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Presa há mais de um ano, detenta de Sant ana não sabe qual será sua pena

Valeska Karla Ribeiro Oliveira, 29 anos, dá de ombros quando lhe perguntam sobre sua pena. Presa há um ano e um mês por tráfico de drogas, a detenta do presídio feminino de Sant¿ana, em São Paulo, não sabe qual será a sua pena. ¿Ainda não tive nenhuma audiência com o juiz, não pude apresentar a minha defesa e não sei quanto tempo ficarei aqui. Não sei se cumpri metade da pena, um terço, um quinto ou um décimo¿, diz com o olhar perdido.

Marina Morena Costa, repórter do Último Segundo |

Duas audiências foram marcadas para Valeska no último ano, mas a detenta afirma que em ambas ocasiões o fórum de Itapetininga não enviou escolta para buscá-la no presídio. Esperei durante o dia inteiro e não vieram me buscar. Na última vez, entrei em desespero, chorei, gritei, xinguei. Toda vez que me chamam, penso que vou pra audiência. Hoje mesmo quando me chamaram aqui na administração pra conversar com você, achei que ia pro fórum, conta para a repórter, entre risos.

A entrevista acontece na presença de um agente da penitenciária, em uma grande sala administrativa da unidade, onde ficam seis mesas de madeira equipadas de computadores antigos e abarrotadas de papéis. Na parede, uma radiografia pendurada com fita adesiva mostra um telefone celular alojado no ventre de uma detenta. Quando fazemos vistoria nas cela, passamos um detector de metal pelo corpo das presas. Se acusa algo, encaminhamos para enfermaria. Essa aí continuava dizendo que não tinha nada, aí tivemos que levar pro hospital e tirar um raio-x, conta uma funcionária de Santana.

Marina Morena Costa
Detalhe do rosto de Valeska
Sem parentes ou conhecidos em São Paulo, Valeska vê distante a possibilidade de ser ouvida pela Justiça. Acho que o juiz me esqueceu. Não há ninguém que possa agilizar as coisas pra mim lá fora. Minha família é de Lavras, em Minas [Gerais], não conheço ninguém aqui, diz. Há três semanas, a detenta pediu para Heide Cerneka, coordenadora nacional da Pastoral Carcerária, puxar um extrato de seu processo criminal. Na próxima visita da coordenadora, que viaja pelo Brasil inteiro, Valeska saberá a situação de seu processo.

"Não ter nada pra fazer nem como saber o que acontece lá fora e é muito triste. Muito difícil de suportar"

Há quase dois anos sem ver os três filhos, meninos de 13, 12 e 4 anos, Valeska define sua situação como um tortura e reclama da falta de atividades no presídio. Dei meu nome pra trabalhar na firma e pra ir na escola, mas ainda estou na lista. Eles chamam pra trabalhar por ordem de chegada e já faz sete meses que estou aqui, relata. Para ocupar o tempo e fazer um dinheiro, ela trabalha para outras presas, lavando roupas ou limpando a cela.

Televisão e rádio são artigos de luxo permitidos no presídio. As famílias podem mandar os aparelhos. Outra opção é alugar o eletrodoméstico de alguma detenta que tenha um e esteja disposta a lucrar uns cigarros (a moeda da cadeia). Eu e minha parceira estamos sem condições de alugar uma TV. Teve uma época que a gente alugou e foi tão bom porque eu gosto de ver o noticiário, de ficar por dentro das notícias. Não ter nada pra fazer nem como saber o que acontece lá fora e é muito triste. Muito difícil de suportar. Mas se você causa uma situação, tem que se acostumar com ela.

Visitas Valeska só recebeu uma, em novembro passado, quando sua mãe viajou mais de 400 quilômetros para vê-la. Foi muito lindo. Eu não imaginava, não sabia que ela vinha. Quando me falaram Valeska, tua mãe está aí, olhei lá de cima do terceiro andar, onde fica meu pavilhão, e a vi lá embaixo parada, chorando. Desci correndo as escadas e quando me viu ela disse: Você está linda!. Minha mãe tinha trazido fotos dos meus filhos, mas a revista não deixou entrar, conta emocionada.

Valeska olha o relógio pendurado na parede e ri. Lá dentro não tem hora. A gente sabe o horário pelo rádio, ou pela rotina do dia a dia: almoço, jantar, banho, hora da tranca [quando as celas são fechadas, às 17h]. A hora mais aguardada é a da distribuição das cartas, o único meio de comunicação permitido às detentas ¿ não há telefones públicos e ligações pela administração são feitas apenas em casos de emergência. A gente fica na adrenalina esperando o horário da carta. E quando não vem nada é a maior tristeza, diz.

Lá dentro não tem hora. A gente sabe o horário pelo rádio, ou pela rotina do dia a dia: almoço, jantar, banho, hora da tranca"

Recentemente, Valeska começou a se corresponder com um rapaz preso na Penitenciária Masculina de Valparaíso. Conheci através de uma amiga minha que também escreve para um cara de lá. Ele me mandou uma foto, e eu mandei uma minha pra ele, mas não passou pela censura. Na Páscoa, os dois pretendem se encontrar, pois o correspondente cumpre pena em regime semi-aberto e receberá o indulto no feriado. Ele disse que vem, mas eu respondi que só acredito vendo, conta, entre risos. É bom porque nós dois queremos mudar de vida e assim um dá força para o outro.

Às vezes dá uma vontade de tomar uma água gelada, sabe? Ou até mesmo de mascar um chiclete, que não pode lá dentro, conta. Para Valeska, a privação destas pequenas coisas do cotidiano e a distância dos filhos são sofrimentos que a fazem repensar seus atos. Acredito que estou sendo reeducada, pelo sofrimento que estou passando de ficar longe dos meus filhos. Sofro por eles. E quero sair daqui de cabeça erguida, sem dever nada pra Justiça, sem olhar pra trás e seguir meu caminho até eles.

Do futuro incerto, ela quer uma audiência com o juiz. Espero ser julgada, ser ouvida. Estou presa, está certo, eu errei. Mas o mais difícil é não saber o tempo que você vai tirar. As meninas sabem, contam os dias pra sair, pra ir pro semi-aberto, eu nem isso posso fazer. Estou esperando, esperando, e nada acontece. Isso é o pior.

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