As pessoas imaginam que Rita Cadillac é só a bunda , afirma a dançarina - Brasil - iG" /

As pessoas imaginam que Rita Cadillac é só a bunda , afirma a dançarina

No trecho a seguir, Rita Cadillac volta ao passado. Fala sobre a avó paterna, que fugiu com o teatro de revista e a criou. Conta sobre a mãe e duas irmãs, que descobriu somente após os 50 anos. Elogia Chacrinha, defende as chacretes do recente documentário ¿Alô, Alô, Terezinha¿, de Nelson Hoineff. E explica por que admitiu pela primeira vez, em ¿Lady do Povo¿, que já fez programa no passado. E afirma, no presente, que é de esquerda e não engolirá mais sapo.

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

Divulgação

Rita com o diretor Toni Venturi: ""não sou formada, mas tenho a faculdade da vida"

Sua avó fugiu com um teatro de revista?

Ela era de Alagoas, fugiu novinha. Era um daqueles teatros mambembes. Sabe Dercy Gonçalves, que fugiu com o circo? Minha avó fugiu também, com o teatro. Veio pro Rio de Janeiro e acabou virando modista, conheceu o pai do Agildo Ribeiro, que era um tremendo guerrilheiro. Não sei se essa palavra guerrilheiro é certa, mas ele era totalmente de esquerda, brigava.

Ela não chegou a trabalhar como atriz, vedete?
Não, ela trabalhava do lado de trás, fazendo roupa, costurando.

Isso quer dizer que ela entendeu você quando você foi fazer Chacrinha?
Não entendeu, porque ela estava morta. Não chegou nunca a me ver, mas tenho certeza que ia amar. Eu gostava de balé, tenho uma foto vestida de bailarina, ela cantava pra mim e eu ficava dançando.

Como era isso de ela abrigar gente perseguida pela ditadura militar?
Pois é, ela abrigava, escondia. A gente morava na rua Evaristo da Veiga, no centro do Rio, e em frente tinha um quartel, tem até hoje. Ali eles levavam os presos, a gente escutava gritos que vinham do lado de lá. E do outro lado da rua minha avó escondia pessoas. Eu tinha uns seis anos, a única coisa que falava pra mim sempre era: Não fale que tem ninguém aqui pra ninguém, nem pras suas amiguinhas. Eu não podia abrir a boca, tanto que na minha casa nunca ia nenhuma amiguinha.

É de causar orgulho sua avó ter feito isso?
Sim, tranquilamente.

Isso te fez uma pessoa de esquerda?
Eu não sei... Eu sou de esquerda? Sou, eu sou de esquerda. Eu acho que tenho isso no sangue, eu sou meio perigosa [ri]. Não tenho medo, eu falo, acabou, PT, saudação, quem quiser ouve, quem não quiser não ouve. Vieram me convidar pra me candidatar, eu disse, eu não, tá louco, no dia que começarem realmente a prender esses políticos safados me chama que eu vou. Mas fora isso não me chama, eu não vou me embrenhar nesse mundo sujo.

Mas o que é ser de esquerda, hoje?
Ser de esquerda é brigar, brigar com tudo que é errado, brigar a favor das pessoas, do povo. Pra mim é isso. E se amanhã vem uma ditadura, não sei, não, eu sou a primeira a ir em cana.

Divulgação

Rita Cadillac como cantora: "quando lancei, não vendeu nada, mas hoje é cult"

Hoje a gente é relativamente livre...

Ainda bem que você falou relativamente.

Você pode fazer um filme pornográfico e não ser tão julgada...
Ah, sim. Relativamente você é livre, relativamente. Mas você é julgada pela sociedade, de outra forma. Se aquela época fosse hoje, eu agiria como minha avó agiu, e iria em cana. Ela foi em cana, várias vezes.

Por quê?
Ou por isso, ou porque estava em algum lugar, ou porque estava distribuindo folheto. Eu não sei por que, porque nunca vi ela ir em cana. Sabia porque ela tinha sumido, mas fiquei sabendo disso tudo depois que passou. Tanto que ela me jogou num colégio interno, pra eu não presenciar certas coisas.

