Para advogados, ela não teve seu direito de defesa assegurado durante o julgamento que a condenou pela morte do menino Evandro

Os advogados de Beatriz Abagge ingressaram na tarde desta quinta-feira com um recurso no Tribunal do Júri de Curitiba pedindo a anulação do julgamento que aconteceu na semana passada e que a condenou pelo assassinato do menino Evandro Ramos Caetano, de seis anos, que desapareceu de Guaratuba (litoral do Paraná), em 1992. Agora, o recurso será apreciado pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR).

A alegação principal para o recurso baseia-se no cerceamento da defesa. Entre os pontos destacados pela defesa, de acordo com a advogada Patrícia Piasecki, é pedido para que se faça o exame de luminol (que detecta vestígios de sangue em lugares e objetos, mesmo que tenham sido limpos, e muito tempo depois) nos objetos que teriam sido utilizados para cometer o crime, encontrados na serraria da família Abagge.

O promotor Paulo Sérgio de Lima, que participou desse segundo julgamento de Beatriz, informou à reportagem do iG que as possibilidades de que o júri seja anulado são mínimas. “As chances são remotas. Pela prova (corpo do Evandro) não dá mais para anular. Estou há 12 anos no caso e nunca duvidei da responsabilidade de Beatriz na morte do menino. Outras provas indicam isso, como a acusação feita pelos três pais-de-santo também condenados pelo crime”, afirma o promotor.

A condenação

Com 47 anos, Beatriz foi condenada a 21 anos e quatro meses de prisão, considerada pela Justiça como uma das mandantes do sequestro e de um ritual de magia negra com partes do corpo do menino Evandro para "abrir os caminhos para a família", com a ajuda de pais-de-santo. Tendo já cumprido um sexto da pena antes desse julgamento, Beatriz vai cumprir o restante em regime semiaberto (passa os dias fora e volta à noite para dormir na prisão).

Foto do menino Evandro, que desapareceu com seis anos de idade, em 1992
Arquivo pessoal
Foto do menino Evandro, que desapareceu com seis anos de idade, em 1992
Este foi o segundo julgamento ao qual Beatriz foi submetida. No primeiro, em 1998, a mãe dela, Celina Abagge, também foi ré. Agora, o crime já prescreveu para Celina, hoje com 72 anos. Naquele primeiro júri, as duas foram absolvidas porque os jurados decidiram que não havia provas suficientes para se atestar que o corpo encontrado – praticamente irreconhecível, sem mãos, sem os dedos dos pés, com o tórax aberto e sem o couro cabeludo – era realmente o de Evandro.

Treze anos depois, exame de DNA feito a partir de restos mortais da criança atestou com 99,997% de certeza de que o cadáver é mesmo o de Evandro, de acordo com laudo apresentado pelo Ministério Público do Paraná, o que permitiu resultado distinto neste segundo julgamento.

Além de Celina e Beatriz, outras cinco pessoas foram a júri popular para responder pelo crime. O processo foi desmembrado em três julgamentos distintos. Após o primeiro de mãe e filha, outro ocorreu em 2004, com a condenação de três pais-de-santo (Osvaldo Marcineiro, Vicente de Paula Ferreira e David dos Santos Soares). No ano seguinte, outro julgamento absolveu Airton Bardelli dos Santos e Francisco Sérgio Cristofolini, depois de terem passado sete anos presos.

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