PSOL fará representação, mas Sarney segue firme no cargo por ora

Por Carmen Munari e Natuza Nery BRASÍLIA/SÃO PAULO (Reuters) - Em mais uma etapa da série de escândalos políticos que se abateu sobre o Senado, o PSOL decidiu nesta quinta-feira que vai entrar com uma representação contra o atual presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), por quebra de decoro parlamentar.

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Apesar da pressão crescente sobre Sarney, senadores e analista acreditam que ele ainda tem bala na agulha para se sustentar, desde que mande investigar as denúncias, institua medidas moralizadoras e se alie a outros partidos para compartilhar o comando.

O PSOL também irá representar contra Renan Calheiros (PMDB-AL) e Garibaldi Alves (PMDB-RN), ambos ex-presidentes recentes da instituição. Na gestão dos três foi apontada a prática de utilização de atos secretos, usados para nomeações e reajustes salariais sem conhecimento público.

O escândalo dos atos secretos tem desgastado a imagem de Sarney e do próprio Senado, e tem ganhado fôlego a cada dia com novas denúncias.

Além de investigar os três parlamentares no Conselho de Ética --o que poderia resultar em cassação de mandatos se confirmada responsabilidade--, o PSOL está recolhendo assinaturas de apoio a uma CPI para apurar os fatos.

"Apenas uma CPI, que tem poder para quebrar sigilo, convocar e investigar de verdade, pode conseguir apurar esse esquema", disse a jornalistas presidente nacional do PSOL e ex-senadora, Heloísa Helena.

A saída espontânea de Sarney, no entanto, ainda é considerada improvável por colegas.

"Quem acha que o Sarney perdeu fôlego, está enganado", disse um senador da oposição em condição de anonimato.

Ao longo da semana, diversos senadores pediram o afastamento de Sarney, entre eles o líder do PSDB na Casa, Arthur Virgílio (PSDB-AM). Pedro Simon (PMDB-RS) disse que fará um discurso no plenário nesta tarde pedindo que Sarney se afaste do cargo.

SEM AMEAÇA ORGANIZADA

Para Carlos Ranulfo, cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não há uma ameaça explícita pela demissão de Sarney por parte de senadores. "O movimento pela saída do Sarney não é forte", disse à Reuters.

O professor julga que, além de mandar investigar as denúncias, ele já está se aliando a outros partidos, como o Democratas.

O PMDB de Sarney e o DEM do senador Heráclito Fortes (PI), que ocupa a primeira secretaria e comandou a comissão de apuração dos atos secretos, resumiriam o comando do Senado pelos dois partidos que estiveram à frente da Casa nos últimos anos, acredita.

"Condições ele (Sarney) tem, tem bala na agulha. Ele sabe que está em jogo o cargo dele e vai fazer o que for necessário", afirmou.

Ranulfo vê, no entanto, uma brecha que pode ser fatal: uma denúncia grave que comprometa diretamente o presidente da Casa. Acusações de apadrinhamento de familiares seriam questões do passado, de difícil alcance atualmente.

"O processo tem coisas não reveladas, não se sabe o que sairá amanhã. Que tipo de bomba pode vir", afirmou.

O professor também não acredita que os senadores estejam por trás de todas as medidas administrativas ocultas tomadas pela Casa. Até agora, segundo comissão do Senado, foram realizados 663 atos considerados secretos.

"Não precisa ter um senador por trás. A burocracia cria asas. O que aconteceu é que os senadores deram poder a uma casta e agora pagam o preço", disse.

Desde que Sarney assumiu o posto, em fevereiro, surgiram denúncias envolvendo casos como o pagamento de horas extras a servidores durante o recesso parlamentar em janeiro e contas bancárias paralelas à oficial, o que impede seu monitoramento.

Sobre Sarney pesam ter recebido auxílio-moradia apesar de ter casa em Brasília e empregado familiares.

Nesta quinta, reportagem do jornal O Estado de S.Paulo afirma que um neto de José Sarney agenciava crédito consignado para funcionários do Senado. José Adriano Cordeiro Sarney negou que atuasse com ajuda de seu avô. Suspeitas de corrupção em operações com crédito consignado levaram a Polícia Federal a iniciar uma investigação.

Sarney já ocupou o comando do Senado por outras duas vezes, de 1995 a 1997 e de 2003 a 2005.

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