"Somos todos inocentes", diz acusada do caso Evandro

Beatriz Abagge afirma que foi torturada para confessar o crime

Luciana Cristo, iG Paraná |

Passados 19 anos desde sua prisão, a terapeuta ocupacional Beatriz Cordeiro Abagge diz que ainda tem dificuldades em falar sobre o período que teria sido submetida a torturas para confessar a participação no assassinato do menino Evandro Ramos Caetano, em um suposto ritual de magia negra.

Além da tortura, Beatriz acusa os policiais que a prenderam de a terem violentado sexualmente. Durante a conversa com a reportagem do iG, quem fala mais sobre as horas em que teriam apanhado é a mãe de Beatriz, Celina, presa na mesma situação e hoje, com 72 anos, considerada inimputável para participar de um novo júri.

Luciana Cristo/iG
Beatriz e Celina Abagge
Na semana passada, a defesa conseguiu um parecer médico-legal do perito Jorge Paulete Vanrell, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que diz que ela foi submetida à tortura. No relatório, Vanrell diz que Beatriz “apresenta marca cicatricial compatível com aquelas produzidas por fiação utilizada para aplicação de choque elétrico de baixa voltagem, em sessão de tortura destinada à obtenção de confissão de forma ilícita”.

O novo parecer não foi suficiente para que a defesa conseguisse adiar o julgamento até que a prática de tortura fosse investigada. Todos os pedidos de habeas corpus foram negados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Assim, Beatriz vai, mais uma vez, sentar no banco dos réus.

iG - Hoje com 47 anos, como a senhora se sente prestes a passar por mais um julgamento? Depois de tanto tempo, qual é o sentimento?
Beatriz Abagge - De injustiça. Eu já passei por 34 dias de júri, já fui absolvida e foi de grande surpresa eles terem marcado novamente esse júri. A gente está com esperança, com os advogados nos auxiliando, lutando pela gente e se tem que passar de novo, vamos passar. Mas é injusto. Eu já passei por um júri e já fui absolvida. E não foi um júri pequeno.

Em seus depoimentos à polícia, a senhora acusa os policiais que efetuaram a prisão de tortura. Como foi isso?
Beatriz Abagge - Quem conta mais é a minha mãe. Eu não consigo falar. Eu escrevo, mas falar eu não consigo.

É injusto. Eu já passei por um júri e já fui absolvida”

Celina Abagge - Entraram lá em casa sem bater. As crianças começaram a chorar e a gritar. Não falaram nada, não sabíamos o que estava acontecendo e me disseram que eu estava presa.

Perguntavam sobre a Scheila, “a psicóloga”. O mandado de prisão apareceu somente muitas horas depois, então com o nome da Beatriz. Ao chegar ao fórum, em vez de encaminhar a gente para a sala de audiências, conduziram a gente para fora do fórum. Colocaram a gente dentro de um carro, vendadas, até chegar em uma casa. Lá eu levei soco, levei porrada. A Beatriz eles afogaram, deram choque elétrico.

Eu ouvia os gritos, seguidos de silêncio. Aí eu pensava “agora mataram ela e estão vindo me matar”. Eu estava esperando. De repente começavam os gritos de novo. Eu gritava por socorro e nada. Quando ouvia barulho de ônibus ou caminhão, era barulho de veículo pesado na rua, eu gritava, aí eles voltavam e me batiam mais. Eles ligavam o som bem alto, de música sertaneja. Escutei conversa de criança, conversa de mulher. Uma hora eu disse “eu não aguento mais” e foi aí que eu pensei “agora eu vou falar o que eles quiserem”.

Então me empurraram quase até o chão e ouvi um barulho, que depois fui saber que era um gravador. Eles falavam e eu repetia. Eles mandavam eu dizer que matei o menininho. Então eu falava “eu matei o menininho”. Eles perguntavam “como você matou?” e mandaram eu dizer que usei uma serra. “Que serra?” Eu não sabia, aí não teve dúvida, apanhei pra caramba, até dizer como eles queriam.

Então eles me tiraram dali, me colocaram no carro de novo, toda urinada, arrebentada, não tinha nem como ficar em pé. A gente não gosta de falar os mínimos detalhes da tortura, porque é humilhante. Depois me mostraram um papel, eu não queria assinar, não conseguia ler sem óculos. No caminho de volta, eu estava com sede e me deram um líquido efervescente e “amarrento” (a defesa alega que elas foram dopadas).

