Quando a adolescência chega mais cedo

Quando a adolescência chega mais cedo Por Ciça Vallerio São Paulo, 06 (AE) - A idade da primeira menstruação, conhecida por menarca, está caindo. Nos anos 70, meninas iniciavam o ciclo menstrual entre 13 e 15 anos.

Agência Estado |

Hoje, dificilmente passam dos 12 anos. "A tendência é de que diminua mais ainda", avisa o médico José Maria Soares Júnior, coordenador do Ambulatório de Ginecologia da Criança e Adolescente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Essa antecipação do ciclo menstrual decorre de uma puberdade precoce, com o aparecimento de caracteres sexuais secundários antes dos 8 anos. Ou seja, as mamas começam a despontar e a crescer, o que é seguido pelo aparecimento de pelos pubianos e axilares, em um corpo ainda de criança.

Levando-se em consideração que a menarca ocorre geralmente dois anos após o início da puberdade precoce, uma menina pode menstruar aos 10 anos. Especialistas alertam para o aumento desses casos nas últimas décadas. "Apesar da prevalência na população brasileira não estar bem definida, em países desenvolvidos calcula-se que a incidência passou de 0,5 a 0,8 para 2,0 a 2,3 em mil meninas na faixa etária abaixo dos 8 anos de idade", diz José Maria.

Segundo estimativas, a puberdade precoce é de 2 a 5 vezes mais comum em meninas do que em meninos. E quando os pais se deparam com as mudanças físicas prematuras da filha, assustam-se. "O principal problema é que, ao menstruar, a maturação dos ossos é acelerada e, consequentemente, a menina cresce menos", explica a ginecologista Felisbela Soares de Holanda, que fez desse tema sua tese de mestrado e, hoje, cuida de casos relacionados à puberdade precoce no ambulatório da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Após a menarca, o crescimento da criança é, em média, de 6 centímetros, dependendo dos fatores genéticos. Mas poderia ser mais, se a menstruação tivesse chegado no momento certo. Segundo os médicos Felisbela e José Maria, não existe uma causa única para a puberdade precoce, mas sim um conjunto de fatores: genética, alimentação inadequada, sedentarismo e o excesso de peso e de estímulos da vida urbana - como internet, programas de TV que estimulam a sexualidade, menos horas de sono, maior cobrança da escola e da família.

"Falar que o uso de batom, saltos e roupas sensuais entre crianças estimula a puberdade precoce é lenda urbana", ressalta o ginecologista da Unifesp, José Maria. Porém, o médico explica que a antecipação do desenvolvimento da mama e dos pelos pubianos pode tornar a menina mais vulnerável a abuso sexual e a gravidez precoce. "Ao desenvolver o corpo prematuramente, a menina exerce maior atração sexual. Mas, por ser criança ainda, não saberá se defender de alguma investida, muito menos prevenir-se de uma gestação. Sabe-se que 25% dos partos no Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde, são de adolescentes. Desses, 15% referem-se a meninas com idades entre 10 e 14 anos".

DANOS PSICOLÓGICOS
Existem questões sociais e familiares relevantes, que devem ser levadas em consideração. Por causa da puberdade precoce, a menina vivencia antecipadamente os tradicionais conflitos da adolescência, mas com uma mentalidade infantil. Angustia-se também de não saber exatamente o que está acontecendo com o seu corpo e não entende o seu suposto reposicionamento na família e nas relações sociais.

É o que observa a psicóloga Lúcia Helena Laprano Vieira, responsável pelo acompanhamento das pacientes do Ambulatório de Ginecologia da Criança e Adolescente da Unifesp: "Em vez de receber apoio da família, a garota acaba vivendo, muitas vezes, uma pressão, ao perceber a preocupação dos pais, que deveriam passar tranquilidade à filha, em vez de deixá-la ainda mais angustiada. "

Por isso, além de atender essas meninas, em breve o ambulatório da Unifesp vai iniciar o acompanhamento psicológico das mães. Outro fator de pressão vivido pela garota, segundo Lúcia Helena, é a discriminação. Por ser diferente das amigas, ela pode acabar sendo excluída do grupo. Aquelas que se desenvolvem precocemente tendem a se tornar mais retraídas.

"Entre a infância e a adolescência, há uma passagem, que ajuda a enfrentar melhor esse período de crise causado por diversas mudanças", afirma a psicóloga. "Imagine quando esse processo é antecipado!"

O tratamento para puberdade precoce, de acordo com a ginecologista Felisbela, é interromper a produção dos hormônios sexuais que surgem antes da idade considerada adequada. A menina recebe doses mensais de um medicamento injetável, sob acompanhamento médico, por um período que pode durar de dois a três anos, dependendo do caso.

"É muito importante que os pais fiquem atentos aos primeiros sinais (da puberdade precoce) e procurem um médico antes de surgir a primeira menstruação, para evitar que o crescimento da criança seja afetado", ressalta a médica. "E também para afastar os problemas sociais aos quais a menina fica exposta."

PEGA DE SURPRESA
Com encaminhamento rápido ao médico e tratamento adequado, Caroline, hoje com 11 anos, não sofreu nenhum tipo de preconceito na escola. Sua mãe, a assistente financeira Rosângela, de 48 anos, não perdeu tempo e foi conversar sobre a puberdade precoce de sua filha com a coordenadora e professora da escola de Caroline.

Em vez de esconder o fato, Rosângela preferiu falar sobre o assunto com as pessoas que faziam comentários do tipo: "ela é bem desenvolvida para a idade..." "Não negamos, mas também não saímos anunciando para todo mundo", ressalva a mãe, que preferiu não divulgar o sobrenome.

Quando Rosângela notou que os pelos pubianos e os seios começaram a despontar na filha, que na época tinha 5 anos, levou um susto. Buscou ajuda de um pediatra, que a encaminhou para um endocrinologista, com o qual iniciaria um tratamento específico.

Como o tal tratamento ficaria caro, Rosângela acabou optando pelo atendimento gratuito na Unifesp. Depois de bem orientadas, mãe e filha ficaram tranquilas com relação ao problema. Como as providências foram tomadas no momento certo, o crescimento de Caroline não foi prejudicado. Agora, a garota já se prepara para o fim do tratamento e a chegada da primeira menstruação - e o melhor: no tempo certo.

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