Jurados e acusada se recusam a ver vídeo do corpo que seria de Evandro

Primeira parte do julgamento foi marcada por debate sobre identidade do corpo mutilado em 1992. Para acusadas, não é de Evandro

Luciana Cristo, iG Paraná |

De forma bem distinta do que ocorreu há 13 anos, o segundo julgamento de Beatriz Cordeiro Abagge - uma das principais acusadas de ter matado o menino Evandro Ramos Caetano, em 1992 - começou de forma calma e sem manifestações calorosas do público, pouco depois das 9 horas desta sexta-feira. Beatriz está sendo julgada no 2º Tribunal do Júri de Curitiba.

Veja a cronologia do caso e a versão da defesa e dos acusados

Os pais do menino Evandro acompanham este início de julgamento em uma área na qual a imprensa não tem acesso. Fora do tribunal, faixas de apoio à inocência de Beatriz foram afixadas nas grades.

AE
Maria e Ademir Caetano, pais do menino Evandro Ramos Caetano
Os filhos gêmeos de Beatriz, de 21 anos, acompanham a sessão, assim como a mãe dela, Celina, também acusada do crime, mas liberada desse novo julgamento por ter mais de 70 anos. Pessoas que defendem a inocência da acusada usam camisetas pedindo a sua absolvição e a apuração da suposta tortura que ela teria sofrido quando foi presa, em 1992.

Depois de a sessão ter sido interrompida por aproximadamente 40 minutos, no início da manhã, foram ouvidas duas testemunhas e os questionamentos giraram em torno da identidade do cadáver encontrado em um matagal na cidade de Guaratuba, no litoral do Paraná. Para a defesa de Beatriz, não há certeza de que o corpo encontrado seja mesmo o de Evandro (argumento principal que provocou a absolvição de Beatriz no primeiro julgamento, em 1998).

Por sua idade avançada, o primeiro a ser ouvido pelos jurados foi o perito aposentado do Instituto de Criminalística Artur Conrado Driesch, que analisou as marcas no corpo que seria o de Evandro, na época. Testemunha arrolada pela defesa, ele reafirmou que a altura da criança, de 1,19 metros, seria incompatível com a altura média de uma criança de seis anos, a idade de Evandro. Segundo o perito, a altura máxima seria de um metro.

Ainda segundo a análise do perito, as marcas provocadas pelos cortes no corpo da criança teriam sido feitas por um instrumento muito específico, e não uma serra, por exemplo. Na fita gravada com a confissão das acusadas (para a qual elas alegam terem sido torturadas), elas dizem que usaram uma serra para matar a criança.

Em seguida foi a vez do depoimento da perita Beatriz França, do Instituto Médico-Legal, que em 1992 fez a análise da arcada dentária da criança. Diferente da primeira testemunha, a perita do IML atestou que a idade máxima que se poderia dar ao corpo era de seis anos e nove meses. Ela reafirmou a convicção de que o corpo analisado era o de Evandro e que essa convicção baseava-se em uma conclusão científica.

A promotoria pediu, então, que se mostrasse o vídeo com a perícia feita no corpo de Evandro, encontrado sem as mãos, os dedos dos pés e sem vários órgãos internos. Nesse momento, Beatriz e outros membros da defesa se retiraram da sala, assim como Celina e outros familiares da acusada. Dois dos sete jurados preferiram não olhar para as imagens.

A defesa questionou o laudo apresentado pelo IML, que tinha a assinatura de apenas um perito e não dois, conforme pressupunha os procedimentos adotados no ano da tragédia. Depois do intervalo dado para o almoço, perto das 13h30, novas testemunhas devem ser ouvidas na tarde desta sexta-feira. O limite é de cinco testemunhas para cada parte. Feito isso, o réu é interrogado.

Luciana Cristo/iG
Beatriz e Celina Abagge
Trâmite do júri

Depois disso, a palavra é passada ao promotor e, logo após, ao advogado. Cada um tem uma hora e meia para falar. Pode haver mais um tempo de uma hora de réplica ao promotor e mais uma hora de tréplica à defesa.

Depois dos debates, o juiz faz a leitura e explicação dos procedimentos aos sete jurados, que então se reúnem na chamada sala secreta para definirem seus votos. Com base na decisão que sair daí, o juiz fixa a pena.

Caso o julgamento passe das 20 horas desta sexta, a sessão será suspensa pelo juiz, sendo retomada neste sábado. Os jurados serão encaminhados para um hotel e devem ficar incomunicáveis. A previsão da promotoria é que o julgamento de Beatriz se prolongue pelo fim de semana, enquanto a defesa estima que ainda nesta sexta se possa ter uma decisão.

No Brasil, ao contrário de países como os Estados Unidos, o júri não precisa de uma decisão unânime, valendo o voto da maioria, ainda que a diferença seja pequena (como quatro votos a três).

Primeiro julgamento

As acusadas já foram julgadas em 1998, mas esse julgamento foi revogado pela Justiça. O veredicto emitido naquela ocasião foi que o corpo encontrado desfigurado num matagal, em 11 de abril de 1992, não era de Evandro. O MP-PR recorreu e pediu um novo julgamento, o que foi deferido pelo Poder Judiciário.

A mãe de Beatriz, Celina Abagge, também acusada do crime, não vai a julgamento porque a lei brasileira prevê que o prazo máximo de prescrição (tempo que uma pessoa tem para ser processada e julgada) é de 20 anos. Quando o réu faz 70 anos, este prazo conta pela metade.

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