Plano contra o crack não terá efeitos, diz médico

Para pesquisador da Universidade Federal de São Paulo, plano não vai chegar aos dependentes e às "cracolândias"

Daniel Torres, iG São Paulo |

Um dos mais respeitados estudiosos sobre os efeitos das drogas e do crack no País, o professor orientador do programa de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), Dr. Ronaldo Laranjeira, criticou o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outra Drogas lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta quinta-feira, em Brasília.

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Aumento no consumo do crack preocuopa médicos
"Eles estão anunciando medidas que já foram anunciadas e não foram feitas. O plano parece mesmo é ser eleitoral. O governo sempre anuncia investimentos, mas a gente não vê chegar”, afirma o professor.

Entre as principais medidas anunciadas pelo governo está a criação de cerca de 2.500 leitos para tratamento de dependentes químicos nos hospitais gerais do País . Mas a medida já havia sido anunciada em junho e novembro de 2009 pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, na Campanha Nacional de Alerta e Prevenção do Uso do Crack. Segundo o Ministério da Saúde, a medida não foi realizada antes por falta de verba.

“Precisamos saber na prática onde serão esses locais de internação. De onde e como esse dinheiro vai chegar. Se for por repasse aos Estados e Municípios, o governo tem até o dia 3 de junho para fazer isso por impedimento da lei eleitoral. Se não fez nada até agora, não vai ser até o dia 3 de junho que vai fazer”, critica Laranjeira.

No plano do governo, Além da criação de mais leiro em hospitais gerais, o ministério da Saúde pretende promover a transformação de 110 centros especializados em álcool e drogas (Caps-AD), em municípios com mais de 250 mil habitantes, em Caps 3, que funcionarão 24 horas por dia.

Crítico do sistema de atendimento dos Caps, Laranjeira não acredita na efetividade desta medida.“O Caps 3 prevê a internação por 72 horas para o dependente. A internação de 3 dias para um dependente de crack é insignificante. Quem fez esse projeto nunca trabalhou com dependentes”, diz o pesquisador. 

Segundo o governo, um grupo interministerial será formado para discutir as ações que serão feitas com a verba destinada pelo governo. De acordo com a assessoria da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), dos R$ 410 milhões liberados pelo governo, R$ 120 serão destinados para o enfrentamento do tráfico, R$ 100 será investido na reinserção do dependente, R$ 100 milhões na prevenção e pesquisa e R$ 90 milhões na ampliação do número de leitos nos hospitais. 

"A pergunta que temos que fazer é o que uma medida como essa vai mudar nas 'cracolândias'. Posso te dizer que em nada", afirma Laranjeira.

De acordo com o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a apreensão da pasta base de cocaína – usada para produzir as pedras de crack - cresceu de 500 quilos, em 2008, para 4,5 mil quilos em 2009. Proporcionalmente, a apreensão de crack foi maior do que outros tipos de droga, como a maconha e a própria cocaína.

No plano de ação de combate ao crack, o governo federal também pretende trabalhar para obter dados mais precisos sobre o consumo da droga nas cidades brasileiras, fato que foi criticado pelo representante do Escritório das Nações Unidas (ONU) sobre Drogas e Crime , Bo Mathiasen.

Diferente de tudo

"Os profissionais da área de saúde e os funcionários de clínicas estão atônitos. O crack é diferente de todas as outras drogas que conhecemos ”. A frase é do do coordenador do Instituto Minas pela Paz e coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em segurança pública da PUC Minas, Dr. Flávio Sapori.

Flávio Sapori foi um dos palestrantes do “1º Simpósio Sulamericano de política sobre Drogas: crack e cenários urbanos”, que aconteceu em Belo Horizonte neste mês e discutiu os problemas do impacto do consumo de crack na segurança e na saúde pública, a descriminalização de drogas, e as experiências sobre o assunto na América do Sul.

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