Por Denise Luna RIO DE JANEIRO (Reuters) - A Vale fechou acordo com siderúrgicas do Japão e da Coréia do Sul aceitando redução do preço de referência do minério de ferro produzido pela empresa para este ano, mas ainda aguarda seu principal cliente, a China, decidir se aceita os mesmos níveis de cortes.

A Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo, concordou em reduzir em 28,8 por cento o preço do minério de ferro fino e em 44,47 por cento o preço do granulado. O preço de pelotas de alto forno caiu 48,3 por cento em relação ao praticado em 2008.

O acordo com japoneses e coreanos foi um pouco melhor do que o obtido pela australiana Rio Tinto, rival da empresa brasileira e primeira a fechar um entendimento para queda de preços este ano, entre 33 e 44 por cento. No ano passado, junto com a também australiana BHP, com quem fez joint-venture este ano, a Rio havia obtido aumentos maiores do que a Vale para o produto.

Para analistas que acompanham a Vale, os ajustes vieram dentro do esperado e não devem ter grande influência no comportamento das ações da mineradora brasileira, principalmente porque o principal mercado da Vale, a China, continua sem uma solução.

Por volta das 16h20, os papéis preferenciais da Vale operavam em alta de 0,33 por cento, resistindo à queda de 0,36 por cento do Ibovespa.

A China foi responsável pela compra de 66,3 por cento do volume de minério de ferro e pelotas vendido pela Vale no primeiro trimestre deste ano, enquanto o Japão representou apenas 8,1 por cento e a Coréia do Sul, 6 por cento.

"Não fugiu muito do esperado, o mercado falava entre 25 e 27 por cento para o fino, que é o principal para a Vale", avaliou o analista da corretora SLW Pedro Galdi.

"Mas o importante mesmo para eles (Vale) é a China, e existe uma pressão muito forte para fechar ainda este mês esse acordo", complementou.

"É importante ressaltar que, segundo nossas estimativas, as vendas de minério de ferro da companhia são compostas majoritariamente pelos finos, que representam de 70% a 75% do total, enquanto que o granulado varia entre 5% e 10%. Assim sendo, o reajuste de 28,2% é o de maior importância para a Vale", acrescentou a corretora Brascan, em relatório.

ACORDO MENOR

Segundo jornais chineses, a Vale teria acertado a venda de 50 milhões de toneladas de minério de ferro com pequenas siderúrgicas do país, a valores não divulgados, volume que representa quase a metade da venda da mineradora brasileira em 2008 para o gigante asiático.

De acordo com a analista independente Michelle Applebaum, de Chicago, se confirmada a informação os grandes produtores de aço da China ficam em situação mais frágil na disputa com a Vale.

"Isto é um mal sinal para a indústria chinesa de aço, porque estas não são as reduções (de preço) que os chineses estão procurando", observou, na hipótese de os pequenos produtores do país terem feito o acordo com base no preço acertado com japoneses e coreanos.

Michelle lembrou que o poder de negociação da China vem se diluindo com sucessivos anúncios de aumento de produção de aço.

"Sua produção de aço está perto de um máximo histórico, sua demanda para o minério de ferro vai ser muito forte este ano. Então, onde fica a sua capacidade de negociação?", indagou.

A habitual queda de braço anual entre mineradoras e siderúrgicas ganhou mais turbulência este ano diante da dificuldade de se prever a demanda por minério em meio à queda de demanda global por aço. Segundo analistas que acompanham o processo, a China quer redução entre 40 e 50 por cento do preço, comparado a 2008, enquanto as mineradoras lutam por algo em torno dos 25-30 por cento.

SEM REFERENCIAL

Há mais de 30 anos vigorava o sistema de referência de preços, quebrado no ano passado depois que BHP e Rio Tinto, as maiores mineradoras do mundo, não seguiram um acordo feito pela Vale de aumento entre 65 e 71 por cento para o minério de ferro. As australianas demoraram mais a fechar o contrato e conseguiram ajustes de 79,8 a 96,5 por cento.

O corte menor no preço em relação à Rio Tinto, que havia aceito redução de 33 por cento para o minério fino, também não supreendeu os especialistas.

"Veio dentro das nossas expectativas", resumiu a analista Cristiane Viana, da Ágora, que previa corte de 28,1 por cento.

O acordo da Vale foi acertado com a japonesa Nippon Steel, a sul-coreana Posco, e também com as siderúrgicas do Japão Sumitomo Metal Industries, Kobe Steel e Nisshin Steel.

Com isso, os novos preços de referência para 2009, em tonelada métrica seca, são de 0,8543 dólar por unidade de ferro para o minério de ferro fino do Sistema Sudeste, 0,8987 dólar para o fino de Carajás (SFCJ), 0,9942 dólar para o granulado do Sistema Sudeste e 1,0094 dólar para o granulado do Sistema Sul, informa a Vale. O preço da pelota, também em tonelada métrica seca, passou a 1,1043 dólar.

"Se pegar o preço em dólar que a Vale vinha praticando, levando em conta que ela aumentou menos o minério em 2008, o corte devia ser menos mesmo que a Rio", disse Galdi. "A pelota que veio mais forte, mas mesmo assim era dentro do esperado", afirmou o analista.

Como são um tipo de minério de ferro enriquecido, as pelotas são utilizadas principalmente quando se deseja aumentar a produtividade dos alto fornos das siderúrgicas, o que não é necessário em períodos de fraca demanda, como ocorre no momento.

Os primeiros acordos de preços de minério de ferro deste ano com siderúrgicas japonesas e sul-coreanas foram acertados pela mineradora australiana Rio Tinto, de reduções de cerca de 33 por cento.

A Brascan, no entanto, fez um alerta sobre as compensações que a Vale terá de fazer a clientes, "já que durante o primeiro trimestre desse ano ela vendeu 28,8 milhões de toneladas de minério de ferro a um preço provisório correspondente a 80% do benchmark de 2008".

"Como o reajuste anunciado levou a um preço efetivo menor do que o pago provisoriamente pelos clientes, a diferença deverá ser compensada nos próximos trimestres", acrescentou a corretora.

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