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A Estrada retrata com crueza luta pela sobrevivência após fim da civilização

Um pai e seu filho cruzam estradas abandonadas empurrando um carrinho de supermercado com todos os mantimentos que conseguiram encontrar. Esqueça os punks de Fuga de Nova York ou os motoqueiros de Mad Max. O mundo pós-apocalíptico criado pelo escritor Cormac McCarthy não tem espaço para esse tipo de alegoria. Ele é, sem dúvida, o retrato mais fiel do que pode ser o fim do mundo.

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Não há datas ou sequer explicações sobre o que aconteceu, e isso pouco importa. Em "A Estrada" a sociedade que conhecemos acabou. Animais e plantas estão extintos e o que resta aos sobreviventes é vagar pelas estradas em busca de alimento ¿ fator tão comumente ignorado em outras produções do gênero.

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Pai e filho tentam sobreviver no mundo destruído do filme "A Estrada"

"Preocupava-se principalmente com os sapatos deles. Isso e comida. Sempre comida", revelam as primeiras páginas do livro, cuja adaptação segue à risca os escritos de McCarthy, colocando na tela todos os tons de cinza de um planeta que vai morrendo aos poucos, com florestas de árvores secas e cidades em ruínas.

É neste cenário que um homem tenta garantir a sobrevivência de seu filho, alimentando a esperança de que ao Sul, em direção à costa, encontrarão condições melhores. O problema é que num mundo devastado e com escassez de alimentos, o ser humano dá vazão aos seus instintos mais primitivos, indo inclusive contra a sua dita natureza ao apelar para o canibalismo e o suicídio.

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Relação entre pai e filho é centro da trama

Num primeiro momento é sedutor e quase que imperceptível distinguir os homens entre bons e maus. Mas aos poucos, os personagens de "A Estrada" convidam a plateia a refletir sobre seus atos, afastando conclusões maniqueístas e revelando-se apenas como pessoas que lidam de maneiras diferentes com uma situação de desespero.

Daí a dificuldade da luta do pai interpretado por Viggo Mortensen, que tenta manter o espírito de civilidade vivo num mundo sem contrato social vigente. O fruto desse tipo de "sociedade" sem lei pode ser refletido nas reações muitas vezes apáticas do filho, papel do estreante Kodi Smit-McPhee, que parece desconhecer a expressão de um sorriso.

Aliás, diante da interpretação de ambos, fica evidente a injustiça cometida com "A Estrada" pelo Oscar de 2010 . O longa-metragem de John Hillcoat merecia indicações nas categorias filme, ator (Viggo Mortensen), ator coadjuvante (Kodi Smit-McPhee) e fotografia.

Talvez a Academia de Artes Cinematográficas não quisesse correr o risco de premiar outro romance adaptado de Cormac McCarthy, autor do aclamado "Onde os Velhos Não Têm Vez", que rendeu aos irmãos Coen o Oscar de melhor filme por "Onde os Fracos Não Têm Vez" em 2008. 

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Interpretação vigorosa de Viggo Mortensen foi esquecida pelo Oscar de 2010

Mas a ausência de um prêmio não tira os méritos desta adaptação. Apesar do clima pós-apocalíptico e de toda crueza com que retrata a luta por sobrevivência, "A Estrada" é uma bela história de amor de um pai e seu filho. E só por isso deveria ser visto.

Caminhos diferentes de uma mesma história

Enquanto o filme "A Estrada" sofreu com adiamentos de sua data de lançamento e teve uma estreia limitada nos Estados Unidos, arrecadando apenas US$ 8 milhões, o livro homônimo de Cormac McCarthy ficou em primeiro lugar na lista de mais vendidos e sagrou-se vencedor do Prêmio Pulitzer em 2007.

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Cormac McCarthy no programa de Oprah Winfrey

O autor já havia chamado a atenção da mídia após o sucesso da adaptação de sua obra anterior, "Onde os Velhos Não Têm Vez", de 2005. Mas isso não afetou sua aversão à entrevistas, o que tornou mais surpreendente sua aparição no programa da apresentadora Oprah Winfrey, que havia recomendado "A Estrada" aos seus espectadores.

A entrevista, que foi a primeira de McCarthy na televisão, aconteceu na biblioteca do Santa Fe Institute, próximo à residência do escritor, em 05 de junho de 2007. Nela, o autor contou que não conhece muitos escritores, preferindo a companhia de cientistas, e revelou que a experiência de tornar-se pai com mais de 60 anos serviu de inspiração para "A Estrada".

Além de "Onde os Velhos Não Têm Vez" e "A Estrada", dois outros livros de Cormac McCarthy já encontraram seus caminhos para a telona: "Todos os Belos Cavalos", de 1992, dirigido por Billy Bob Thornton e estrelado por Matt Damon e Penélope Cruz, lançado em 2000 como "Espírito Selvagem"; e "Blood Meridian", de 1985, que deve chegar aos cinemas em 2011 com direção de Todd Field.

Veja abaixo o trailer de "A Estrada":

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