Quando chegamos ao fórum (do município de Matinhos) o lugar estava cheio de gente querendo esfaquear, matar a gente. Claro, se fôssemos bandidos merecíamos mesmo, mas ninguém vê que a gente está arrebentada, com sangue escorrendo. Então lá o (comandante da prisão) Copetti Neves segurou forte o meu braço e falou: “você vai falar tudo o que combinamos. Não fale nada sobre o que aconteceu naquela casa. Teu marido, teus netos são propriedade minha agora. Não abre a boca para contar nada, se não acabo com a tua raça”. Antes do depoimento, meu irmão veio falar comigo, disse para ele o que tinha acontecido e ele mandou eu contar tudo. Daí eu criei coragem. Só que eles não escreviam o que eu falava, riam e debochavam.

Então me empurraram quase até o chão e ouvi um barulho, que depois fui saber que era um gravador. Eles falavam e eu repetia. Eles mandavam eu dizer que matei o menininho. Então eu falava “eu matei o menininho”. Eles perguntavam “como você matou?” e mandaram eu dizer que usei uma serra. “Que serra?” Eu não sabia, aí não teve dúvida, apanhei pra caramba, até dizer como eles queriam”

Quanto tempo durou tudo isso?
Beatriz Abagge - Das 9h às 16h. Ninguém diz onde a gente estava durante esse tempo.

A promotoria fala que não houve a tortura.
Beatriz Abagge - Então eles que nos digam onde nós estávamos naquele dia, das 8h e pouco da manhã até quase 16h. Com provas e testemunhas. Desde o nosso primeiro depoimento a história é a mesma, sem nada a mais, sem nada a menos.

Três pessoas já foram condenadas nesse processo. Eles também teriam confessado.
Celina Abagge - Sob tortura a gente diz qualquer coisa.

A participação deles na morte do Evandro também é questionada?
Beatriz Abagge - Somos todos inocentes.

Se os policiais estavam procurando a Scheila, por que é que eles levaram a senhora?
Beatriz Abagge – No fórum, eu fiquei agarrada com a minha mãe. Na hora que colocaram ela dentro do carro, eu fui junto. Eles só foram descobrir que eu não era a Scheila durante a tortura. Teve um momento que eles colocaram o Osvaldo perto de mim para ver se eu o reconhecia. Ele disse: “Bea, sou eu, o Osvaldo”. Quando ele disse isso, os policiais falaram entre eles: “Bea? Não é Scheila?” Foi aí que eles souberam que eu era a Beatriz. Antes era chamada de Scheila e eu não ia falar que não era. Eu já estava ali mesmo, o que ia adiantar?

Qual era a relação da senhora com o centro de búzios do Osvaldo Marcineiro?
Beatriz Abagge - Eu frequentei. Fui algumas vezes ao centro de umbanda, mas já não estava mais indo, mesmo porque eu gostava mesmo de ler, lia Chico Xavier, André Luiz, livros espíritas. Fui conhecer e jogar búzios, como toda mulher vai. Quem é que nunca foi numa sortista? Mesmo que eu fosse mãe de santo, não justifica nada disso.

Vocês conheciam o Evandro?
Beatriz Abagge - Eu nunca vi. Eu nem morava em Guaratuba.

Celina Abagge - Eu o conhecia de vista, porque o pai dele era funcionário da prefeitura. Duas vezes eu vi esse menino, porque minha casa era na frente da prefeitura. Ainda falei “que lindo, parecido com meu neto, cabelinho do meu neto”. Ainda dei tchau para o menino, ele deu tchau para mim. Da segunda vez nem fiz comentário, só o vi com o pai.

Como ficou o relacionamento com as pessoas da cidade depois da prisão?
Celina Abagge - Não mudou nada. Na mesma semana em que acabou o júri fui para Guaratuba. Ninguém da família queria ir, todo mundo chorava. Eu avisei: “se vocês não me levarem, eu vou de ônibus ou vou a pé, porque quero ver o que é que aconteceu com Guaratuba”. A vida inteira eu trabalhei por aquele povo, mesmo antes de o meu marido ser prefeito. Eu disse para os meus filhos: “eu quero ir da praia até a praça, pelo meio da rua”. Eu estava a fim de morrer mesmo, porque para mim acabou minha vida ali. E todo mundo veio conversar comigo.

 Vocês chegaram a sofrer ameaças posteriores?
Beatriz e Celina Abagge - Não.

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