Rodrigo Zuleta. Frankfurt, 17 out (EFE).- O pintor alemão Anselm Kiefer falou hoje, em um ato na Feira do Livro de Frankfurt, sobre sua obra e o significado que o livro e a poesia têm para ele, além de ter definido seu conceito de paz.

Kiefer é um homem amável, engraçado, com uma forma de falar concisa e é o primeiro artista plástico a ganhar o Prêmio da Paz dos livreiros alemães.

Sua obra plástica tem a ver com o livro, que aparece como gigantescas esculturas de aço e como referências à Bíblia e outros livros sagrados.

Em certo momento do discurso de Kiefer, alguém lhe perguntou sobre sua relação com a literatura. Outro questionou sobre o que os livros representam para ele. E muitas vezes as perguntas foram mais longas que as respostas.

"A literatura é eminentemente importante para mim. Acho que a poesia é a única realidade da vida", disse Kiefer. Depois sorriu e se calou.

"O senhor utilizará algum dia um livro eletrônico como parte de suas esculturas?", perguntou alguém.

Kiefer sorriu e pareceu duvidar um momento. "Talvez, mas não agora", respondeu finalmente.

Depois falou do livro como objeto material pelo qual é obcecado desde criança.

"Lembro-me de algo que me ocorreu com um dos primeiros livros que li. Eu tinha nove anos e após terminar o livro olhei a contracapa e vi que havia sido impresso em 1942", disse.

"Senti algo raro. Eu havia nascido em 1945 e o livro tinha três anos a mais que eu. Isso são os livros, algo que nos conecta com épocas nas quais não estávamos no mundo", disse.

Um homem, por volta dos 60 anos, pediu a palavra para fazer uma pergunta e finalmente a fez, mas antes pronunciou uma espécie de discurso contra a obra de Anselm Kiefer.

"Quando, em sua obra, há referências à Bíblia, se diferencia dos autores sagrados porque não tem um vínculo com Deus. Em sua obra só há ruínas e a onipotência do desmoronamento", afirmou.

A moderadora se impacientou durante o discurso do homem, o interrompeu e pediu que fizesse a pergunta. Kiefer enquanto isso sorria e escrevia alguma coisa. A pergunta, enfim, foi feita.

"Uma obra como a sua, cheia de ruínas, pode ter alguma contribuição para a paz?", perguntou o homem.

"Acho que o senhor é a primeira pessoa que considera que em minha obra só há desmoronamento. Eu não vejo as ruínas como algo negativo, mas como um novo começo. Além disso, têm algo mágico e convidam à reflexão. Houve, inclusive, uma época no século XIX em que se construíam ruínas", respondeu Kiefer.

O homem insistiu e disse a Kiefer que, em sua obra, interpreta de forma equivocada a Bíblia.

"A Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, está tão cheia de contradições que acho que é impossível interpretá-la de forma errada", respondeu Kiefer. E sorriu.

Mais tarde, voltou a falar das ruínas, e o artista lembrou que quando era criança brincava entre as ruínas que a guerra havia deixado e lamentou por muitas delas terem desaparecido.

Kiefer, que atualmente vive na França, nasceu em Donaueschingen, à beira da Floresta Negra, uma região cujos habitantes costumam ser pessoas fechadas e de poucas palavras. "Nasci e cresci em Donaueschingen e a Floresta Negra me marcou", admitiu o artista.

"Perto dali vivia o filósofo Martin Heidegger", acrescentou, sem dar detalhes de sua relação com o autor de obras como "Ser e Tempo".

Alguém insistiu no tema sobre Heidegger e Kiefer disse nunca ter se encontrado com ele, apesar de Heidegger lecionar na Universidade de Freiburg na época em que Kiefer estudava arte.

"No entanto, li muito e sua obra me acompanhou e ainda me acompanha", disse.

Com quem Kiefer teve um contato direto foi Joseph Beuys, embora, apesar do que se diz em muitas biografias recentes, nunca tenha sido seu aluno na Academia de Arte de Düsseldorf.

"Quando conheci Beuys já havia terminado meus estudos em Freiburg, mas o visitei com freqüência, lhe mostrei meus trabalhos e muito discutimos sobre arte. Acho que Beuys foi importante para mim e tem de ser importante para qualquer artista", disse.

Outra pessoa lhe perguntou pela paz. "A paz não é um estado permanente. Acho que se consigo refletir minhas próprias contradições faço algo pela paz", concluiu. EFE rz/fh/jp

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