BRASÍLIA - O governador de Roraima, José de Anchieta Júnior, disse nesta segunda-feira que qualquer decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol vai gerar conflitos na região. Ao dar a declaração, ele eximiu o Estado de responsabilidade pela segurança na região, alegando que, devido à jurisdição federal, cabe ao Ministério da Justiça e à Polícia Federal a manutenção da paz no local. Hoje o clima é tenso. Seja qual for o resultado, deve ter conflito. O nível de acirramento está muito grande, disse.

Questionado se, numa decisão favorável à demarcação contínua, os arrozeiros seriam os responsáveis por iniciar os conflitos, Anchieta disse que não. De acordo com ele, nem mesmo os índios concordam com tal possibilidade. "Seriam índios contra índios. Lá não é uma luta de arrozeiros contra índios, é algo muito mais complexo", alegou.

Apesar de destacar que a segurança do local é de responsabilidade do governo Federal, Anchieta disse que o Estado vai disponibilizar, caso seja solicitado, equipes para acompanhar os conflitos iminentes. "O governo [estadual] vai estar pronto com saúde, médicos, paramédicos, helicóptero e ambulâncias", afirmou.

Durante entrevista coletiva, em Brasília, o governador insinuou que a decisão do presidente Lula, em 2005, de assinar a demarcação das terras indígenas é a responsável pelos conflitos pretéritos e iminentes. "Lula foi mal influenciado por sua assessoria".

Agência Brasil
raposa serra do sol

Índios comemoram voto do relator, ministro Ayres Britto, no dia 27 de agosto

O governador comentou que o presidente não era favorável à demarcação continua mas, após "voltar de viagem do enterro do Papa", ele mudou de idéia. "Não se sabe que tipo de pressão Lula sofreu na Itália, mas no dia seguinte ele assinou a demarcação".

Anchieta ainda voltou a dizer que a demarcação existe devido a "interesses internacionais escusos", supostamente motivados pelas reservas minerais. "O índio não fez prospecção, compare os mapas de demarcação e de reservas minerais que vai perceber que são quase os mesmos", disse.

Por fim, o governador alegou que a maior parte da população de Roraima é contrária à demarcação contínua das terras e defendeu a demarcação em ilhas para abrigar as populações indígenas.

O julgamento da Raposa Serra do Sol no STF está previsto para a próxima quarta-feira. O relator do processo, ministro Carlos Ayres Britto, já apresentou parecer em que defendeu a retirada de todos os não-índios da área e a demarcação contínua das terras. O julgamento ainda não foi concluído porque o ministro Carlos Alberto Direito pediu vistas do processo

Aguardando julgamento

Um dos pontos com maior potencial de problemas em Raposa é a região da Comunidade do Barro, onde está uma das principais entradas da reserva e uma vila conhecida como Surumu. A entrada da vila é atualmente monitorada por policiais da Força Nacional e da Polícia Federal, que ficam permanentemente no local.

Na vila moram índios a favor e contra a demarcação de terras contínuas. Os índios que são contra estão organizados em torno da Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte Roraima (Sodiur) e apóiam - e muitas vezes trabalham - com os arrozeiros.

A expectativa é que os dois grupos, além de não-índios ligados aos dois lados, se reúnam em Surumu para acompanhar a votação no Supremo. Eles devem repetir o que se viu no dia 27 de agosto, quando ocorreu o início da votação no STF sobre o assunto, adiada após a leitura do voto do ministro Carlos Ayres Britto, a favor da demarcação contínua. Na ocasião, os dois grupos fizeram provocações e ameaçaram entrar em confronto. A presença da polícia impediu a escalada da tensão.

*(Com informações da BBC Brasil)

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