Quando ela morreu você tinha que idade?
Aí eu já estava com 17 anos, já era casada, tinha até filho.

Seus pais já tinham morrido?
Meu pai tinha, porque ele faleceu quando eu tinha 13 dias de nascida. Nem chegou a me conhecer, estava doente, com leucemia. Minha mãe, por sua vez, me deixou com minha avó paterna e sumiu no mundo, e foi reaparecer agora, durante a filmagem do documentário. Apareceu outra irmã mais velha que eu, por parte de mãe, e apareceu mais uma irmã que também não sabia que era filha da minha mãe. Foi adotada, e a mãe adotiva contou a verdade antes de morrer, ela descobriu que eu existia, veio atrás de mim. Isso tudo durante a produção do filme. Tenho família lá em Mimoso do Sul, no Espírito Santo.

Mas sua mãe não aparece no filme, aparece?
Não, não aparece, porque eu pedi pro Toni. Eu tenho mãe? Tenho, como ser humano tenho, não nasci de chocadeira. Mas ela pra mim não existe. Existe como ser humano, porém como mãe não existe.

Você está dizendo que não entende o que ela fez?
Não, não entendo. Não consigo entender. Cheguei a conhecer, falar com ela. Um dia me ligam dizendo sua mãe está viva, querendo falar com você, eu quis saber. Pô, até então pra mim estava morta, eu tinha 52 anos, agora estou com 55.

Ela deu uma justificativa?
A justificativa foi tão idiota que não tinha como. Como uma mulher que é guerrilheira, de esquerda total, como minha avó, ia ter preconceito contra a mãe da neta, filha única do filho dela que faleceu?

Qual foi a justificativa?
Que minha avó tinha preconceito e por isso me largou com ela e foi embora. Porque ela era pobre? Não existe isso.

Prostituta não?
Não, não. Quer dizer, não sei se era prostituta. O que me disse foi que minha avó não aceitava ela porque era pobre. Minha irmã mais nova é diferença de gestação, em seguida ela estava grávida de outro.

Então, embora você não soubesse até os 52 anos, hoje você tem uma mãe e duas irmãs.
Pois é, legal, né? Filha da puta, que ainda fez uma loira de olhos azuis, outra morena de olhos verdes, e a única de olho preto sou eu [Naomi começa a latir e a me encarar].

Quando você virou chacrete não tinha família por perto?
Não, eu não tinha família nenhuma, só tinha marido e filho. Virei chacrete por acaso. Trabalhava com Haroldo Costa, um produtor de shows, dançando, fora do país. Quando voltei de férias pro Brasil fiz um show do Paulo Silvino, e amigos do Chacrinha foram e falaram que existia uma mulher que tinha todo o perfil pra ser uma chacrete. Convidaram, topei, aceitei e fiquei [ri].

Era bom? Não deve ser um emprego fácil.
Era muito bom. Era gostoso. Eu amava.

O que você achou do documentário sobre ele?
Participo, mas não achei bom. Eu queria ver a história do Chacrinha, e ali ele está contando a história das chacretes. Partiu só pra briga das chacretes, legal, maravilha, agradeço, mas... Foi desrespeitoso, porque mostra o lado pobre e negativo de uma chacrete. Porque você tinha glamour e era chacrete, hoje você tinha que estar milionária? Não, nós não ganhávamos muito dinheiro. E também o que mostra não é desonra nenhuma. O que eu fiquei pê da vida é que Fátima Boa Viagem hoje é cozinheira de um restaurante, ótimo, que demérito tem? Nenhum.

Mostra até que a vida de chacrete não era fácil, não era uma escada pra ascender socialmente.
Sim, hoje em dia ela é uma cozinheira, mas não precisa mostrar ela cozinheira, acabada, com cara de louca, com cara de que está ali morrendo.

