição passada e com a saída de Arruda no Distrito Federal ficou sem seu único governador.
Rodrigo Maia: Você tem razão, tivemos essa perda no Congresso e no número de prefeituras. Mas o partido vem se organizando. Na eleição de 2008, mantivemos o número de eleitores administrados por nós. Reduzimos número de prefeitos, mas aumentamos o número de cidades médias e grandes administradas por nós. Em 2000, tínhamos 1.200 prefeitos e 16 milhões de brasileiros administrados. Em 2004, quase 800 prefeituras e 16 milhões de brasileiros. E agora 500 cidades e os mesmos 16 milhões de brasileiros. É claro que, se tivéssemos mais prefeituras, melhor. Mas é natural que, estando na oposição, houvesse esse enfraquecimento no número de prefeituras. É natural porque a máquina do governo prevalece nas cidades pequenas e mais pobres. Foi assim quando estávamos no governo.

iG: O PFL sempre teve uma identidade associada a uma representação oligárquica e patriarcal, historicamente típica dos grotões. Com a tentativa de ter um perfil mais moderno e capaz de disputar o poder nos maiores centros urbanos, isso implica necessariamente uma perda de tamanho?
Rodrigo Maia: É um caminho natural. Essa estratégia começou ainda no fim dos anos 90, quando o deputado Luiz Eduardo Magalhães e o senador Jorge Bornhausen convenceram Cesar Maia e Jaime Lerner a ingressarem no PFL. Essa estratégia se manteve na própria representação do partido. É natural que na oposição, as chances sejam maiores nos locais onde a influência da máquina do governo seja menor. É natural que as chances sejam maiores em São Paulo e Rio do que no Nordeste, onde o Bolsa Família atende 70% das famílias.

iG: Nos oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso, o DEM viu perder cada vez mais espaço como representação ideológica dos setores mais liberais. A retórica, hegemônica no período, de que a modernização do país obrigatoriamente passava pela desregulamentação da economia, colou muito mais no PSDB do que no então PFL. Como fica a ocupação dos espaços de cada um daqui para frente?
Rodrigo Maia: Não acho que o PSDB e o DEM estejam tão próximos ideologicamente quanto você imagina. Acho que o presidente Fernando Henrique Cardoso avançou muito em direção a nossas teses, e não o PSDB. E acho que ele avançou de forma correta, tanto que o governo Lula foi bastante beneficiado pela ordem econômica construída naquele período. Mas não acho que o Democratas esteja tão próximo ideologicamente do PSDB.

iG: Não há convergência?
Rodrigo Maia: O que há é um consenso, não de todos (o próprio Serra é crítico a isso), da política macroeconômica dos últimos 12 anos. Houve uma convergência na política macroeconômica, na Lei de Responsabilidade Fiscal, que antes era duramente criticada pelo PT, na necessidade de superávit primário, na boa administração das contas públicas, embora nos últimos dois anos tenha começado a haver um certo descontrole do governo Lula. Mas há diferença entre PSDB e DEM. Os tucanos tentam caminhar para uma social-democracia, de centro-esquerda, e nós para a centro-direita. Eles não pensam como nós pensamos, tentam caminhar mais para uma espécie de PT moderno. Mas as teses do governo Fernando Henrique acabam jogando o partido nessa visão que você tem de muita sinergia nas ideias.

iG: O senhor falou do consenso da política macroeconômica, mas o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, disse em entrevista recente que, uma vez no governo, Serra mudaria essa política.
Rodrigo Maia: Na hora em que o Sergio Guerra faz a crítica à política macroeconômica, gera uma preocupação até mesmo em setores do PSDB. É natural que o PSDB pense assim porque não é um partido de direita, e sim um partido de centro-esquerda. Isso não quer dizer que vá executar essa mudança. O presidente Lula precisou colocar um banqueiro no Banco Central para dar tranqüilidade aos investidores. Em certos aspectos, nós, do DEM, pensamos um pouco diferente. Mas nas coisas fundamentais temos uma grande convergência. Todos têm a certeza de que a política macroeconômica não pode ser modificada, todos têm a certeza de que o Estado não deve servir aos sindicatos, aos petistas, aos pelegos.

iG: O que a oposição dirá ao eleitor sobre as diferenças entre um governo Serra e o governo Lula?
Rodrigo Maia: Que haverá diferenças enormes. Em primeiro lugar, na gestão. O Serra talvez seja o maior administrador público que o Brasil tem hoje. A máquina pública caminha hoje muito motivada pelo bom ciclo econômico que o Lula pegou. Você vê que a intervenção do governo em áreas verdadeiramente importantes, como infraestrutura, praticamente não existiu. Diferente do governo Fernando Henrique, que teve de reconstruir a ordem econômica do Brasil, o Lula já pegou isso organizado. O governo Serra terá um projeto para o Brasil. O PAC não é um projeto, é uma organização das ideias do governo, incluindo o setor privado, reunidas num documento. O que cabe ao governo não se consegue executar. O PAC não tem nem 30% do que foi prometido. Além da gestão, será diferente o foco do governo. O governo Serra será focado em temas importantes, aos quais o governo Lula não dá atenção. A infraestrutura vai ser um tema fundamental. A regulação dos mercados, que foi abandonada pelo governo Lula, será retomada.

iG: Há um debate corrente sobre o tamanho e a força do Estado.
Rodrigo Maia: É outra marca de diferença do Serra a sua capacidade de compreender o papel da gestão e o papel do Estado. O Estado forte do Serra é diferente do Estado forte do PT. Para o PT, o Estado forte é um Estado inchado. É um forte que significa o crescimento do número de empresas estatais e do número de cargos comissionados. O nosso forte lembra uma entrevista do ex-primeiro-ministro da Espanha, Felipe González, que o Estado tem de ser que nem a garota de Ipanema: sem gorduras. Com as suas silhuetas, mas sem gordura.

iG: Em 2006, esse debate sobre o Estado prejudicou o candidato do PSDB e do DEM, Geraldo Alckmin. Como vão lidar agora com esse tema?
Rodrigo Maia: Esse debate nos prejudicou porque o Alckmin não foi firme na resposta. O Estado deve existir e ser forte para garantir que as políticas públicas funcionem em áreas-chave, como segurança pública e saúde. A segurança pública está desarticulada no Brasil inteiro. Na saúde é crise do Sul ao Norte e Nordeste. O Estado tem de existir para essas funções. Não deve existir para atender à gordura, ou aos filiados do PT. Acho que o Serra vai conseguir mostrar na eleição o que significa o Estado forte, o que significa um Estado que sirva ao cidadão, e não sirva ao PT. A discussão de privatização é ultrapassada, porque o que tinha de relevante para privatizar já foi feito. Ninguém está pensando em privatizar o Banco do Brasil. Não pode é o Banco do Brasil comprar um banco privado e ficar com 49% das ações, como fez com o Votorantin. Isso não é política de governo.

iG: Imagina alguma forma de terrorismo eleitoral à vista usando-se esse tema?
Rodrigo Maia: Acho que não. Todos os candidatos têm as suas representações muito claras. A história do Serra não permite que esse tipo de política. Esse ataque contra a privatização não cola no Serra. Em 2006, o Alckmin era um político que vinha de São Paulo que o Brasil descobriu durante a campanha eleitoral. O Serra tem outra história.

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