SÃO PAULO - O artista Fernand Léger, cubista que influenciou o modernismo brasileiro, tem cerca de 50 obras expostas na Pinacoteca do Estado de São Paulo. A mostra abriu o calendário do Ano da França no Brasil.

- Reprodução
"Tapeçaria" (1961), de Fernand Léger

Além de fazer parte do seleto grupo de pintores que, com Pablo Picasso e Georges Braque, criaram o cubismo no início do século 20, Léger foi "professor" da pintora brasileira Tarsila do Amaral e participou do projeto do Parque do Ibirapuera de Oscar Niemeyer, em São Paulo. Com curadoria de Brigitte Hedel-Samson, curadora chefe do Musée National Fernand Léger, a exposição "Amizades e Relações Brasileiras" busca mostrar a obra do cubista e evidenciar seus contatos com a arte brasileira.

Segundo a curadora adjunta, Regina Teixeira de Barros, Léger foi um dos mais "alegres" cubistas de todos os tempos. Diferente dos outros artistas que, como Picasso, trabalhavam com a "palheta mais rebaixada, cores mais escuras e densas", o pintor francês destacou-se por usar cores fortes, abertas e extravagantes e ter um traço grosso e figurativo.

Léger foi um dos pintores cubistas mais presentes no Brasil durante a primeira metade do século 20. "É um artista mais simpático ao brasileiro. Quando o País estava em busca de uma identidade nacional, o traço dele encaixou como uma luva." 

- Reprodução
O vaso azul, 1948
"O vaso azul" (1948), de Fernand Léger


Não à toa, quem não conhece o francês, mas conhece quadros como "Abaporu" (1928), de Tarsila, se sente familiarizado ao entrar na exposição. A impressão que o visitante tem é que trata-se de uma exposição sobre o modernismo brasileiro. Cactos, traços figurativos e planos dividos por cores extravagantes saltam aos olhos. V êem-se nitidamente as origens do estilo "Pau-Brasil", que marcou a pintora brasileira e toda a primeira fase do modernismo brasileiro.

Para a curadora adjunta, "há uma Tarsila antes de conhecer Léger em 1923, e outra, após esse encontro." O período que Tarsila passou estudando no ateliê de Léger em Paris teria libertado a pintora brasileira do padrão clássico de pintura e beleza. "Tarsila aprendeu que não precisava usar cores pastéis e sóbrias e que podia arriscar." No Brasil, as cores "caipiras" passaram a representar um marco da obra da artista.

- Reprodução
O vaso vermelho com guitarra, 1950
"O vaso vermelho com guitarra" (1950), de Fernand Léger


Devido à estreita relação entre os dois artistas, a curadoria da mostra optou por expor também algumas obras de Tarsila, como "Carnaval em Madureira", de 1924.

Além das cores, Léger foi o precursor da temática urbana e industrial na pintura. "Antes da vida moderna, os temas da pintura eram o retrato, a paisagem e a natureza morta. Com o desenvolvimento das grandes cidades, as máquinas, as luzes da cidade e o cotidiano das metrópoles passaram a ser também um assunto." O artista passou a focar sua obra na vida urbana a partir de sua experiência na Primeira Guerra Mundial (1914 ¿ 1918).

- Reprodução
Charlot cubista, 1923
"Charlot cubista" (1923),
de Fernand Léger

Além dos quadros voltados a esta temática, uma surpresa da mostra é o curta-metragem "Balé Mecânico" (1924). O filme, dirigido pelo artista, faz uma montagem de cenas de fábricas, pessoas trabalhando e andando nas ruas em ritmo musical, semelhante a um balé. O filme será exibido ininterruptamente.

Um segundo momento que marca o contato de Léger com o Brasil é o trabalho com Niemayer no projeto do Parque Ibirapuera, no início da década de 50. Neste projeto, ele faria o painel de um auditório de música. O auditório demorou mais de 50 anos para ser feito e, após muitas modificações, saiu do papel sem o painel. Ainda assim, parte da obra foi pintada em tela e ganha o título de "Tapeçaria" (1961). 

Na mesma época, com Assis Chateaubriand, criador do MASP, desenhou um projeto de uma vila de artistas. O projeto teria teatro, museu, dormitório para 150 artistas, espelhos d´água, fontes e piscinas. Assim como o painel, não saiu do papel, mas seus desenhos e projetos também estão na mostra.

"Fernand Léger: Amizades e Relações Brasileiras"
De 4 de abril a 7 junho, de terça a domingo, das 10h às 18h
Pinacoteca do Estado de São Paulo
Praça da Luz, 2. Telefone: (011) 3324-1000
R$ 4,00 (aos sábados, a entrada é franca)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.