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Por que é tão difícil emagrecer?

Por que é tão difícil emagrecer? Por Por Luciano R. Giacaglia (*) São Paulo, 03 (AE) - Para responder a esta pergunta devemos retornar ao passado, em algumas centenas de anos.

Agência Estado |

A pergunta então seria outra: por que não se engordava com tanta facilidade?
A humanidade, ao longo de sua evolução, enfrentou o mesmo problema que outras espécies em nosso planeta. Este problema se chamava fome. A verdade é que nós descendemos daqueles que foram capazes de suportar longos períodos de escassez alimentar, especialmente nos períodos de seca, de invernos rigorosos, de pandemias ou até mesmo durante conflitos bélicos. A genética humana se desenvolveu a fim de selecionar aqueles mais capazes em estocar gordura corporal, com menor gasto de calorias no cotidiano e, principalmente, aqueles menos sujeitos à redução de peso. Estes exatos genes, que garantiram a sobrevivência de nossos antepassados, hoje conspiram contra nós, num mundo com excesso de alimentos hipercalóricos e maior sedentarismo, em função das comodidades tecnológicas que o mundo moderno proporcionou.

Com a recente elucidação do genoma humano, se esperavam desvendar as possíveis mutações envolvidas na causa da obesidade e com isso desenvolver novas estratégias no tratamento desta doença crônica. Fato é que, após exaustivas buscas, mutações causadoras de obesidade foram encontradas em uma ínfima porção de indivíduos. Desta forma, mutações genéticas não podiam justificar a explosão epidêmica da obesidade no mundo moderno. Isto só veio a confirmar que a real causa da obesidade não se encontrava no indivíduo, muito menos nos seus genes, mas sim no meio ambiente onde ele vivia. Nossa genética, intacta e sem mutações, foi moldada para um ambiente bem diferente do atual.

Por outro lado, poderíamos questionar: por que então não somos todos obesos neste mundo moderno? Porque, apesar de todas as mudanças ambientais, ainda existem magros? Os magros poderiam ser considerados a chave do entendimento de, como em uma situação adversa, alguns indivíduos são capazes de se defender do meio ambiente "engordativo", assim como existem indivíduos naturalmente imunes a diversos tipos de vírus. Os magros, e não os obesos seriam os verdadeiros mutantes, podendo constituir um novo foco de estudo para fornecer as pistas para modificar o metabolismo corporal, a fim de nos tornar mais resistentes ao ganho de peso. Só nos resta esta alternativa, do contrário, teríamos que abdicar de todo avanço tecnológico e adotar um estilo de vida semelhante a nossos ancestrais primitivos, medida praticamente impossível de se imaginar.

Enquanto não podemos promover mudanças permanentes no metabolismo resta aos obesos, como medida compensatória (e não porque são pessoas preguiçosas), adotar uma vida mais ativa em comparação aos magros, com exercícios aeróbicos de mais de 40 minutos de duração, e com freqüência mínima de cinco dias na semana.

Com relação à dieta, não podemos esquecer que uma alimentação saudável segue os mesmos preceitos para todos os indivíduos, independente da necessidade de reduzir o peso. Dieta saudável é uma só e deve ser rica em vegetais e frutas de cores variadas, com carboidratos integrais, leguminosas e laticínios desnatados, com moderado consumo de proteínas animais e gorduras insaturadas, e restrição ao consumo de sal, de gorduras "trans" e saturadas e de carboidratos processados, incluindo o açúcar. A quantidade calórica deve ser estipulada pelo médico ou nutricionista, lembrando que o obeso não necessariamente come mais que o indivíduo magro (como são freqüentemente acusados), mas ingere mais calorias do que o seu organismo necessita. Portanto, o obeso não deve seguir uma dieta por ser um glutão "sem-vergonha", mas sim para compensar uma maior tendência em acumular gordura. No indivíduo obeso, qualquer redução brusca na oferta de calorias será interpretada como ameaça de fome, e suscitará mecanismos compensatórios do organismo para reduzir o metabolismo, aumentar o aproveitamento alimentar e a busca de alimentos mais calóricos, incentivando assim os hábitos compulsivos, comuns a quem segue dietas restritivas. Nesta situação, a redução do metabolismo se reflete pela redução do rendimento intelectual, da temperatura corporal e do ritmo intestinal, entre outros. Submetido a variações bruscas do peso, o cérebro, por meio de um mecanismo denominado "memória do peso", se esforçará ao máximo para retornar ao peso anterior, incorporando alguns quilos extras, para se garantir contra novas privações futuras. Portanto, as dietas que prometem perda rápida de peso, além do risco para a saúde, são um convite para o agravamento da obesidade no longo prazo.

Finalmente, hoje dispomos de diversos medicamentos que, junto à dieta e atividade física, auxiliam na redução do peso. Devemos considerar que os remédios jamais curam a obesidade, sendo tão somente coadjuvantes. Neste contexto, por outro lado, devemos coibir o hábito freqüente de se utilizar diuréticos, laxantes e hormônios de tireóide com o objetivo de emagrecimento, que além de ineficazes para este propósito, podem acarretar sérios danos ao organismo. A escolha da droga e de sua dosagem deve obedecer a critérios estabelecidos pelo médico especialista, que se baseará na história clínica, no exame físico dirigido e na realização de exames complementares, quando julgar necessários.

Com tudo isto exposto, seria de se esperar que os obesos fossem eximidos de qualquer culpa pelo seu peso, e que os órgãos públicos estimulassem profundas modificações nos padrões alimentares da sociedade, que estimulassem e facilitassem as práticas de atividade física desde a infância, e que fiscalizassem de maneira incisiva a disseminação de práticas inadequadas no tratamento da obesidade. Ledo engano! Os obesos continuam marginalizados e vítimas de uma opressão preconceituosa por parte da sociedade, inclusive por parte de muitos profissionais da saúde, que os discrimina em todos os âmbitos sociais e os estigmatiza como indivíduos preguiçosos e sem força de vontade. Pior seria descobrir que esta atitude deplorável é também inerente à nossa genética!

(*) Luciano R. Giacaglia é médico endocrinologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, doutor pela Faculdade de Medicina da USP e médico assistente da Liga de Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas de São Paulo. Na Internet: www.lucianogiacaglia.medem.com
(**) O conteúdo dos artigos médicos é de responsabilidade exclusiva dos autores.

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