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Aprendi a não pedir nada , diz catador de material reciclável

Adílson Rangel da Silva, de 39 anos, já perdeu a conta de há quantos anos está na rua entre idas para albergues e pagamento de aluguéis. Lembra apenas que saiu de Mairinque, no interior de São Paulo, ainda criança, com 12 anos, após a morte dos pais. Deles, guarda um ensinamento principal: ¿nunca pedir nada a ninguém¿.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

Lecticia Maggi
Silva perdeu a carroça e os documentos

Por causa disso, vive de recolher material reciclável e vender em ferros velhos. Até o início de abril fazia isso com a sua carroça, mas diz que ela foi recolhida por guardas civis metropolitanos enquanto almoçava na Associação Minha Rua Minha Casa, no bairro da Liberdade.

Silva conseguiu anotar a placa do caminhão que a levou e chegou a procurar a subprefeitura local, mas foi informado de que carroças abandonadas eram destruídas e documentos que não tinham donos eram queimados. Carroça eu corria atrás de comprar outra, mas e os documentos que estavam lá? É crime fazer isso com a gente, protesta.

Procurada, a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras confirmou que uma carroça foi apreendida no local e dia citado por Silva, mas defendeu que ela foi recolhida porque estava sendo utilizada para reciclagem, atividade que é proibida na via pública. Para retirar o material apreendido, o responsável precisa apresentar documentação que comprove a posse do equipamento, diz a prefeitura, que nega a queima de qualquer documento.

Desde o incidente, porém, Silva recolhe papelão e latinhas com um saco de lixo preto. Leva o quanto aguenta carregar na cabeça. Cato para não ficar com fome, diz. Pedir comida ele diz que não pede porque tem vergonha. A primeira vez que cheguei a São Paulo e fui pedir almoço em um restaurante o rapaz me disse: vai trabalhar que você é novo. Estou cansado de todo dia todo mundo pedir, afirma.

"No dia consigo uns R$ 4, R$ 5. Dando para almoçar e não ficar pedindo para os outros está bom"

Na rua, ele explica que os catadores são vistos como pessoas que têm dinheiro e, muitas vezes, roubados pelos próprios moradores. Para não apanhar você tem que entregar o que tem, diz.

A necessidade, no entanto, ele conta, o ensinou a dividir o pouco que consegue com quem está na mesma situação. Se tiver eu ajudo. Ontem um rapaz pediu dinheiro e eu falei que dinheiro não dava, mas se ele quisesse pagava um salgado. Ele comeu e agradeceu, afirma.

Em tempos de crise, Silva diz que o material reciclável está desvalorizado e é cada vez mais difícil conseguir o suficiente para passar um dia. A disputa entre os catadores também é maior. Latinha é muito difícil de achar na rua agora, afirma. O papelão que recolhe vende por 2 a 3 centavos o quilo. No dia consigo uns R$ 4, R$ 5. Dando para almoçar e não ficar de barriga vazia pedindo para os outros está bom. Eu não peço nada.

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