Quatro corpos de naufrágio no lago Paranoá são resgatados

Bombeiros apontam falha mecânica em bombas de esgotamento do barco. Corpo de criança de 10 anos pode ser um dos encontrados

Naiara Leão, iG Brasília |

Mais dois corpos foram encontrados depois que uma embarcação afundou na noite de domingo (22) no Lago Paranoá, em Brasília. Um deles, encontrado por mergulhadores próximo ao barco por volta das 18h, é de um homem adulto. O outro é de uma criança. Nesse caso, ainda não há informações de sexo e idade, mas suspeita-se que seja a menina Ester, de dez anos. O corpo estava longe do local do acidente num local profundo e foi encontrado por mergulhadores.

"A única criança que temos certeza que está desaparecida é a menina de dez anos. Mas como a lista de vítimas não foi fechada, pode se tratar de outra pessoa, ainda que isso não seja provável", explica uma das responsáveis pela busca, Major Vanessa Signalli.

Fellipe Bryan, iG Brasília
Equipes de resgate fazem buscas nesta segunda-feira no lago

A mãe de Ester, Valdelice dos Santos, também está desaparecida. No total, três ou quatro pessoas ainda não foram encontradas.O Corpo de Bombeiros ainda não tem o número exato de pessoas que estavam na festa no local, já que não há uma lista de convidados.

Às 11h40, o corpo de Flávia Daniela Pereira Dornel, de 22 anos, foi encontrado pelos mergulhadores. Segundo os bombeiros, o corpo estava preso ao barco.

Flávia era irmã da promoter da confraternização que ocorria no barco, Vanda Pereira Dornel, sobrevivente do acidente. Vanda prestou depoimento pela manhã e disse que faz eventos há anos neste e em outros barcos e que nunca houve acidentes. Ela contrata os barcos e realiza as festas. Dessa vez, participavam da festa amigos e parentes e alguns outros convidados, que pagavam entre R$ 50 e R$ 60.

A primeira vítima fatal foi um bebê de seis meses. Ele chegou a ser resgatado com vida, mas não resistiu. O Corpo de Bombeiros recebeu uma ligação às 22h52. Segundo a Major Vanessa, a ligação foi feita por um passageiro do próprio barco. Dez minutos depois o resgate chegou ao local.

As estimativas de números de vítimas se baseiam nas afirmações do comandante do barco, segundo um dos responsável pela operação de resgate, Major Adriano Azevedo. Ele acredita que algumas pessoas possam ter se salvado nadando e não tenham entrado em contato com órgãos de segurança. Oficialmente, sete pessoas seguem desaparecidas com possibilidade do número mudar para oito. Segundo os bombeiros, a lista possui nomes similares e é confusa.

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Os mergulhadores começam a procurar corpos em locais distantes do acidente. Segundo o Major Azevedo, o vento forte da noite de ontem pode ter afastado as vítimas. Após uma reunião da Secretaria de Segurança Pública ficou decidido que a base de buscas passará nesta tarde do clube da  Associação dos Servidores da Câmara dos Deputados (Ascade) para o Brasília Ultraleve Clube.

Apesar de trabalhar com a possibilidade de encontrarem pessoas com vida em margens distantes do local do acidente, os bombeiros encaminham os familiares de desaparecidos para o Intituto Médico Legal. O tio da menina de dez anos que não foi encontrada, o empresário Vilmar de Oliveira,  reclama da falta de informações. "Não tem ninguém prestando esclarecimentos e temos que procurar saber do que acontece por meio da imprensa". Até agora 82 pessoas e 12 tripulantes foram resgatados com vida. Um bebê de aproximadamente seis meses não sobreviveu e outras 15 pessoas foram hospitalizadas, mas nenhuma com problemas graves.

Possível lotação

O barco que realiza esse tipo de evento costuma ter capacidade para até 92 pessoas. Os bombeiros estimam que a festa tinha 102 ou 103 convidados. A Marinha explica que, com o sobrepeso, entraria na mais água do que as bombas de esgotamento poderiam suportar. A hipótese, no entanto, só poderá ser confirmada quando o barco for retirado da água e a perícia verificar sua capacidade máxima.

“Não podemos falar em superlotação. O que sabemos é que houve um peso muito grande porque o barco estava cheio. Isso naturalmente abaixa o nível da embarcação e facilita a entrada de água jogada por outros barcos”, diz.

Uma lista com os nomes dos convidados para a festa foi encontrada por volta das 12h. A perícia trabalha no documento para conseguir visualizar os nomes confirmados. Porém, não tem certeza se todos os passageiros tiveram o nome confirmado ao chegar na festa.

Falha mecânica e tripulação reduzida podem ter contribuído

Os bombeiros começam a levantar suspeitas de que a causa do acidente seja falha técnica e humana. A possibilidade de que existia uma lancha que bateu na embarcação ainda não foi descartada, mas é menos provável, segundo o major Azevedo.

“Há relatos desencontrados sobre a colisão com a lancha e o próprio comandante nega que tenha acontecido”, diz o major. “Por outro lado, claramente houve uma falha técnica nas bombas de esgotamento. Pode haver fissura no casco ou entrada excessiva de água”, completa.

Ele explicou que uma marola provocada por lanchas que passaram próximas à embarcação pode ter jogado muita água para dentro do barco. As bombas de esgotamento, responsáveis por jogar a água para fora, não teriam suportado a quantidade e a embarcação afundou.

“Sempre entra água no barco, mas pode ter sido um volume muito grande ou as bombas podem simplesmente não ter funcionado direito”, afirma Azevedo. A documentação e a fiscalização da embarcação estavam em dia, de acordo com a Marinha.

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O comandante da operação de resgate questiona também a quantidade de tripulantes no barco. O número divulgado é de 12 pessoas, mas segundo o major havia apenas um homem cuidando da parte técnica. O restante seriam funcionários da empresa que organizava a festa, como garçons e recepcionistas, além do DJ.

“É estranho ter só um comandante. Como ele vai guiar e cuidar de problema mecânico? Por isso, a orientação que ele deu às pessoas e a distribuição de coletes foram tardias. Deveriam haver, no mínimo, três pessoas fazendo isso”, diz o major Azevedo.

Ele conta ainda que o comandante demorou a decidir se os passageiros pulavam na água ou esperavam socorro. Por causa disso, nem todos colocaram os coletes a tempo e muitos  coletes foram encontrados flutuando na água.

A operação de resgate foi retomada às 6h da manhã desta segunda, depois de ser interrompida por volta das 3h da madrugada. Cerca de 30 homens do Corpo de Bombeiros e da Marinha trabalharam no local até às 19h.

Segundo a major Vanessa, amanhã os esforços continuarão concentrados na busca dos desparecidos. "Não podemos deslocar nenhum homem da busca", diz.

Não há previsão para retirada do barco do Lago Paranoá. Mas dois mergulhadores da Marinha do Rio de Janeiro são esperados para ajudar no içamento do embarcação, que está a 17 metros de profundidade. Dois mergulhadores já estão fotografando o barco para que os Bombeiros planejem a ação.

As dificuldades são a posição da embarcação, que está de ponta, e condições de visibilidade. "Como o Lago é artificial e foi feito na época da construção de Brasília, há muitos materiais de contrução e árvores no fundo. A visibilidade é de apenas um metro", diz a Major.

Com AE

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