MADRI ¿ Quando Gutenberg desenvolveu a imprensa no século XV, algumas vozes se ergueram contra os perigos de um instrumento técnico potencializar a democratização do conhecimento, uma suspeita que recai hoje sobre a internet.

"Jamais se viram tais desmandos entre os estudantes e tudo isso é devido às malditas invenções modernas que põem tudo a perder, principalmente a imprensa. Já não se fazem livros nem manuscritos, a imprensa afunda a livraria. Isto é o fim do mundo", dizia um dos personagens de Victor Hugo em "Nossa Senhora de Paris" (1831).

A sensação de ameaça pela mudança não é nova e os argumentos de então não são muito diferentes dos que existem atualmente contra o rumo incerto que as novas tecnologias da informação reservam às indústrias editorial, da comunicação e do entretenimento.

Em 1477, Hieronimo Squarciafico disse que "a abundância de livros torna os homens menos estudiosos". Em 2008, a Universidade de Columbia (EUA) publicava em sua revista "Journalism Review" um artigo intitulado "Sobrecarga! A batalha do jornalismo pela relevância em uma época de muita informação" e assegurava que a abundância de recursos cria insatisfação e passividade.

José Manuel Trabado Cabado, da Universidade de León, afirma em um estudo que o sistema de hipertextos - os links da web - "ameaça com não nos deixar retornar nunca, nos prometendo maravilhas aqui e ali e tesouros camuflados em selvas grandes demais para os mapas do homem".

Nessa busca na chamada "Sociedade do Conhecimento", muitos usuários da web, no entanto, se perdem e acabam sendo considerados viciados em internet. Mas esta gula dos internautas também tem seu paralelismo.

"A curiosidade de Bêncio é insaciável, é orgulho do intelecto, um meio como qualquer dos outros que um monge dispõe para transformar e acalmar os desejos de sua carne", escreve Umberto Eco em "O nome da rosa" (1980), romance no qual traçava uma intriga medieval ao redor da gestão censora do conhecimento por parte de monges italianos.

O argumento de que o leitor - assim como o internauta - não pode enfrentar a infinidade de temas sem um critério de busca ou sem orientação moral é algo que a democratização do livro e a expansão da internet dividem.

No entanto, hoje ninguém suspeita de uma imensa biblioteca e ninguém discute o papel cultural fundamental do livro. Será que o mesmo vai ocorrer no presumível caso de que todas as obras editadas passem a ficar disponíveis na web? De acordo com a perspectiva empresarial, o advento da imprensa também tornava ultrapassado o ofício dos escribas, cuja tarefa de anos ficava automatizada pelos tipos móveis de Gutenberg. Hoje, jornalistas, gravadoras e editoras se consideram ameaçados de forma análoga.

Como aparece em "O nome da rosa", os intermediários também tinham um papel fundamental na religião, uma das principais afetadas pela nova invenção, já que as Sagradas Escrituras passaram a estar ao alcance de muito mais gente.

Não é a toa que a Bíblia impressa por Gutenberg iniciou "a idade da imprensa". À época, muitos consideraram a novidade como uma invenção protestante, mas não demorou que o papa passasse a utilizá-la como instrumento de difusão da fé católica.

"Antes da imprensa, a Reforma não teria sido mais que um cisma, mas a imprensa a transforma em revolução. Fatal ou providencial, Gutenberg é o precursor de Lutero", escreve Victor Hugo também em "Nossa Senhora de Paris".

Mas o próprio autor de "Os miseráveis" refletiu sobre como a democratização do livro levou pela frente uma vítima colateral: a arquitetura.

"A arquitetura representou a escritura do gênero humano. E isto é tão correto que, não só qualquer pensamento religioso, mas qualquer pensamento humano, têm neste imenso livro sua página e seu monumento".

"O pensamento humano descobre um meio de se perpetuar não só mais durável e mais resistente do que a arquitetura, mas também mais fácil e mais simples. A arquitetura fica destronada. Às letras de pedra de Orfeu, irão suceder as letras de chumbo de Gutenberg", refletiu então Victor Hugo.

(Reportagem de Mateo Sancho Cardiel)

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