Por Carmen Munari SÃO PAULO (Reuters) - A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, forte defensora da preservação da Amazônia, pediu demissão nesta terça-feira e será substituída pelo ambientalista Carlos Minc (PT), secretário do Rio de Janeiro.

O nome do novo ministro foi confirmado pelo governo do Estado do Rio. O governador Sergio Cabral (PMDB) recebeu ligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva requisitando o secretário para o ministério.

Marina pediu seu afastamento, em caráter irrevogável, em carta enviada nesta terça-feira ao presidente Lula, que aceitou. O Planalto não se manifestou, no entanto, sobre Carlos Minc como substituto.

Nos bastidores, circulou que Lula ficou indignado com a forma como Marina comunicou sua saída. Uma carta sem conversa prévia e vazamento imediato à imprensa. Com este gesto, não poderia haver volta, era o comentário no Planalto.

Sobre Minc, coincidência ou não, Lula elogiou o secretário ao participar de evento no Rio na segunda-feira.

Marina, acreana e ex-seringueira de 50 anos, estava no cargo desde 2003, no primeiro mandato do presidente Lula.

A ministra não ofereceu um motivo específico para seu desligamento.

'Essa difícil decisão decorre das dificuldades que tenho enfrentado há algum tempo para dar prosseguimento à agenda amibiental federal', disse Marina na carta a Lula.

Mas especialistas acreditam que o fato mais recente na lista de insatisfações da ministra foi a nomeação de Roberto Mangabeira Unger, ministro de Assuntos Estratégicos, para coordenar o Plano Amazônia Sustentável (PAS), recém-lançado.

Entre os conflitos enfrentados por Marina foram as questões relacionadas à concessão de licenças ambientais para usinas hidrelétricas, que geraram embates com áreas estratégicas como a Casa Civil, da ministra Dilma Rousseff.

Também pesaram questões como a demarcação das áreas indígenas e a expansão das atividades agropecuárias em áreas na Amazônia legal.

'Foi uma sinalização desastrosa para a comunidade internacional, o país mostra atraso. Marina saiu por um conjunto de elementos: política do governo em relação à Amazônia; pressões da Casa Civil por licenças ambientais para usinas; e entrega do Programa da Amazônia Sustentável ao Mangabeira', disse à Reuters Marcelo Furtado, diretor do Greenpeace no Brasil.

Para ele, o presidente Lula apenas adotou o discurso ambientalista, mas a prática é a do desenvolvimento a qualquer custo.

No início do ano, a divulgação de dados de desmatamento da Amazônia levantou um forte alerta na comunidade ambientalista e levou os governos federal e dos Estados a implantarem uma operação de caça aos madeireiros ilegais.

Entre agosto e dezembro de 2007, segundo dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram desmatados 3.235 quilômetros quadrados na soma dos oito Estados da região amazônica. Os Estados-líderes no desmatamento foram Pará e Mato Grosso.

'Desde que assumiu o governo ela tentou, como boa professora, mostrar que o desenvolvimento moderno tem que ter, além do desenvolvimento econômico, social, político, o desenvolvimento ambiental', disse José Maria Cardoso da Silva, vice-presidente para a América do Sul da Conservação Internacional.

'A saída dela é um desastre para o governo Lula. Se o governo tinha uma credibilidade mundial na questão ambiental era por causa da ministra Marina', acrescentou.

Denise Hamú, secretária-geral do WWF Brasil (Fundo Mundial da Natureza), também apontou motivos.

'Nós lamentamos profundamente por tudo aquilo que ela representa. Acredito que não tenha havido uma razão específica, mas uma sucessão de razões (para o pedido de demissão). Acho que a dificuldade de declarar áreas protegidas e também a questão da Amazônia sustentável, que, no final, o presidente entregou ao Mangabeira Unger. Isso tudo pode ter contribuído.'

Representantes do agronegócio não perderam a oportunidade para criticar a ministra, mesmo quando ela decidiu sair do governo.

Luiz Antonio Nabhan Garcia, presidente da União Democrática Ruralista (UDR), criticou o 'ódio' da ex-ministra aos produtores.

'Esse ranço que a Marina Silva tem, que é explícito, esse ódio que ela tem contra produtor rural, isso prejudica gravemente a cadeia produtiva. A ministra misturou tudo, colocou todo mundo no mesmo balaio e saiu dando tiro em todo mundo. A política dela no quesito meio ambiente foi desastrosa', disse.

Para Cesario Ramalho da Silva, presidente da Sociedade Rural Brasileira, a ministra 'criou muita dificuldade com questões de licenças ambientais'.

'Deveríamos ter no Ministério do Meio Ambiente pessoas mais de centro, menos ligadas a qualquer movimento de ONGs... Que seja escolhido um novo ministro que tenha bom senso, equilíbrio e que jamais seja como a Marina', disse.

Já o senador Jefferson Peres, do PDT do Amazônia, lamentou a saída. 'Ela influenciava muito o Senado. Eu creio que a presença dela no Executivo era melhor para a causa ambientalista.'

(Reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier, Tatiana Ramil e Roberto Samora)

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