SÃO PAULO - Marta Suplicy e o PT saíram da eleição paulistana menor do que entraram. A ex-prefeita teve 39,3% dos votos válidos no segundo turno, um percentual menor que os 45,1% obtidos por ela em 2004, quando perdeu a prefeitura para o hoje governador José Serra (PSDB), e que os 58,5% conquistados por ela em 2000, quando derrotou Paulo Maluf.

Foi o pior resultado do PT em São Paulo desde o pleito de 1996, quando Luiza Erundina teve 37,7% dos votos válidos, batida por Celso Pitta.

O fraco desempenho eleitoral pode complicar as pretensões políticas da ex-prefeita para 2010. A derrota por mais 20 pontos percentuais deverá fazer com que Marta tenha dificuldades para disputar o governo daqui a dois anos, além de tornar mais remota uma eventual candidatura à Presidência - hoje, o nome favorito dentro do PT é a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que conta com a preferência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Além da piora no desempenho eleitoral, Marta enfrentou na eleição um problema inédito em sua carreira. No primeiro dia da propaganda política do segundo turno, um comercial de sua campanha fazia algumas perguntas sobre o prefeito Gilberto Kassab (DEM), entre elas se o candidato era casado e tinha filhos. A inserção foi vista como uma insinuação de que Kassab seria homossexual. Marta, que sempre se disse vítima de preconceito, foi criticada por fazer uma propaganda considerada preconceituosa. A ex-prefeita negou que a intenção do comercial fosse essa, mas o estrago estava feito. A polêmica se arrastou por vários dias, colocando a candidata na defensiva num momento em que ela aparecia bem atrás de Kassab nas pesquisas.

A ex-prefeita saiu do Ministério do Turismo para uma eleição arriscada, dada a sua elevada taxa de rejeição. No entanto, o racha entre DEM e PSDB, provocado pela decisão do ex-governador Geraldo Alckmin em concorrer, animou Marta a entrar na disputa. Além disso, a ex-prefeita era o único nome do PT com viabilidade eleitoral.

Com o apoio do eleitorado mais pobre, Marta liderou liderou as pesquisas de intenção de voto durante a maior parte do primeiro turno, chegando a aparecer nas enquetes com mais de 40%. No fim da primeira etapa, porém, a sua candidatura perdeu fôlego, obtendo 32,79% dos votos válidos, atrás de Kassab, que ficou com 33,61%.

Na campanha, Marta destacou o apoio de Lula e repisou o fato de ter sido a criadora do Bilhete Único e dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), que teriam piorado na gestão de Kassab. Entre as novas propostas, insistiu no acesso gratuito à internet para toda a cidade. No entanto, enfrentando um prefeito com popularidade elevada, com quase 60% de aprovação, Marta não conseguiu obter o apoio de um eleitorado mais amplo.

Passava pouco das 19 horas quando Marta reconheceu a derrota, num breve pronunciamento em frente à sua casa, no Jardim Europa. " Eu acabei de telefonar ao prefeito Kassab para parabenizá-lo. Quero agora agradecer aos milhões de eleitores que tiveram a confiança e votaram na gente. Ao mesmo tempo, quero agradecer à militância do PT que foi muito aguerrida, aos sindicatos que nos apoiaram, aos partidos aliados que também compareceram às ruas e deram muita força " , disse a petista, acrescentando que " cabe ao povo de São Paulo fiscalizar e cobrar os compromissos assumidos pelo novo prefeito. Da minha parte, eu desejo o melhor para a nossa cidade. "
Marta iniciou o domingo no Sindicato dos Engenheiros, no centro de São Paulo. Chegou, sozinha, por volta das 9h15. Concedeu logo uma entrevista coletiva e distribuiu agradecimentos aos colaboradores da campanha.

Marta afirmou que andou muito pela cidade nos últimos meses de campanha e que ficou impressionada com algumas coisas boas, mas chocada com diversas situações. " Pude ver que muitos lugares continuam com extrema pobreza, e alguns deles nasceram porque não existiam há quatro anos. "
No encerramento de seu discurso matutino, Marta reiterou que chegava ao último dia de campanha com muita animação, porque o PT apresentou uma boa proposta aos paulistanos.

" Tivemos nossos correligionários na rua, a militância do PT que existe, apesar de dizerem o contrário, e está muita forte. Com a militância do PT e a insistência na nossa capacidade de fazer a gestão dessa cidade de uma forma muito diferente do opositor, podemos dar uma bela virada nas urnas " , ainda acreditava.

Do Sindicato dos Engenheiros a candidata foi para o colégio Madre Alix, no Jardim Paulistano, zona nobre da capital, onde chegou por volta das 10 horas para votar. Depois foi para casa aguardar os resultados da eleição.

Aos jornalistas que acompanhavam ontem seus primeiros passos, Marta procurava transmitir segurança. Não era ainda o momento, segundo ela, para avaliações sobre a sua campanha ou sobre seu adversário na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Ela reclamou das penas aplicadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para coibir os ataques pessoais entre candidatos.

" Notei que nós sempre fomos penalizados, e ele [Gilberto Kassab] raramente. Achei que, durante a campanha, a minha imagem foi sempre desqualificada e nada foi feito. [Kassab] sempre passava por rapaz bonzinho porque isso não saía da boca dele. Foi uma campanha desqualificadora da minha imagem o tempo inteiro " . Ao falar da campanha para o segundo turno, Marta admitiu que o tom subiu, mas afirmou que não foi ela quem fez isso primeiro. " O que ocorre é que no fim de uma campanha, os últimos 15 dias são muito acirrados mesmo " .

Em frente à casa de Marta, pouco antes de a ex-prefeita reconhecer a derrota, o deputado federal e candidato a vice-prefeito, Aldo Rebelo (PCdoB), disse que Marta foi vítima de preconceito. " Houve um tom discriminatório em relação à Marta " , afirmou ele, para quem a petista é vítima de ataques por ser uma " mulher independente com um papel importante na vida política da maior cidade do país " .

O deputado federal Jilmar Tatto (PT) também disse que Marta sofreu preconceito, rechaçando a idéia de que a campanha da ex-prefeita tenha sido preconceituosa em relação a Kassab. Segundo ele, a história de Marta não possibilita esse tipo de interpretação. Ele também apontou o uso da máquina pública da prefeitura e do Estado na campanha, afirmando que houve " uma frente das elites " contra a candidatura de Marta.

(Sergio Lamucci e Zínia Baeta | Valor Econômico)

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