Dezenas de milhares de lacres de carros, documentos de empresas supostamente fantasmas, agendas, notas fiscais suspeitas e até mesmo um a lista de mimos natalinos para delegados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) foram encontrados em uma das principais empresas que estariam por trás do esquema que desviou pelo menos R$ 40 milhões do órgão de trânsito desde 2006. O material foi apreendido ontem durante operação da Corregedoria da Polícia Civil, que cercou as empresas Cordeiro Lopes e Casa Verre, na Vila Prudente, zona leste de São Paulo.

A Cordeiro Lopes é a empresa que detém 9 dos 10 contratos de lacração de carros assinados pelo Detran em 2006. A empresa é responsável pela prestação do serviço de lacração e emplacamento em todo o Estado, exceto na capital. Em agosto, um delegado de Osasco descobriu que a Cordeiro inflava as prestações de contas do serviço prestado. Assim, ela dizia ter lacrado 13 mil veículos em um mês na cidade quando, na verdade, só 4 mil haviam sido lacrados. A estimativa da polícia é que só essa fraude tenha causado um prejuízo de até R$ 40 milhões.

Além disso, a Cordeiro seria uma empresa fantasma criada pelo dono da Casa Verre para fraudar a licitação em 2006. Sua proprietária, Vilma Pereira de Araújo, mora em uma casa alugada no Jardim Japão, zona norte, apesar de a Cordeiro ter faturado, em 2008, R$ 35,6 milhões e, de janeiro a junho de 2009, R$ 29,1 milhões só com o contrato com o Detran.

Operação

A operação era planejada havia um mês. Dois mandados de busca e apreensão foram expedidos pela Justiça, apesar de o Ministério Público Estadual (MPE) ter se manifestado contrário à concessão da busca. Os corregedores levaram uma marreta para derrubar possíveis paredes falsas e peritos criminais especializados em engenharia, informática e fotógrafos. Na sede da Cordeiro Lopes não havia nada: só quatro funcionários. Foi na Casa Verre que toda a documentação da Cordeiro foi encontrada. Lá estavam livros fiscais, notas, agendas, fichas de funcionários e carimbos, além de um cofre.

Em diversos lugares foram encontrados lacres de carros. Ao todo, 418 mil estavam na Casa Verre. Os corregedores entendem que esses lacres jamais poderiam estar lá, pois somente a Cordeiro Lopes pode mantê-los, conforme prevê o contrato. No primeiro andar, os delegados encontraram uma lista de presentes para delegados do Detran. Os corregedores querem saber se esses delegados receberam os mimos e se algum dele era responsável por gerir ou fiscalizar os contratos.

A Corregedoria já investigava a atuação de 18 delegados por causa da assinatura, gestão e fiscalização dos contratos. Além de possível improbidade administrativa, apura-se crimes de formação de quadrilha, falsificação de documentos, falsidade ideológica, fraude em licitação e o desvio de recursos públicos. Até os delegados Ivaney Cayres de Souza e Ruy Estanislau Mello, ex-diretores do Detran, foram ouvidos sobre o caso.

Defesa

"Posso garantir que nada de ilícito foi encontrado", afirmou ontem à tarde o advogado Cássio Paoletti Júnior sobre o resultado da blitz da Corregedoria da Polícia Civil nos escritórios da Cordeiro Lopes e da Casa Verre. "Foram recolhidos contratos firmados entre as duas empresas e mais nada. Se tivessem me ligado, eu teria levado os documentos para a Corregedoria."

Paoletti Júnior defende tanto a Casa Verre quanto a Cordeiro Lopes. Diante da surpresa da reportagem com a revelação, o advogado assinalou: "Acho que depois de 40 anos de trabalho já posso ter dois clientes, não?" E completou: "Estou em busca do terceiro (cliente)." Paoletti Júnior diz que todos os contratos firmados entre a Casa Verre e a Cordeiro Lopes são "absolutamente legais".

"Onde está a ilegalidade?", indagou. "A Casa Verre é a maior empresa do setor no País, talvez na América Latina. Todas as empresas do ramo de placas têm contrato com a Casa Verre, é normal." O advogado também vê com naturalidade o fato de os corregedores terem encontrados documentos de Vilma Araújo, que consta como proprietária da Cordeiro Lopes, nos escritórios da Casa Verre. "São todos documentos referentes a contratos firmados entre as duas empresas", disse Paoletti Júnior. Ele afirma que a Casa Verre e a Cordeiro Lopes são empresas distintas - "basta ir à Junta Comercial e verificar". E questionou: "Ainda que fossem os mesmos donos, qual o problema?"

O advogado considerou "normal" a ação deflagrada ontem pela corregedoria. "É uma conduta policial típica. Se tivessem me ligado, eu teria levado os documentos até eles. Mas, talvez imaginando que haveria maquiagem, sei lá, preferiram pedir ao juiz", assinalou. "Mas não tem nenhum problema. Eles (corregedores) foram até as empresas e recolheram os papéis que consideravam importantes." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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