Queimadas fogem do controle e se alastram pelo país

Prevenções, combate e punições têm capacidade limitada no Brasil, que fica vulnerável em todo ano de seca mais severa

Danilo Fariello, enviado especial a Marcelândia (MT) |

Surgiu por descuido em um bordel na beira do rio, provavelmente por um fósforo jogado pela janela depois de o fogão ter acendido. Em pouco tempo, ganhou os campos ao redor da casa, espalhou-se pela beira do rio e, quando chegou à ponte de madeira mais próxima, atravessou-a e tomou conta também da outra margem, avançando para a cidade.

A história desse incêndio em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso, não difere muito de outras tantas que se ouviu pelo país desde julho, a partir de quando foram notados até 300 mil focos de calor, que são potenciais indicativos de queimadas, conforme o mapa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Boa parte deles está presente em áreas de conservação ou terras indígenas e outro tanto ameaça cidades e produtores agrícolas.

De dois anos de poucas notícias sobre fogo nas florestas do país, 2010 atinge níveis alarmantes. Os incêndios atualmente estão localizados principalmente no cerrado e na Amazônia, mas tendem a se espalhar para o litoral, conforme a sazonalidade natural.

Como para a perda da seleção na Copa do Mundo ou a queda de aviões, as razões para a expansão dos incêndios são muitas e nenhuma pode ser apontada como causa isolada. O principal combustível para as queimadas deste ano é a baixa umidade relativa do ar, que leva a maiores secas. As deste ano são motivadas principalmente pela manifestação do “El Niño”, corrente atmosférica que periodicamente chega do Pacífico ao território brasileiro.

Mas o clima e suas alterações não são os únicos culpados pelas queimadas. Segundo ambientalistas, a combustão espontânea da vegetação existe, mas em quase 100% dos casos ela é causada pelo homem. Pode ser um fósforo jogado pela janela, como no caso do bordel, uma guimba de cigarro que voa acesa da estrada, uma lata de bebida ou um espelho que refletem a luz solar sobre a folha seca até incendiar ou ainda uma fogueira feita para queimar lixo ou preparar o solo, da qual se perde o controle.

Onde queimou mais

Distribuição dos focos de calor no mês de agosto, por Estado

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Fonte: INPE


Dois brigadistas para cada Recife

Depois de que o incêndio se instala, o combate ao fogo é frágil. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, no Brasil atualmente existem pouco mais de 64 mil brigadistas. A média, portanto, é de 132 quilômetros quadrados para cada combatente do fogo, o equivalente a dois para cada Recife (PE). Para amenizar a escassez, foram transferidos alguns bombeiros do Rio Grande do Sul e do Distrito Federal para áreas mais críticas neste inverno. Essa é uma das medidas que foram possíveis com um orçamento extra de R$ 20 milhões criado para o combate ao fogo.

Se contados apenas os brigadistas do governo federal, são 3289. Especificamente para a contenção do fogo, há orçamento de R$ 29,36 milhões neste ano, antes da autorização dos recursos extras, segundo a Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Esse dinheiro tem foco principal nas áreas de conservação e indígenas.

Nos Estados, o número de bombeiros também é escasso. No Mato Grosso, Estado que apresentou maior número de focos de calor em agosto, são apenas 953 bombeiros para todo o território. E outros 150 homens compõem o policiamento ambiental, também colaborando com a prevenção do fogo. Ainda assim, o Parque Estadual do Cristalino, maior do que Portugal, tem apenas sete brigadistas.

Arte/iG
Em Marcelândia, no Mato Grosso, maioria das madereiras foi queimada
Em Marcelândia, cidade de exploração da madeira em que a maioria das marcenarias veio abaixo por conta do fogo, dizem que tudo teve início no lixão da cidade, mas por aqui e acolá sabe-se que alguns aproveitaram o incêndio para, no meio da fumaça que tomou conta do local, queimar seus lixos e pastagens, para que, no período de chuvas que se aproxima, o capim e a soja venham com mais força. As queimadas continuam, embora o Mato Grosso possua um calendário ambiental em que se proíbe queimadas nos períodos de maior seca.

Mas a própria cidade de Marcelândia também descobre agora que a mobilização social pode compensar a escassez do Estado no combate ao fogo. Os grandes produtores estão criando uma espécie de Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) do campo, construindo torres e distribuindo caminhões-pipa pelas propriedades, porque perceberam que uma chama isolada pode significar prejuízo de todos. Medidas similares já foram tomadas no Norte de Minas, com bons resultados.

E, se a responsabilidade ambiental no combate ao fogo é escassa, surgem alternativas para se prevenir usando um método reconhecidamente eficaz: o dinheiro. Madeireiros de Marcelândia se organizam agora porque aprenderam que deixar os resíduos ao lado da marcenaria pode lhes custar toda a empresa – no caso de alguns, a perda foi de R$ 2 milhões em madeira de ótima qualidade queimada. O governo do Mato Grosso também decidiu mexer com o bolso dos produtores e adota uma estratégia de coação financeira, multando toda a propriedade que tiver sido queimada, para depois discutir onde o fogo surgiu e rever a cobrança.

Multas altas costumam não ser pagas

Segundo Alexander Maia, secretário do Meio Ambiente do Mato Grosso, no ano passado – de menos incêndios – foram aplicadas 434 multas e, apenas de junho até quarta-feira, foram 474 autos de infração contra fogo no Estado. A multa pode chegar a mais de R$ 10 mil por hectare queimado, com agravantes para terras maiores pela poluição causada. Na prática, porém, são muito poucas as multas de fato pagas no Estado, porque nesse bojo são multados agricultores como Agenor Vieira de Andrade Neto, de Marcelândia, que recebeu na propriedade uma notificação de multa de R$ 12 milhões, valor acima daquele que a terra da família vale, segundo conta.

De acordo com Andrade, o fogo atingiu apenas uma parte de suas terras, vindo do vizinho. Ele perdeu mais de R$ 1 milhão em madeira pelo incêndio e, enquanto não explica a multa, está impedido de vender a terra. Segundo Maia, os proprietários são multados não apenas pela ação de atear fogo nas terras, mas também pela omissão por não cuidar para que as queimadas não as atinjam. Andrade diz que não foi omisso, tendo construído um aceiro de mais de 10 metros entre as suas terras e as dos vizinhos.

Aceiro é um espaço de terra, muitas vezes usado como estrada, sem vegetação para impedir que o fogo pule de um determinado terreno para outro. O problema é que, com os ventos deste ano, acima de 50 km/h, não teve aceiro de 100 metros que contivesse o fogo de saltar entre as propriedades do Mato Grosso. “Mas não tem lei que diz qual o tamanho que tem que ser um aceiro suficiente”, diz Andrade.

É no cerrado em que as maiores queimadas são percebidas neste ano. O bioma, contudo, também é o mais resistente, porque, diferentemente da Amazônia, boa parte da sua biomassa se encontra abaixo do solo, explica Eduardo de Souza Martins, diretor técnico da consultoria em meio ambiente e.labore e ex-presidente do Ibama. “Nas primeiras chuvas, haverá numa explosão de vida no cerrado”, prevê.

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