Quando o bebê chega através do congelamento de óvulos

Quando o bebê chega através do congelamento de óvulos Por Fabiana Caso São Paulo, 30 (AE) - O futuro chegou. Hoje, as mulheres contam com um recurso a mais para preservarem sua fertilidade: o congelamento - ou vitrificação - de óvulos.

Agência Estado |

Essa técnica vinha sendo usada há décadas para conservar o sêmen e os embriões, mas apresentava resistência no caso de óvulos. Foi a partir da segunda metade da década de 1990 que começaram a haver avanços também nessa frente.

Um recente estudo da Universidade McGill de Montreal, Canadá, publicado na revista Reproductive Biomedicine, constatou que o índice de defeitos de nascença entre crianças geradas a partir de óvulos vitrificados, de 2,5%, é comparável ao que se registra em nascimentos naturais.

De acordo com estudos internacionais, estima-se que haja cerca de 400 bebês nascidos de óvulos congelados no mundo. Diversas clínicas de reprodução assistida da capital paulista já empregam o método. Trata-se de uma revolução para as mulheres. Em primeiro lugar, é uma saída para aquelas que, por algum motivo, precisam retirar o ovário ou ser submetidas a quimioterapia ou radioterapia - tratamentos que podem afetar a capacidade reprodutiva.

Em termos comportamentais, o procedimento ajuda as mulheres que querem adiar a gravidez - situação cada vez mais comum. Recomenda-se coletar os óvulos até uma média de 35 anos, pois, a partir dessa idade, a produção cai drasticamente, assim como a qualidade dos óvulos. "O ideal é colher o óvulo até os 30 anos, com o limite de 35 anos", aconselha o presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), Dirceu Mendes Pereira, especialista em medicina reprodutiva. Há quem estipule o limite em 39 anos, mas, quando possível, o melhor mesmo é coletar os óvulos o quanto antes. O auge da vida reprodutiva é realmente até os 30 anos.

O custo médio da vitrificação dos óvulos é semelhante ao da fertilização in vitro. Segundo Dirceu, varia de R$ 12 mil a R$ 20 mil. A taxa para a manutenção dos óvulos vitrificados gira em torno de R$ 500,00 a R$ 1.000,00, e os pagamentos são periódicos, segundo critérios de cada clínica. "É como se fosse um seguro da fertilidade", brinca o presidente da SBRH.

O setor de Reprodução Humana do Hospital São Paulo, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), realiza tratamentos para infertilidade com custos reduzidos: os pacientes pagam apenas pelos medicamentos - que não são nada baratos. Há dois anos, começaram a aplicar a técnica de vitrificação de óvulos. O coordenador do setor e especialista em reprodução humana, Renato Fraietta, explica que as principais beneficiadas são as pacientes de câncer, que têm prioridade no atendimento e ficam isentas da taxa de manutenção do congelamento. "A quimioterapia pode alterar os ciclos reprodutivos para sempre, mesmo em mulheres jovens que se curam", explica o médico. "Congelando os óvulos, a mulher garante seu potencial fértil e sua independência."

RELIGIÃO
A técnica também ajuda casais que desejam ter filhos, mas que apresentam problemas de fertilidade - principalmente aqueles com restrições quanto ao congelamento de embriões, por questões religiosas. Nos tratamentos de reprodução assistida, nem sempre a gravidez acontece na primeira tentativa. Antes de haver a possibilidade de se congelar óvulos, o que ocorria era o congelamento de embriões, para garantir a possibilidade de novas tentativas.

Com o congelamento de óvulos, pode-se fazer a fertilização in vitro de um ou dois óvulos por vez, sem a necessidade de congelar embriões, ou de inseminar uma série para garantir que algum vingue. "Isso ajuda a reduzir os casos de gravidez múltipla", constata o ginecologista e especialista em reprodução humana, Raul Nakano, que é diretor da Ferticlin, clínica de reprodução onde foi gerado um dos primeiros bebês brasileiros a partir de um óvulo vitrificado. "Também acaba com os problemas filosóficos, éticos e religiosos acerca do congelamento de embriões. Óvulos são apenas células e o seu descarte não causa polêmica." Além de tudo, há questões legais: o embrião congelado pertence ao casal, o que pode gerar problemas em casos de separação.

