Poema brasileiro circula na internet atribuído a Neruda

Ana Mendoza. Madri, 13 jan (EFE).- Atribuído por erro a Pablo Neruda, sob o título Morre Lentamente, o poema A Morte Devagar, da escritora gaúcha Martha Medeiros, circula - com algumas alterações - há anos na internet sem que ninguém detenha essa bola de neve, ao ponto de muitos o terem recebido como mensagem online de Ano Novo na Espanha.

EFE |

"Morre lentamente quem não viaja/ quem não lê/ quem não ouve música/ quem não encontra graça em si mesmo/ Morre lentamente/ quem destrói seu amor próprio/ quem não se deixa ajudar...". Assim começa o poema com o qual alguns quiseram ganhar ânimo para 2009.

O problema é que ele não é obra do poeta chileno, como assegura à Agência Efe a Fundação Pablo Neruda, mas de Martha Medeiros, autora de diversos livros e cronista dos jornais "Zero Hora" e de "O Globo".

Cansada de as pessoas acharem que o poema é do poeta chileno, a própria Martha contatou a fundação para esclarecer a autoria do texto, cujos versos coincidem em grande medida com "A Morte Devagar", publicado na véspera do Dia de Finados de 2000.

Em declarações à Efe, Medeiros reconhece que não sabe como o poema começou a circular na internet, embora não seja uma surpresa para ela, já que "muitos textos" seus circulam pela rede "como se fossem de outros autores".

"Infelizmente, não há nada o que fazer", acrescenta.

A poeta e romancista, de 47 anos, admira profundamente Neruda e se declara "fã" de seus poemas, mas prefere que "se reconheça o próprio trabalho de cada um".

No entanto, não perde o sono com essas coisas e afirma ter "humor suficiente para rir de tudo isso".

A Fundação Pablo Neruda afirma, como Martha, que pouco se pode fazer para deter essa "bola de neve" na rede, já que uma simples busca no Google por "Morre Lentamente", mais o nome de Neruda, leva a 19.100 resultados.

"Não sabemos quem o atribuiu a Neruda, mas os 'nerudianos' (estudiosos da obra do poeta) que consultamos não o conhecem", afirma Adriana Valenzuela, bibliotecária da fundação.

Não é só "Morre Lentamente" o único Neruda falso que pode ser encontrado pelos internautas. Segundo Adriana, também é comum atribuírem ao autor do "Canto Geral" os poemas "Fica Proibido" - aparentemente do escritor e jornalista espanhol Alfredo Cuervo - e "Nunca te Queixes", cujo autor a fundação ignora.

Não é a primeira vez nem será a última que, como afirma à Efe Fernando Sáez, diretor-executivo da fundação, qualquer um "'cola' em um poeta famoso frases que não escreveu e de autoria desconhecida".

"O mesmo já aconteceu com um conhecido texto atribuído a Jorge Luís Borges sobre as maravilhas da vida, e que nem com toda sua ironia o próprio teria suportado", afirma Sáez.

Ficou conhecido também o caso do poema "Instantes", supostamente de Borges e que María Kodama, viúva do escritor argentino, esclarece ser da escritora americana Nadine Stair.

Mais famoso ainda é o caso envolvendo o apócrifo "A Marionete", atribuído a Gabriel García Márquez. Na ocasião, o prêmio Nobel de Literatura colombiano se despedia de seus amigos, após saber que estava doente de câncer. Nada disso era verdade.

"Se por um instante, Deus se esquecesse que sou uma marionete de trapo e me presenteasse um pouco de vida, aproveitaria esse tempo o máximo possível...", diz o texto, cuja "breguice" quase mata de verdade García Márquez, como ele mesmo disse, ao desmentir que o poema fosse seu.

"O que pode me matar é a vergonha que alguém provoca ao dizer que fui eu quem escreveu uma coisa tão cafona", disse "Gabo" na ocasião.

EFE amb/jp/fr

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