Postura dos EUA na A. Latina frustra Brasil, diz Garcia

Por Natuza Nery BRASÍLIA (Reuters) - O Brasil está frustrado com o governo dos Estados Unidos por sua atuação na América Latina, em especial na crise em Honduras, e em relação às indefinições na Rodada de Doha e ao impasse nas negociações sobre mudanças climáticas.

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O que o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, aponta como certa dose de decepção já vem sendo tema de conversas nos setores diplomáticos da administração Luiz Inácio Lula da Silva.

Incomodou, sobretudo, a decisão do governo do presidente Barack Obama de considerar legítima a eleição presidencial em Honduras, que ocorre no próximo domingo, mesmo sem a restituição ao poder do presidente deposto, Manuel Zelaya, defendida por líderes latino-americanos e, no início da crise, pelo próprio governo norte-americano.

"Até agora há um certo sabor de decepção que nós esperamos que seja revertido", disse Garcia a jornalistas no Palácio do Itamaraty. "Isso está provocando uma certa frustração", acrescentou.

Ao comentar a crise em Honduras, deflagrada em 28 de junho, Garcia considerou "lamentável que se queira limpar um golpe de Estado com um processo eleitoral". Zelaya está abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa desde sua volta ao país em setembro.

O assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou "o clima favorável que se criou com a eleição do presidente Obama e na reunião de Trinidad e Tobago", na qual o presidente norte-americano se apresentou aos países latino-americanos em ambiente de bastante cordialidade e repleto de simbolismos.

Após cerca de 10 meses de governo Obama, no entanto, Garcia avalia que a administração Obama pouco trabalhou sua relação com a região. Para ele, o fato de a América Latina ser uma região pacífica, sem "explosões de bombas e atentados", não deve ditar uma postura "ausente" dos EUA.

Para Garcia, Honduras corre o risco de "viver um período de alta instabilidade", pois uma parte da população não vai reconhecer a eleição presidencial. Ele avalia como "equivocada" a postura dos EUA e afirmou que a Casa Branca tinha condições de pressionar o governo de facto de Honduras.

Em relação à Rodada de Doha, o principal auxilar de Lula para assuntos internacionais citou uma carta de Obama enviada ao colega brasileiro no fim de semana, com perspectivas pouco otimistas em relação às negociações, iniciadas em 2001 com o objetivo de se chegar a um acordo multilateral que reduza tarifas comerciais e os subsídios dados por países ricos a seus produtores.

Ao falar sobre a cúpula sobre mudanças do clima, marcada para o mês que vem em Copenhague, Garcia disse que "os Estados Unidos não estão entregando praticamente nada". Países em desenvolvimento pressionam as nações ricas a adotarem metas ambiciosas para a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa.

Apesar das frustrações, no entanto, Marco Aurélio Garcia disse não haver nenhuma inflexão nas relações bilaterais e espera uma reversão de comportamento, acrescentando, no entanto, que essa desejada mudança de atitude não chegue à região "tarde demais".

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