Assim como na fertilização in vitro, a mulher que recorre à técnica do congelamento toma medicamentos para estimular a ovulação por alguns dias. Depois, os óvulos são aspirados a partir de uma punção, realizada com anestesia. "Hoje acreditamos que não há diferença entre um óvulo congelado e um fresco. A qualidade é a mesma", diz Raul. "Outra vantagem é que esta técnica permite a criação de bancos de óvulos, assim como já existem os de sêmen. Há pacientes que concordam em doar óvulos para as mulheres que não os produzem." Como se trata de uma técnica nova, ainda não há estudos sobre quanto tempo os óvulos podem ficar congelados. Mas o diretor da Ferticlin acredita que resistam por décadas. "Aconselhamos guardá-los por até dez anos."

Na clínica Huntington, em São Paulo, o congelamento de óvulos também é muito usado: estima-se que haja 15 bebês nascidos e cerca de 150 casos de pacientes com óvulos vitrificados. A mais velha que engravidou por esse método tem 38 anos. "A experiência internacional e a da nossa clínica têm mostrado que se trata de uma técnica segura", diz um dos diretores da Huntington, o ginecologista e especialista em reprodução humana Eduardo Motta, que também é co-responsável pelo Serviço de Reprodução Humana do Hospital e Maternidade Santa Joana, também na capital paulista. "A única ressalva é que não temos ainda informações sobre essas crianças depois dos 5 anos. É algo recente, ainda estamos aprendendo."

ADEPTAS DO MÉTODO
A coordenadora de pesquisa de mercado Emi Tahara, de 36 anos, é uma das primeiras mães brasileiras de um bebê nascido a partir de um óvulo congelado. Como tantas mulheres hoje, ela postergou a gravidez para se dedicar à carreira. Mas sempre sonhou com a maternidade. Casada há 8 anos, foi aos 34 anos que decidiu que estava na hora de ter o seu bebê. Depois de tentativas frustradas, fez exames e descobriu que tinha endometriose. Começou a se consultar em clínicas de reprodução assistida e viu que, realmente, a chance de uma gravidez natural era remota: além da endometriose, apresentava uma obstrução nas trompas uterinas. Então, aos 35 anos, optou pela fertilização in vitro.

Na clínica Ferticlin, ficou sabendo da técnica de vitrificação dos óvulos. "O médico me explicou que eu deveria produzir muitos óvulos para a fertilização in vitro, mas que nem sempre se engravida de primeira." Emi produziu 12 óvulos. Como só precisou usar a metade, decidiu congelar o excedente para possíveis tentativas futuras. "Em primeiro lugar, essa escolha foi por uma questão religiosa. Tinha dilemas quanto a congelar embriões, não saberia o que fazer depois. Acho que depois da fecundação já é uma vida: sou contra o descarte e a doação para estudos científicos", fala. "O doutor Raul falou que se tratava (a vitrificação) de uma técnica nova, mas eu e meu marido concordamos."

Realmente, Emi não engravidou na primeira tentativa. E recorreu à reserva da vitrificação: foram usados dois óvulos congelados. Na segunda vez, deu certo. Um dos óvulos fertilizados gerou o filho Thomas Henrique, que nasceu saudável, com 3 quilos e 600 gramas, 51 cm e 8-9 no índice de Apgar (que mede a saúde do recém-nascido por meio de diversos fatores). Hoje o pequeno tem 9 meses. Emi conta que indicou o método do congelamento para várias amigas que se dedicam à carreira, mas que querem ser mães. "Desejo ter outros filhos", conta. "A gravidez solucionou a endometriose. Mas se tiver qualquer problema, vou recorrer novamente ao congelamento."

O caso da assistente de direção de cinema, Marcela Daúde, é um pouco diferente. Paulistana, de 36 anos, ela foi passar uma temporada na Europa depois que acabou a universidade. Quando voltou ao Brasil, embarcou em rotinas de trabalho frenéticas, que persistem até hoje, acarretando viagens e horários fora do convencional. No entanto, sempre quis constituir uma família. Há pouco mais de um ano, começou a ficar apreensiva quando ouviu histórias sobre menopausa precoce e problemas de infertilidade. Decidiu que congelaria óvulos para manter sua fertilidade até encontrar a pessoa certa para compartilhar desse sonho. "Vou até fazer de novo, porque, por enquanto, só tenho 10 óvulos. Quero mais 6", conta Marcela, que recorreu à clínica Huntington.

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