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Quarenta anos depois, Zé do Caixão volta às telas com ¿bíblia do terror latino-americano

SÃO PAULO ¿ ¿É difícil expressar quase meio século.¿ Foi assim que José Mojica Marins, o criador e intérprete do Zé Caixão, uma das figuras mais emblemáticas do terror e da cultura brasileiros, começou a apresentar, nesta segunda-feira (28), seu primeiro longa-metragem em mais de duas décadas. Quarenta e dois anos depois, o pioneiro do horror nacional lança no dia 08 de agosto em todo o país ¿Encarnação do Demônio¿, último capítulo da trilogia protagonizada pelo coveiro Josefel Zanatas, que volta às telas com apoio da Fox e orçamento milionário. De clássico ¿trash¿, a grife Zé do Caixão ganha roupagem com padrão de qualidade internacional.

Marco Tomazzoni |

Fim da trilogia / Divulgação

O epílogo, na vida real, é mesmo digno de filme. Na voz de Mojica, então, ganha ares de folclore e até cara de maldição. Segundo o diretor, depois de À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) ¿ primeiras aventuras do coveiro sádico e herege que almeja deixar sua herança através de filhos com sangue superior ¿, os censores do governo militar não deixaram passar mais nada com o personagem, tanto que o segundo filme só chegou aos cinemas com um final evangelizador imposto e O Despertar da Besta ¿ Ritual dos Sádicos permaneceu inédito por mais de 20 anos.

Mesmo com o roteiro de Encarnação pronto desde 1966, Mojica, acuado pela ditadura e sem recursos, ficou à mercê da boa vontade de produtores, mas os interessados pareciam sucumbir um atrás do outro. Um norte-americano em 1979, um espanhol em 1986 e o brasileiro Ivan Novais em 1998: todos se entusiasmaram pelo filme, mas morreram em seguida sem deixar esposa, herdeiros ou algo que possibilitasse a continuidade do projeto. Nesse meio tempo, com dificuldades financeiras, Mojica trabalhou com filmes pornográficos, comerciais e na televisão, sem conseguir concretizar seu canto do cisne. A página só foi virada em 2000, quando os jovens Paulo Sacramento e Dennison Ramalho, com a saúde em dia, procuraram o diretor e colocaram a produção finalmente em marcha, ao lado da Gullane Filmes.

Em entrevista exclusiva ao iG , Mojica, com 72 anos, contou que, no total, o roteiro da história passou por 15 versões, embora o cerne da história continuasse praticamente intocado. A principal modificação foi transferir a trama de uma vila do interior para São Paulo, buscando, assim, uma maior identificação com o público. Apesar disso, as características de cidade pequena foram mantidas, agora no novo refúgio do coveiro, em meio a uma favela da capital paulista.

Minha maior preocupação foi manter o mesmo personagem de 1963 a 66, a essência devia continuar a mesma, explicou Mojica. No novo filme, Zé do Caixão volta às ruas depois de passar 40 anos preso em um manicômio. O tempo trancafiado, no entanto, não aplaca em nada a fome de Zé por sanguinolência, nem a fixação por gerar um filho perfeito. Ele retorna muito mais violento, porque está em uma cidade violenta, e com a vaidade em polvorosa.

Envelhecido, personagem mantém as unhas como marca registrada / Divulgação

Amparado por um orçamento de R$ 1,8 milhão ¿ baixo para os padrões atuais, mas exponencial para alguém que filmou a vida inteira com fundos próprios ¿, Mojica disse ter ficado surpreso quando se viu cercado por dezenas de pessoas no set. Pensei na hora que era gente demais, não sabia onde ia botar mundo, lembrou, rindo. Fora isso, garantiu que o fato de ter ficado afastado 22 anos da direção de longas-metragens ¿ seu último trabalho havia sido o pornô 48 Horas de Sexo Alucinante, de 1986 ¿ não afetou em nada o cotidiano das filmagens. Pela primeira vez tive carta-branca para fazer tudo o que quisesse. Filmei em 35mm e fiz questão de não usar computador, usando só efeitos artesanais.

Cenas reais, sem efeitos / Divulgação

O resultado está no rosto dos atores, que reagem às torturas de Zé com pavor legítimo, como a policial que é mergulhada em um tonel com milhares de baratas, uma sugestão feita há tempos por Glauber Rocha, ou a atriz que tem um rato colocado em suas partes íntimas. A presença de voluntários com hábitos excêntricos também ajudou a conferir maior veracidade à história, como a garota que costurou os próprios lábios e a participação de um rapaz praticante de suspensão, ritual em que corpo fica suspenso através de ganchos presos às costas. Quando vi o rapaz pendurado me apavorei, achei que a pele ia rasgar e ia cair só o esqueleto. Mas não, na hora do almoço ele ficou lá brincando, balançando de um lado para outro.

A morte de Jece Valadão durante as filmagens, no final de 2006, teve um grande impacto para a equipe. Emocionado, Mojica disse que o ator estava consciente de sua saúde debilitada e já havia autorizado de antemão modificações da história caso não pudesse continuar. A partir disso, foi criado o personagem do ator Adriano Stuart como contraponto e refilmadas algumas cenas, inclusive o final.

Terror brasileiro e o devorador de olhos

O resultado agradou tanto a Mojica que hoje ele define Encarnação do Demônio, sem modéstia, como a bíblia do terror na América Latina. É a prova de que podemos fazer terror sem Drácula, Frankenstein, lobisomem e zumbi, que não vieram da gente, são importados de fora. Crio histórias a partir de alucinações, pesadelos e remorsos, que vêm da própria mente e todo mundo tem. Pesadelos, inclusive, são não só recursos narrativos, mas a chave da criatividade de Mojica: dependente de remédios para dormir, ele confessa ter suas melhores (ou piores?) idéias quando tem sono inquieto, tanto que o próprio Zé do Caixão foi criado a partir de um sonho tenebroso.

A consagração já veio logo na premiére do filme, no 1º Festival Paulínia de Cinema. O longa foi o grande vencedor da mostra, ao levar para casa oito prêmios, entre eles o da crítica. Durante a exibição, sentei no meio do público e ele reagiu como eu queria: riu na hora que tinha que rir, aplaudiu na hora certa e também saiu na hora que podia. O sucesso agora tem a chance de ser comprovado nos cinemas ¿ a estréia será realizada com cerca de 60 cópias nas principais capitais e a distribuição no exterior, onde Coffin Joe é objeto de culto, também tem distribuição garantida pela Fox, mas só no ano que vem.

Superprodução: uma das cenas contou com 3,8 mil litros de sangue falso / Divulgação

A continuidade da saga de Zé do Caixão não está descartada, e uma prova disso é o lançamento de Prontuário 666, história em quadrinhos que funciona como uma introdução ao novo filme. Apesar das inúmeras possibilidades, Mojica afirmou que o coveiro, no entanto, vai morrer com ele. A história pode continuar, mas com um filho ou um neto, não mais com o Zé do Caixão. É uma figura única. O povo não aceita outro, é como o Chaplin ou o Chacrinha. Já tentei mudar e não dá certo.

Talvez por causa disso, o próximo projeto de Mojica não tem nada relacionado ao maníaco de capa e cartola. Batizado de O Devorador de Olhos, conta a história de um milionário da Amazônia que, por causa de uma doença incomum, precisa consumir o líquido de olhos alheios para não perder os seus. É forte demais, ele chega a usar saca-rolhas para atacar as vítimas, disse o diretor, entusiasmado. Prova de que, se depender de Mojica, o terror voltou para ficar pé no cinema nacional.

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