SÃO PAULO ¿ Atualmente, no Brasil, 59.444 pessoas aguardam na fila por um órgão. Muitas, dizem os médicos, não chegarão ao começo da lista. ¿Como no Titanic, não há boias para todos, precisamos de critérios de escolha. A compatibilidade é o principal, depois o tempo de espera na lista e o grau de gravidade¿, afirma Sônia Coria, da Central de Transplantes do Estado de São Paulo.

A fila com maior tempo de espera é a do rim, com 31.270 pessoas. Isso, por um motivo claro: as pessoas têm possibilidade de fazer hemodiálise e viver por anos nessa condição. Pacientes que aguardam por coração, fígado e pulmão não têm a mesma chance. Morrem porque não há uma máquina que substitua a função destes órgãos, explica Reginaldo Boni, coordenador da Central de Transplantes do Estado e diretor de captação de órgãos da Santa Casa de São Paulo.

O tipo mais comum de doação de órgãos é realizado após a morte encefálica de um paciente. O diagnóstico deste tipo de morte tem início com a abertura de um protocolo ¿ onde são realizados exames clínicos ¿ até no máximo 48h após a constatação.

São duas fases de exames, cujos intervalos dependem da idade do paciente: de sete dias a dois meses incompletos, 48h; de dois meses a um ano, 24h; de um a dois anos, 12h. Acima disso, o intervalo previsto em lei é de seis horas. Qualquer médico pode realizar o exame, desde que o primeiro seja feito por um e o segundo, por outro, afirma Marcelo Oliveira, médico do Hospital das Clínicas em São Paulo.

Oliveira afirma que a família do paciente deve ser avisada de que o protocolo foi aberto. Os remédios que podem afetar outros órgãos devem ser suspensos. Ele ressalta que o diagnóstico deve ser urgente já que um pulmão dificilmente é aproveitado depois de 48h e, um coração, após 72h. Além disso, a pessoa pode ter uma parada cardíaca o que inviabiliza toda a doação (menos de tecidos).

Com a confirmação, o hospital aciona diretamente a Central de Transplantes ou uma Organização de Procura de Órgãos (OPO). No Estado de São Paulo, há 10 OPOs, sendo quatro na capital: Hospital das Clínicas, Santa Casa de Misericórdia, Hospital São Paulo e Instituto Dante Pazzanese. As outras estão nas cidades de Marília, Botucatu, São José do Rio Preto, Campinas, Sorocaba e Ribeirão Preto.

A Central verifica quem será o receptor e entra em contato com a equipe transplantadora. É ela quem vai realizar a extração, que pode ser feita no próprio hospital onde está o doador.

Reginaldo Boni afirma que a doação não é algo democrático e é preciso que todo o núcleo familiar da vítima esteja de acordo. Pai e mãe devem assinar a autorização no caso de filhos com menos de 18 anos.

Mesmo que a pessoa deixe registrada, por escrito, a sua vontade de doar órgãos quando morrer, se a sua família não autorizar, ela não será realizada.

Segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo, desde 1997, os pacientes podem acompanhar pela internet a situação em que estão na lista de espera.

Doação entre vivos

Pessoas vivas só podem doar parte do fígado, a medula óssea, um dos rins e parte do pulmão. Pela lei, só é possível que essa doação seja para transplante em cônjuge ou parentes de até quarto grau. Em outros casos, é necessária uma autorização judicial, exceto para medula.

Conforme o Ministério da Saúde, qualquer pessoa com idade entre 18 e 55 anos, que não tenha nenhuma doença infecciosa, pode ser doadora de medula óssea. Os interessados devem procurar os hemocentros dos Estados onde moram para coletar uma pequena quantidade de sangue e preencher uma ficha com informações pessoais. Esta amostra de sangue será tipificada e incluída no Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME), que é um cadastro nacional e, hoje, conta com cerca de um milhão de voluntários cadastrados.

Lista de espera por órgãos no Brasil
Coração

294
Córnea 22.727
Fígado 4.770
Pâncreas 95
Pulmão 83
Rim 31.270
Rim/ Pâncreas 705
Total 59.444
Fonte: Sistema Nacional de Transplantes
Lista de espera por órgãos no Estado de São Paulo
Coração

100

Córnea

219

Fígado

2.314

Pâncreas

62

Pulmão

77

Rim

10.192

Rim/ Pâncreas

397

Total

 13.361

Fonte: Secretaria Estadual de Saúde

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