O processo de eleição na Academia Brasileira de Letras (ABL) é similar a de um papa. Depois da ¿sessão da saudade¿, declara-se oficialmente a vaga ocupada pelo acadêmico recém-falecido. É quando aparece a maioria dos candidatos. Terminado o prazo de dois meses de campanha, os 39 membros da ABL se reúnem em torno dos candidatos e votam. Se nenhum conseguir maioria absoluta, são realizados novos escrutínios no mesmo dia. Encerradas quatro votações, caso ninguém seja eleito, a eleição é anulada. É então remarcada, com possibilidade de inclusão de novos candidatos.

A votação na ABL funciona de maneira secreta e todos os votos, escritos em pedaços de papel, são incinerados ao fim da eleição. Os acadêmicos se manifestam por meio de telefone, e-mail ou telegrama. Podem estar no Rio ou do outro lado do mundo.

O histórico da Academia inclui três grupos de disputas: campanhas acirradas, eleição por unanimidade e confrontos equilibrados, mas sem grande intensidade. Do primeiro grupo um dos principais exemplos foi a disputa pela cobiçada cadeira de número 23, que pertencia a Zélia Gattai, que morreu em maio de 2008. Antes dela, seu marido Jorge Amado fora o titular da cadeira por 40 anos. Não era uma vaga qualquer: o primeiro ocupante foi Machado de Assis, fundador da Casa e seu primeiro presidente.

Deu-se um número recorde de candidatos: 21 inscritos, numa disputa que foi acirrada por dois grandes motivos. Primeiro, desde 2006 não havia cadeiras vagas. Segundo, não se candidatou nenhum figurão. Venceu, com 23 votos, o jornalista Luiz Paulo Horta, com Ziraldo em segundo. O escritor Antônio Torres, a historiadora Isabel Lustosa e o crítico literário Fábio Lucas também estavam no páreo.

Campanha dura, eleição fácil

Às vezes campanhas aparentemente renhidas se revelam eleições fáceis na hora do jogo. Foi o caso do confronto entre o senador e ex-presidente da República Marco Maciel e o jornalista Fernando Morais, em 2003. Na época, Morais afirmou: Sou um sujeito acostumado à batalha política, participei de inúmeras campanhas eleitorais, mas a da ABL é a que tem exigido mais musculatura. Mas a eleição só durou meia hora e um só escrutínio.

Acadêmicos não costumam revelar abertamente o nome preferido. Ninguém quer se indispor com este ou aquele candidato. Mas é comum candidatos exibirem cartas-compromisso, assinadas por potenciais eleitores. O acadêmico Domício Proença, eleito em 2006, chegou a brincar certa vez: Eleição é algo muito sutil. Na minha vez, eu dormia com 10 votos e acordava com 6.

Cão de açougue

Uma eleição seria por unanimidade se o crítico Antonio Candido, sonho de consumo da ABL, entrasse na disputa. Cícero Sandroni, mais tarde presidente da Casa, foi eleito assim. José Mindlin, cuja vaga estará aberta a partir desta quinta-feira, também.

No jargão da Academia, uma unanimidade é como um cão de açougue, expressão concebida pelo poeta Manuel Bandeira para designar um candidato que, quando aparece, não tem para mais ninguém.

Um observador calcula que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso será candidato apenas quando ¿ e se ¿ vislumbrar no horizonte uma aclamação por unanimidade. Ele ainda não tem convívio com os acadêmicos, ainda é cedo para isso, analisa este observador.

A última disputa, no fim de 2009, garantiu uma vaga a Cleonice Berardinelli ¿ aos 93 anos, a maior especialista em literatura portuguesa no Brasil. Cleonice passou a ocupar a cadeira de número 8, depois da morte do escritor Antonio Olinto, em setembro, ao vencer o jornalista e ex-ministro Ronaldo Costa Couto.

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