Tribunal do Paraná julga o caso Evandro, um mistério de 19 anos

Em 1992, o menino Evandro Ramos Caetano desapareceu. A suspeita é de que ele foi vítima de um ritual de magia negra

Luciana Cristo, iG Paraná |

Arquivo pessoal
Foto do menino Evandro, desaparecido em 1992
Depois de 19 anos, novo julgamento do Caso Evandro começa nesta sexta-feira, em Curitiba, no Tribunal de Justiça do Paraná. Mais de 70 mil páginas de processo, o envolvimento das principais autoridades policiais e judiciais do Paraná e uma investigação que já chega a 19 anos ainda não esclareceram o que aconteceu com o menino Evandro Ramos Caetano, de seis anos de idade, que desapareceu em Guaratuba, cidade litorânea do Estado, no ano de 1992 ( veja a cronologia do caso ). É sobre esse volume de incertezas que o júri vai se debruçar a partir das 9h desta sexta. 

Mesmo depois de três julgamentos – que acabaram por condenar três pessoas e inocentar quatro – as dúvidas permanecem. Qualquer uma das versões que são apresentadas, respectivamente, pela acusação e pela defesa, é brutal. A verdade pende entre um ritual satânico que sacrificou uma criança, retirando os órgãos para fazer uma oferenda, ou um caso que envolve ódio, rivalidade política e práticas de tortura praticadas pela polícia do Paraná para obter as confissões.

No centro de um dos casos judiciais mais polêmicos do País está Celina e Beatriz Abagge, esposa e filha do ex-prefeito de Guaratuba, Aldo Abagge. As duas são acusadas de serem as mandantes do crime envolvendo o menino Evandro. O novo julgamento de Beatriz está marcado para esta sexta-feira, na 2ª Vara do Tribunal do Júri, em Curitiba.

No primeiro julgamento das duas (o mais longo da história do Brasil, com duração de 34 dias), em 1998, elas foram absolvidas, sob a argumentação da defesa de que elas não poderiam ser julgadas enquanto havia dúvidas sobre a identidade do corpo encontrado ser realmente o de Evandro. O Ministério Público do Paraná recorreu da sentença e conseguiu marcar esse segundo julgamento, depois de sucessivos adiamentos.

Três pais-de-santo de um terreiro de umbanda de Guaratuba foram condenadas no caso, enquanto outras duas pessoas, acusadas de ajudarem no crime, foram absolvidas. Celina fica isenta desse segundo julgamento, por ter, hoje, mais de 70 anos de idade.

O iG conversou com o promotor Paulo de Lima, encarregado da acusação, com o advogado de defesa, Adel El Tasse, e com as duas principais acusadas. A reportagem tentou conversar com a família, mas foi informada de que os pais de Evandro não falam sobre o caso.

As duas versões

O único ponto em que há concordância no caso é o próprio desaparecimento do menino Evandro, na manhã do dia 6 de abril de 1992. A partir daí, as histórias são completamente distintas. Confira o que dizem os dois lados da história sobre cada ponto do caso:

Versão da acusação: Celina e Beatriz Abagge teriam pedido um ritual de magia negra a Osvaldo Marcineiro, pai-de-santo que tinha uma tenda de búzios em Guaratuba, para trazer dinheiro e prosperidade para a família, porque a serraria dos Abagge passava por dificuldades.

Eles teriam sequestrado o garoto, que foi mantido durante 24 horas amordaçado e depois morto dentro da serraria da família Abagge. Evandro teve as mãos, os pés e as orelhas cortados, sendo encontrado sem as vísceras e sem o couro cabeludo, em avançado estado de putrefação, em um matagal perto da casa dos Abagge. Objetos de barro que teriam sido utilizados no ritual foram encontrados na serraria.

Elas confessam o crime, mas depois voltam atrás.

Versão da defesa: Inimigo político de Aldo Abagge, um tio do menino Evandro, Diógenes Caetano, vai a Curitiba e faz acusações contra Celina (que supostamente, no passado, teve um caso com o pai de Diógenes) e Beatriz Abagge, dizendo ter certeza que elas estavam envolvidas no assassinato do menino e que ele teria sido vítima de um ritual de magia negra, sem apresentar provas.

Luciana Cristo/iG
Beatriz e Celina Abagge
Enquanto isso, não havia certeza de que o corpo encontrado era mesmo o de Evandro. Policiais que trabalharam na época, como o delegado Luiz Carlos Oliveira, garante que o corpo não é o do menino. Peritos que analisaram o cadáver na época chegaram a afirmar que o corpo seria muito grande para uma criança de seis anos de idade.

Três meses depois do início das investigações, policiais militares, sem um mandado de prisão, invadem a casa da família Abagge em busca das acusadas. As duas são colocadas em carros à paisana de policiais militares e vendadas. Depois, são levadas a um local desconhecido onde sofrem torturas, sob ordens do coronel Valdir Copetti Neves, posteriormente condenado por formação de quadrilha e perseguição de trabalhadores sem-terra no interior do Paraná.

Na casa, Celina e Beatriz escutam outros acusados sendo espancados. Beatriz diz ter sofrido choques elétricos e afirma ter sido vítima de abuso sexual por parte dos policiais. A tortura faz com que elas confessem o crime. A fita com a suposta confissão tem diversos cortes, que seriam os momentos em que elas não diziam o que era esperado.

Leila Bertolini e Adauto Abreu de Oliveira, delegados do Grupo Tigre, que inicialmente estava encarregado das investigações do caso, questionam a culpa atribuída às Abagge.

Cronologia do caso

6 de abril de 1992: Evandro Ramos Caetano, de seis anos, desaparece no trajeto de cem metros que separava sua casa da escola na qual estudava. O Grupo Tigre, especializado em casos de seqüestro, começa as investigações.

11 de abril de 1992: Um corpo com as roupas de Evandro, irreconhecível, é encontrado em um matagal, perto da casa da família Abagge. As chaves da casa dele estão próximas do local. A Polícia Civil começa a investigar o caso.

2 de julho de 1992: O Grupo Águia, de elite da Polícia Militar do Paraná, e a Polícia Federal entram na casa do então prefeito de Guaratuba, Aldo Abagge, e dão voz de prisão a Celina e a Beatriz. O caso ganha repercussão nacional e internacional e fica conhecido como o caso das “Bruxas de Guaratuba”. Elas passam três anos e nove meses presas, além de outros três anos em prisão domiciliar, até o primeiro julgamento.

Abril/1998: Um dia antes do início do julgamento das Abagge, o perito Rui Rezende – que fez o laudo atestando que as duas não tinham sofrido tortura -se mata sob o túmulo do pai, com uma arma na mão.

Abril/1998: Começa o julgamento das Abagge, que durou 34 dias. Ao final, elas são absolvidas, pela dúvida sobre se o corpo era realmente o de Evandro. A fita que continha a suposta confissão das Abagge some dos autos e reaparece durante o julgamento. Nessa fita, pode-se ouvir a voz dos policiais mandando-as repetir o que diziam.

Abril/2004: Depois de um julgamento de seis dias, Osvaldo Marcineiro e Vicente de Paula Ferreira são condenados a 20 anos e dois meses de prisão pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, sequestro e cárcere privado. David dos Santos Soares é condenado a 18 anos pelo homicídio, sendo absolvido de participação no sequestro.

Abril/2005: Airton Bardelli dos Santos e Francisco Sérgio Cristofolini são absolvidos em julgamento, depois de passarem sete anos presos.

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