"Quase morri na loja", diz comerciante que perdeu R$ 600 mil

Em Carvalhos, homem tenta salvar mercadorias, é submerso pelas águas, mas consegue escapar. Na volta, tem até de matar uma cobra

Denise Motta, iG Minas Gerais |

O comerciante Anderson Diniz Vilela, de 32 anos, passou por momentos de desespero por causa das enchentes que assolam a cidade de 4.500 habitantes no sul de Minas Gerais (o município está separado de Belo Horizonte por 400 quilômetros). Casado e com dois filhos, de dez e de oito anos, Anderson é um sobrevivente das enchentes. Ele lutou pela própria vida, mergulhado nas águas das chuvas que invadiram sua loja de móveis e eletrodomésticos, no centro da cidade. Até mesmo uma cobra ele precisou matar. Tudo isso para evitar um fato que, aquela altura, já estava consumado: as enchentes deixaram Vilela com um prejuízo de R$ 600 mil.

“Quase morri aqui dentro da loja. Fui avisado por vizinhos, às 5h30 da quarta-feira passada, sobre o alagamento na loja. Na ingenuidade, sozinho, tentei salvar objetos de maior valor, colocando em cadeiras", conta ele. "Mas, em cinco minutos, a água subiu mais de um metro e o portão da loja estourou. Até cobra eu encontrei e tive que matar. Para me salvar, me agarrei em um muro e subi em um telhado, em um ponto mais alto. Parecia que eu estava em um terremoto”, conta, sobre o episódio no último dia 12.

Anderson diz que sua loja havia sido abastecida recentemente por causa das boas vendas no Natal. Estava lotada de computadores, geladeiras, fogões, sofás. Pouca coisa foi salva. Com um faturamento mensal de R$ 100 mil, ele diz que tentará reconstruir sua vida arrasada pelas enchentes. Ainda na útlima terça-feira (18), o comerciante levou outro susto. Uma chuva forte alagou novamente sua loja - mas, desta vez, um pouco menos agressiva. Olhando para uma dezena de porta-retratos, mercadoria salva, ele resume: “Agora, R$ 10 virou muito dinheiro para mim. Vou precisar de um empréstimo para recomeçar. Aqui, emprego nove pessoas, todas pais de família”.

Ramon de Carvalho Arruda, 31 anos, outro comerciante, viu da janela de casa a devastação da chuva. Ele contou 50 carros boiando, incluindo a única viatura dos bombeiros que veio para o socorro. Ao ver uma mulher se afogando, pulou nas águas e ajudou no salvamento. “O carro dos bombeiros passou no meio da água e as portas dos comércios estouraram, levando mais água para dentro das lojas”, conta Arruda.

Além de conviver com prejuízos, os moradores de Carvalhos sofrem com a falta de medicamentos. As águas das chuvas invadiram as farmácias nos últimos dias. O farmacêutico João Carlos Azevedo Carvalho, de 27 anos, diz que mal se recuperava da enchente do dia 12 quando a água voltou a subir na terça passada, causando ainda mais estragos. “Perdi muito medicamento de uso contínuo, para quem tem problema de coração, diabetes e hipertensão. Até mesmo anticoncepcionais estão em falta”, avisa ele, com R$ 85 mil em perdas.

Vivendo no escuro

Os comerciantes de Carvalhos estimam um prejuízo superior a R$ 8 milhões para o comércio local, que é um centro regional, responsável pelo abastecimento dos vizinhos. A partir de agora, eles vivem no escuro: o futuro não parece nem um pouco bom. “Agora, qualquer ajuda que vier é boa. Mas, se voltar a chuva, acontece de novo”, lamenta o pecuarista João Batista Pires, de 82 anos.

João Batista passou por um momento delicado recentemente. Em fevereiro do ano passado, ele precisou operar a região do abdômen, para a retirada de um tumor. Um mês depois, perdeu a esposa por problemas cardíacos, depois de 55 anos de casamento. Agora, ele e outro familiar sofrem com as enchentes.

“Meu neto abasteceu seu galpão com 300 sacos de fubá, na véspera da enchente. Eu perdi ração para gado e sementes, além de 3 mil litros de leite, porque ficamos sem estradas para fazer distribuição”, conta Batista.  Além da ração e das sementes, o pecuarista perdeu três veículos, totalizando R$ 85 mil em prejuízos. Questionado sobre a frequência das enchentes em Carvalhos, João Batista relembra um caso de 1945: “Morava em um ponto mais alto da cidade e, de repente, bateram na porta. Quando eu abri, veio aquele povo todo de desabrigados”.

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