Psicóticos que moram com a família procuram ajuda mais rápido

Psicóticos que moram com a família procuram ajuda mais rápido Por Beatriz Flausino Morar com a família faz com que os psicóticos procurem ajuda mais rápido. Essa é uma das conclusões de um estudo de mestrado da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP)- Período de psicose sem tratamento (PPST) em indivíduos com psicoses funcionais (casos incidentes) na Cidade de São Paulo, desenvolvido pela terapeuta ocupacional, Alexandra Martini de Oliveira.

Agência Estado |

A pesquisa mostrou que o tempo médio que um paciente desse tipo leva para entrar em contato com o serviço de saúde são 4,1 semanas a partir dos primeiros sintomas psicóticos.

Os dados para a pesquisa foram retirados do "Estudo de casos incidentes (primeiro contato com serviços de saúde) de psicoses funcionais no Brasil", coordenado na FMUSP pelo professor Paulo Rossi Menezes. Esse estudo fez uma análise epidemiológica e investigou a incidência das psicoses funcionais em São Paulo e os fatores de risco para o desenvolvimento das psicoses.

O que caracteriza o transtorno psicótico são os delírios (pensamentos que não condizem com a realidade, como medo de perseguição) e alucinações (ouvir vozes, ver objetos e coisas inexistentes). O psicótico pode apresentar, também, desorganização no pensamento e na fala.

Quanto mais tempo demora o diagnóstico e tratamento da psicose, maior a chance de o paciente ter uma evolução ruim da doença (resistência a medicação, sintomas psicóticos mais graves). Alexandra explica que, de acordo com alguns estudos "a psicose é ‘neurotóxica’, pois ela causa alterações químicas que acabam matando neurônios e a pessoa com psicose, que fica muito tempo sem tratamento, pode tornar-se mais resistente ao tratamento medicamentoso".

Alexandra observou que "as pessoas que demoram mais para entrar em contato com serviços de saúde, geralmente não moram com a família, têm declínio do funcionamento social, que é o mesmo que dizer que saem menos de casa, deixam de ir a reuniões familiares, a festas, a igreja."

O estudo envolveu 200 pacientes. Destes, 105 (52%) eram mulheres. A média de idade foi de 32,3 anos, e 165 (82,5%) moravam com familiares. Outros 148 participantes (74%) haviam feito o primeiro contato em serviços de emergência, enquanto 122 (61,0%) apresentaram diagnóstico de psicose não-afetiva e 78 (39%) de psicose afetiva. Entre os envolvidos, 106 (53,%) apresentaram funcionamento social "muito bom ou bom". Os participantes que não trabalhavam demoraram duas vezes mais para procurar serviços de saúde do que os que tinham ocupação.

TRANSTORNOS AFETIVOS
A psicose pode ou não estar associada a sintomas afetivos (relacionados às alterações patológicas do humor), quando não associada a psicose é nomeada não-afetiva. Os transtornos psicóticos afetivos incluem, além dos sintomas psicóticos, transtorno bipolar e depressão.

Os pacientes com transtornos psicóticos não-afetivos demoraram quase duas vezes mais a procurar ajuda médica do que os pacientes com transtornos psicóticos afetivos. Alexandra acredita que isso tem relação com o fato de os transtornos afetivos terem um início mais abrupto e serem mais facilmente identificáveis.

Em relação aos homens, as mulheres tiveram menos anos de escolaridade e menor renda. Entre as mulheres também foi mais frequente o diagnóstico de transtorno psicótico afetivo, além de terem melhor funcionamento social e melhores níveis de percepção sobre a própria doença, quando comparadas com os homens.

O período de psicose sem tratamento não se mostrou associado, nesse estudo, estatisticamente à idade, gênero, escolaridade, situação conjugal, condição econômica e religião. A pesquisadora considera que isso pode estar relacionado ao fato de que a amostragem do estudo ainda é pequena. "Talvez num estudo mais amplo, nós conseguíssemos perceber melhor em que essas características influenciam", explica.

Conclusões de outros estudos internacionais sobre o mesmo assunto se confirmaram na pesquisa de Alexandra. Os participantes com transtornos psicóticos não-afetivos apresentaram pior funcionamento social, maior gravidade dos sintomas e pior percepção sobre a própria doença.

A pesquisadora considera que seu estudo mostrou quanto o papel da família no diagnóstico e procura de tratamento é importante para pacientes com transtornos psicóticos. Ela afirma que é importante perceber mudanças de comportamento nos familiares e encará-las sem preconceito.

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