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Plano de ordem entra em choque com cultura de praia no Rio

Por Stuart Grudgings RIO DE JANEIRO (Reuters) - Victor Javier passou num instante de participante de um despretensioso jogo de altinho na praia para uma vítima desavisada do choque de ordem nas praias do Rio de Janeiro.

Reuters |

"É ridículo. Não tem ninguém aqui, é uma praia pública", disse Victor, numa tarde recente, gesticulando para a praia quase vazia, após dois guardas fardados cruzaram a faixa de areia e ordenaram que Javier e seus amigos parassem na hora com o jogo na beira do mar.

Não importa. De acordo com regras destinadas a levar ordem às praias cariocas, jogos com bola estão entre as atividades que foram restringidas ou proibidas nas praias da cidade, que nos próximos sete anos será sede da final da Copa do Mundo de futebol e da Olimpíada.

Mas o "choque de ordem" está enfrentando resistência nas areias do Rio, cujos frequentadores temem a perda da espontaneidade e do caráter de lugares emblemáticos como Ipanema e Copacabana.

A praia, na verdade, é o mais novo alvo de uma campanha destinada a impor a ordem em todo o Rio de Janeiro. Adotada há quase um ano, a iniciativa ganhou mais impulso com a escolha do Rio como sede da Olimpíada de 2016.

Neste mês, o governo estadual contratou o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani para dar conselhos sobre como reduzir a criminalidade no Rio, a exemplo do que ele conseguiu fazer com a política de "tolerância zero" na cidade norte-americana.

Recentemente, o prefeito Eduardo Paes ameaçou cancelar a coleta de lixo nas praias em algum domingo para mostrar como os cariocas são "porcos".

O secretário municipal de Ordem Pública, Rodrigo Bethlem, encarregado de cumprir as novas medidas, disse que o papel central da praia na vida carioca faz com que esse seja um terreno crucial da batalha.

"A praia é um lugar emblemático. Se conseguirmos ter sucesso na organização da praia, significa que podemos organizar a cidade", disse ele à Reuters.

SEM BOLA NEM CAMARÃO

Ele rejeitou a tese de que as regras tirariam a espontaneidade da vida praiana, alegando que a maior parte das medidas se destina apenas a tornar o local mais limpo e seguro.

Pelas novas regras, fiscalizadas inicialmente por 143 guardas municipais, jogos de bola na beira da água ficam proibidos entre 8h e 17h. As autoridades dizem que crianças têm sido machucadas por jogadores e bolas.

Outra atividade muito apreciada que está sendo coibida é a venda de petiscos como os espetinhos de camarão e de queijo coalho por ambulantes. Os banhistas também ficam proibidos de trazerem isopores com bebidas e de ligarem aparelhos de som.

Mas os principais alvos das novas medidas são as centenas de barracas na orla marítima, que alugam cadeiras e vendem de tudo -- de cerveja a churrasco.

Pelas novas regras, nomes e propagandas nas barracas ficam proibidas, e elas terão de aceitar reformas para ficarem com coberturas brancas e equipamentos que, embora de aspecto agradável, são um tanto frágeis.

"Eles estão colocando em vigor sua própria lei, mas está errado", disse Marcel Damasceno de Matos, 39 anos, que diz trabalhar há dez anos num trecho de Ipanema. "Tenho clientes dos Estados Unidos e de outros países que voltam ano após ano e procuram o meu nome. Agora vai ter muita confusão."

Mas, num país onde há muitas leis e pouca fiscalização, nem todos os frequentadores estão convencidos de que o "choque de ordem" será tão rígido.

"A lei existe, mas a gente está no Brasil", disse Bernardo Braga, modelo e estudante de 26 anos, que jogava bola na praia de Ipanema. "Basta andar por aí para ver todas as regras sendo ignoradas."

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