Vasco Furtado criou o Wikicrimes, ferramenta que permite compartilhar informações sobre delitos

Em 2009, 14,9% das mortes de homens no Brasil estavam relacionadas a causas violentas , incluindo assassinatos. Índice este que já atingiu o pico de 16,2% em 2002, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última sexta-feira. Visando prevenir assassinatos e outros tipos de crimes, o professor da Universidade de Fortaleza Vasco Furtado criou o Wikicrimes ( acesse aqui ), uma mapa online em que os usuários podem compartilhar informações sobre roubos, furtos e afins.

O internauta descreve do que foi vítima e em qual local e, com base nessas informações, a ferramenta aponta as áreas mais perigosas da região selecionada. É possível realizar buscas por local, tipo de crime e horário.

Com extenso currículo acadêmico, que inclui doutorado em Inteligência Artificial na Université d'Aix Marseille III, na França, e pós doutorado na Universidade de Stanford, nos EUA, Furtado diz que o projeto surgiu no final de 2007 quando voltou de um período de estudos no exterior. “Estava nos EUA e vivi o contexto de web 2.0 muito forte lá. Pensei que poderíamos trazer as ideias para resolver um problema impactante no contexto da segurança pública no Brasil: baixa transparência no trato de dados públicos sobre criminalidade”, afirma.

No entanto, apesar de quase 3 anos de existência, o programa ainda é pouco conhecido. A cidade de São Paulo, por exemplo - com seus quase 11 milhões de habitantes – tem apenas 46 ocorrências policias registradas no site. “Falta maior divulgação para que tenhamos mais parceiros”, diz.

Este cenário pode começar a mudar a partir desta quinta-feira, quando Furtado se apresenta no PDF (Personal Democracy Fórum), em Santiago, no Chile. A conferência, realizada há 6 anos, reúne pesquisadores de diversos países e analisa o impacto da tecnologia na política e governo.

“Entenderam que a proposta de WikiCrimes é exatamente o que consideram ruptura nas formas tradicionais de governo que a tecnologia pode causar”, afirma ele, em entrevista ao iG. É a oportunidade do Wikicrimi passar a ser mais conhecido não somente no Brasil, mas mundialmente.

Participação popular

A idéia do Wikicrimes, diz o professor, veio da Wikipedia, de “ter a colaboração das pessoas para construir algo com um objetivo comum”.

“Baseia-se no fato de que quando alguém é vítima de algo, sempre conta para outra pessoa. Às vezes, só para desabafar, mas normalmente com o intuito de alertar para que outros tenham precaução. Que tal compartilhar para um público bem maior?”, propõe ele, que acrescenta que um dos maiores desafios é justamente fazer com que as pessoas participem. “É aquela regra do 90, 9 e 1. Noventa só querem consultar; 9 participam eventualmente e, um, com constância”.

Furtado explica que, além da participação dos próprios cidadãos, busca constantemente parceiros que possam munir a ferramenta de informações, tais como rede de jornais e televisão e advogados.

As polícias dos Estados também foram convidadas a colaborar, mas, com algumas exceções – a exemplo Blumenau (SC) e Belo Horizonte (MG) – não aderiram. O que não o faz perder a esperança na transparência. “Acreditamos que gradativamente passaremos a ter menos receio de por os dados públicos disponíveis ao cidadão, como já ocorre nos EUA e Inglaterra”, considera.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.