¿Meu filho tinha 2 meses de idade quando fui presa¿, conta Leonilda Aparecida dos Santos Santana, de 21 anos. Ao tentar entrar com drogas escondidas no corpo para entregar ao marido preso, Leonilda foi detida por tráfico e condenada a 3 anos e 10 meses. O bebê, que estava em seu colo no momento da prisão, foi entregue à família materna por uma advogada.

Leonilda teria direito a amamentar seu filho até os 6 meses de idade, em uma ala para gestantes e lactantes do Centro Hospitalar, localizado no Complexo de Santana, mas desconhecia a possibilidade. Não falaram nada disso pra mim, diz a detenta que cumpre pena na Penitenciária Feminina de Santana há quase um ano e cinco meses. Hoje, N. tem 1 ano e 7 meses, mora em São Paulo, mas visita a mãe de vez em quando. Minha tia está com a guarda dele. Ela trouxe o N. aqui cinco vezes. Da última vez, ele ainda não andava, mas soube por uma carta que já aprendeu, conta Leonilda, que está há mais de seis meses sem ver o filho.

A distância nesta fase da infância é apontada por Leonilda como a pior parte do encarceramento. É horrível não ver meu filho crescer. Era meu sonho ter uma criança e estou perdendo a melhor parte da vida dele, lamenta. Órfã de pai e mãe, Leonilda entregou a criança para a avó cuidar. A guarda permanece com a tia, porque a avó de Leonilda se recusa a visitá-la na penitenciária.

Quando construídas, as oito novas penitenciárias femininas anunciadas pelo Estado de São Paulo proporcionarão a mulheres como Leonilda a possibilidade de passar o fim de semana com seus filhos pequenos. As crianças ficarão numa creche, dentro das unidades.

É horrível não ver meu filho crescer. Era meu sonho ter uma criança e estou perdendo a melhor parte da vida dele

De acordo com uma previsão da Pastoral Carcerária há 2.700 mulheres em Santana, sendo que a capacidade do complexo é de 2.500 vagas ¿ desde 2006, a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) não informa a população, nem a capacidade de suas unidades, por questões de segurança. Não há dados oficiais disponíveis sobre a população da penitenciária.

A SAP também não confirma quantas detentas trabalham na unidade e se há vagas para todas, mas Leonilda e as demais mulheres entrevistadas que passaram por Santana afirmam que as presas entram em listas de espera para ingressar em alguma das atividades da penitenciária.

Leonilda esperou dois meses para entrar no grupo da faxina (equipe de limpeza e organização da penitenciária). Levanta cedo, começa a trabalhar às 8h, na parte da limpeza do pavilhão e do pátio, e à tarde segue para a equipe de entrega do jumbo (mercadorias entregues pelos parentes para as detentas).

Recentemente, ela conta que as detentas realizaram uma paralisação para reclamar a falta de água no presídio. Ninguém foi trabalhar. Cruzamos os braços e esperamos o diretor vir conversar com a gente. Desde o começo de março a água está com problemas, às vezes tem, outras não. Ele prometeu que vai ver, relata.

Quero cursar pedagogia. Ter uma vida melhor, porque essa vida de crime não compensa. Ficar longe das pessoas que a gente mais ama e que mais amam a gente é o pior. Não quero mais essa vida

Outra paralisação, no ano passado, resultou na reforma da cozinha da Penitenciária Estadual, setor de Santana onde Leonilda está detida. Tinha muito rato lá embaixo e a comida chegava azeda. Não vi como ficou depois da reforma, mas a comida melhorou bastante, afirma. Quem organiza as manifestações, segundo Leonilda, são as disciplinas, as líderes do pavilhão. Elas conversam com a gente, dizem que é para ter melhoria e a gente adere, explica.

Falta de atendimento médico é uma das principais reclamações das detentas de Santana. Eu tenho bronquite, fiquei com pneumonia. Solicitei uma consulta no otorrino, mas não fui atendida nenhuma vez, denuncia Leonilda.

De acordo com Carmen Silvia de Moraes Barros, do Núcleo de Situação Carcerária da Defensoria do Estado de São Paulo, a saúde é um problema crônico na SAP. A questão dos médicos é complexa no sistema penitenciário. Abriu-se um concurso para médicos, mas tivemos pouquíssimas inscrições, porque os médicos da SAP recebem menos do que os do SUS [Sistema Único de Saúde], explica. Carmem informa que a coordenadoria de saúde da SAP e o Núcleo estudam a possibilidade de todo o atendimento médico das unidades prisionais passar a ser de responsabilidade do SUS.

Leonilda diz sentir falta de assistir à televisão, andar de bicicleta e navegar na internet. Eu ficava horas na internet, viajando no Orkut e conversando no MSN. Aqui o único lazer que a gente tem é o futebol e o vôlei. A gente joga a semana toda, faz campeonato distribui troféu e medalha, conta.

Como uma jovem de sua idade, sonha em fazer faculdade. Quero cursar pedagogia. Ter uma vida melhor, porque essa vida de crime não compensa. Ficar longe das pessoas que a gente mais ama e que mais amam a gente é o pior. Não quero mais essa vida, diz.

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