Por que Varre-Sai, Saco do Rei e Vai–Quem-Quer têm este nome?

Com novo serviço do IBGE, vai ser possível saber. Instituto lança banco de dados para padronizar e explicar nomes de cidades, bairros e vilarejos do País

Leandro Beguoci, iG São Paulo |

Reprodução/Google Maps
A letra B marca a localização de Varre-Sai, cidade a 370 quilômetros do Rio de Janeiro
Varre-Sai é uma simpática cidade a 370 quilômetros do Rio de Janeiro, comporta um dos maiores centros de produção de café do Estado e é a terra natal do compositor e violonista Baden Powell, um dos mais talentosos nomes da bossa nova. Mas nada disso impede uma meia dúzia de pessoas maldosas de ignorar esses feitos com piadas deselegantes.

Tudo por conta, claro, do nome deste município que abriga 9,5 mil varresaienses. Se os maledicentes soubessem a lição de solidariedade que este nome enseja, talvez pensassem duas vezes (ou não, como diria Caetano Veloso). E esta é uma das missões de um novo serviço que estará disponível no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir desta sexta.

O IBGE colocou no ar o Banco de Nomes Geográficos do Brasil (BNGB) , uma iniciativa inédita e que ainda está sendo aperfeiçoada (o site tem alguns problemas - é preciso dar muitas voltas para chegar a algumas informações simples, como a história do nome da cidade). O banco de dados foi construído durante um esforço de seis anos para mapear todos os nomes de bairros, vilarejos e cidades do País. Até agora, há 55 mil nomes registrados, um número que deve crescer ao longo dos próximos anos. Segundo o instituto, há três objetivos oficiais na criação deste banco.

O primeiro é padronizar os nomes para evitar, por exemplo, que algum desavisado ache que Campos dos Goytacazes e Goitacazes são cidades diferentes (entre eles, os colegas de profissão de quem assina este texto e equipes médicas de emergência). Com isso, se evita confusões geográficas: há Itupiranga, no Pará, e Ituporanga, em Santa Catarina. Há Parnaíba, no Piauí, e Paranaíba, em Minas Gerais.

O segundo é padronizar os nomes dos lugares para permitir que as pessoas tenham um local claro de nascimento. As certidões de nascimento só podem ser lavradas, pela legislação do Brasil, quando a pessoa tem um nome e um local de nascimento conhecido – o que é difícil de conseguir em regiões em que um mesmo lugar é conhecido por várias denominações.

Reprodução/Google Maps
Itupiranga, no Pará, e Ituporanga, em Santa Catarina, estão separadas por uma vogal e 2977 quilômetros
Além disso, há os casos de lugares com o mesmo nome em Estados diferentes. Para se ter uma idéia, há 236 lugares chamados Santo Antônio e 220 com o nome de São João espalhados pelos milhares de quilômetros quadrados do Brasil (pelo menos, que o IBGE conseguiu contar até agora). Também há um Alto Alegre em Roraima, São Paulo e Rio Grande do Sul. Um Alto Boa Vista em Mato Grosso e Santa Catarina. Cantagalo é nome de bairros e cidades no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. Vargem, em São Paulo e Santa Catarina. A lista é enorme.

O terceiro é explicar a origem do nome de cada lugar, como é o caso de Varre-Sai (que em alguns lugares é grafado como Varre-e-Sai, incluindo placas rodoviárias). Varre-Sai tem este nome porque, há alguns anos, havia um rancho onde hoje é a cidade em que os tropeiros podiam dormir de graça, desde que obedecessem a uma regra simples: conservar o local limpo. Uma placa se encarregava de informar os visitantes: “Varre e Sai”. Caieiras, em São Paulo, onde quem assina este texto nasceu, por exemplo, terá sua história revelada ao mundo: o nome vem dos fornos de cal que deram origem ao município.

Também há um quarto, não-oficial e extremamente útil: caro morador de Varre-Sai, você não está sozinho. Há centenas de lugares pelo País com nomes pouco convencionais: Boa Morte (Minas Gerais), Cacha Pregos (Bahia), Cafundó (Bahia, Piauí), Canafístula (Alagoas, Ceará, Maranhão), Encanta Moca (Pernambuco), Igarapé Macaco–Prego (Amazonas), Igarapé Vai-se-Ver (Acre), Lagoa do Cafundó (Tocantis), Mandaçaia (Minas Gerais, Pernambuco), Pendura Saia (Goiás), Rio Vaivém (Goiás), Ribeirão Vai-e-Vem (São Paulo), Rola–Moça (Minas Gerais), Saco da Onça (Ceará), Saco do Boi (Maranhão), Saco do Cocoruto (Rio Grande do Sul), Saco do Rei (Piauí), Terra da Morte (Amazonas), Vai-com–Jeito (Amazonas), Vai-Volta (Minas Gerais), Vai–Quem-Quer (Amazonas, Pará) e Varre-Vento (Amazonas).

E assim, involuntariamente, o IBGE dá uma grande contribuição à cidadania: o combate ao bullying municipal.

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