Sensacionalista?
É. A outra, Índia, ficar pelada num chafariz, porque achava que aquela estátua é dela? Coisas assim, uma falar que Chico Buarque vive bêbado, que Silvio Santos é gay... Aí vem o My Boy [ex-DJ do Chacrinha)] que me conhece há milhões de anos, dizer que a única que deu certo foi a Rita Cadillac, que era a única analfabeta. Até hoje não encontrei o My Boy, mas vem cá, qual é a definição de analfabeta? Pra mim é aquela que não sabe ler, escrever e tem que botar o dedinho lá. A pessoa que já sabe pelo menos escrever o nome e juntar as palavras pra mim já está sabendo ler. Dizer que sou uma analfabeta, eu? Eu não sou formada em nada, não, mas não é por isso que sou analfabeta. Eu sei escrever meu nome, sei ler. Por que não dizer era a que menos a gente achava que ia dar certo, porque não tinha estudo, não era psicóloga, porque tinha meninas ali que eram formadas, psicólogas, mas foi a que deu certo?

Reprodução

Rita com Chacrinha: "Se não é ele, eu não sou ninguém, sou um nada"

Pra mim a grande revelação do filme do Toni Venturi é que ¿ deve ser até um preconceito meu ¿ você é uma mulher inteligentíssima, e o perfil de uma chacrete sempre fala o contrário pra gente...

Burra! Sim. Eu não sou formada, não tenho formação nenhuma, não. Mas eu tenho a faculdade da vida. A faculdade da vida eu tenho. A única coisa ruim do filme do Nelson foi uma agressão que não precisava ter mostrado. Pra mim é uma agressão. Mas tudo bem, o filme é dele, é a mesma coisa do meu filme, quem não gostar vá brigar com Toni, eu sou meramente um personagem. Não opinei em nada, não dei palpite em nada. Depois de pronto ele me chamou pra ver se eu queria arrancar alguma cena, e eu falei não quero ver.

Que legais, a atitude dele e a sua.
Quando forem sentar no cinema pela primeira vez, é essa vez que eu quero ver.

E que emoções te provocou da primeira vez?
Todas. Até hoje provoca, porque até hoje eu choro que nem uma louca. Ele mostrou a realidade, não fantasiou, não botou nada bonito. Botou o que é. A Fátima, cozinheira, botaram ela [no outro filme] numa cozinha que parecia a cozinha mais suja do mundo, em outra cena botaram nela uma boina cheia de lacinho, você fala, pô, que louca é aquela lá?.

Você está dizendo que aquilo nem é dela, foi produção do filme?
Sim, pra mim só foi. Porque, se ela está assim, não precisa mostrar. Ô, Fátima, vamos mostrar bonitinha, escova o cabelinho, não tem problema se está mais gordinha. Todo mundo engordou, eu engordei.

Confesso que eu tinha adorado o filme, mas ouço várias pessoas falando o mesmo que você. É divertido, mas parece que passando por cima de um monte de gente...
Feriu muita gente, mostrou enfiando a faca. E eu sou a pessoa que não poderia nunca falar que não gostei, porque fui a única que fui divulgar junto, pra você ver como sou filha da puta. Fui, e não fui paga pra nada. Fui por causa de Chacrinha, porque era um filme que falava dele. Eu seria a primeira pessoa a dizer que o filme é maravilhoso, mas eu digo: não gostei, pra mim não. Pô, mostra o Chacrinha, fala que aquele homem veio lá do Nordeste, ia ser médico, já ia se formar e parou de estudar pra virar o Chacrinha, o papa da comunicação.

Qual é a importância do Chacrinha pra você, na sua vida?
Muita, pra mim toda. Se não é ele, eu não sou ninguém, sou um nada [silêncio]. Amo ele de paixão, amo, amo, até hoje. São coincidências da minha vida, meu pai morreu no dia 30 de junho, Chacrinha morreu no dia 30 de junho. Bolinha morreu dia 30 de junho. São três homens que passaram na minha vida como pessoas marcantes, foram meus anjos da guarda.

No filme parece ser um momento muito difícil aquele em que você diz que fez programa. Você nunca tinha dito isso, tinha?
Nunca. Isso era uma coisa que eu tinha guardada pra mim, mas que eu tinha apagado da minha memória. É um trauma que eu tinha e que a vida fez com que eu apagasse, por medo, por vergonha, por tudo. E de repente o Toni fez com que eu falasse disso. E hoje em dia eu falo naturalmente.

Deve ser uma coisa que alivia...
Aliviou, muito. Ele foi o meu maior analista, sem eu pagar.

Como você disse antes, nem é que você estivesse mentindo, mas você dizia que não e ninguém acreditava.
Sim, respondi sempre não, não, não. Não é que eu estava mentindo, eu tinha apagado da minha memória. E a Rita Cadillac não fez programa, quem fez foi a Rita de Cássia. É uma coisa dúbia de falar, mas é verdade.

Numa sociedade moralista, que acha que ser chacrete é sinônimo, assim como no passado achava de quem era atriz.
É, exatamente, chacrete era sinônimo de puta.

Sofria com isso?
Não, nunca, a mim não me ofendia a honra. Quando falam uma coisa boa eu puxo pra mim. Quando é uma crítica que vai ser construtiva, legal. Se é uma crítica do tipo era uma vagabunda, tô cagando e andando pras pessoas. Principalmente hoje. Quando eu fiz esse filme eu falei: a partir do dia de hoje eu não engulo mais sapo. Engoli até o dia de hoje.

O filme foi uma grande libertação, então?
Foi. Porque, se consegui sobreviver a isso, eu me dou o direito de não engolir mais sapo. A minha empresária às vezes fica arretada da vida, pô, Rita, você precisa da televisão, não fala isso. Meu amor, precisar eu preciso. Não é que deixei de precisar. Mas não é por isso que vou calar minha boca sem um porquê. Existe ainda um preconceito muito grande, principalmente contra a Rita Cadillac. As pessoas imaginam que a Rita Cadillac é só a bunda, acabou. Hoje eu brinco, pô, a Devassa gastou a maior grana trazendo a Paris Hilton, você quer maior devassa que a Rita Cadillac? Impossível. Ia pagar muito menos. Porque as pessoas imaginam que sou a maior devassa da face da terra. Eu sou isso aqui.

No filme você parece magoada de ter feito os filmes pornôs, parece ter sido sofrido.
Não é magoada. Mágoa eu não tenho. É uma coisa que fiz por dinheiro, não fiz por prazer, não fiz pra aparecer na mídia. Passou, numa boa. E não digo pra você, nunca mais vou fazer. Mentira. Não sei o dia de amanhã. Se eu precisar amanhã eu vou fazer, e com toda a dignidade que fiz na primeira. Trabalho, continuo fazendo show, televisão. É claro que, pô, faço 56 anos agora, qual é o pessoal que quer ficar vendo bunda de mulher de 60 anos? Claro que sei fazer outras coisas, claro que quero continuar na carreira, mas a gente sabe até onde vai a Rita Cadillac de bunda. Depois vai vir a Rita Cadillac, mas de outra coisa.

Você já prepara essa outra?
Ah, não sei, tá aí. Se aparecer a chance de trabalhar...

Escritora, contar sua história?
Escritora, não. Não dou pra isso, não [ri]. A autobiografia já está sendo escrita, pelo genro do dr. Dráuzio Varella, Jefferson Gorgulho.

Eu sou jornalista de música, não se pode dizer que É Bom para o Moral é um clássico da MPB...
Não, Deus que me perdoe, pelo amor de Deus, nem eu acho isso!

... Mas eu adoro, acho o máximo.
Mas quando lancei, em 1983, não vendeu nada. Fazia muita televisão, mas se vendi 4 mil discos foi demais. Hoje em dia, não, você vai em discoteca e toca, virou cult mesmo.

Fui até atrás da versão original, em francês.
Muito legal, né? A garotada gosta. Marcou, acho que por causa do Carandiru.

Você fez alguma coisa com a Rita Lee, não fez?
Fiz um CD com músicas da Rita Lee. Ela aprovou, ia gravar comigo, mas o cachorrinho dela tinha sumido, ela ficou muito mal. Onde vou, canto Rita Lee. Bwana, Tatibitati, Baila Comigo, várias. [Hora de terminar a entrevista, Naomi está dormindo no tapete ao lado]

Assista ao trailer de "Rita Cadillac, a Lady do Povo":

Leia mais sobre: Rita Cadillac

    Leia tudo sobre: documentáriosrita cadillac

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG